ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Mais uma vez, projeto WimBelemDon luta para sobreviver

por Rafael Bernardes e Mariana Pacchioni | rafaferreiraaa@hotmail.com e pacchionimariana@gmail.com

Marcelo Ruschel (na foto com as crianças que participam do Wimbelemdon) tem 52 anos, nasceu em Porto Alegre e hoje reside no Bairro Belém Novo, na zona sul da cidade. Até 2014 ele exercia a carreira de fotógrafo: viajava pelo mundo cobrindo eventos esportivos, principalmente de tênis. Durante 31 anos, ele acompanhou a carreira dos maiores ídolos desse esporte como, por exemplo, Gustavo Kuerten, o Guga.

Mas ele sempre sonhou em fazer algo diferente. Marcelo era um fotógrafo de renome, tinha muitos clientes e estava feliz, mas não completamente. O sonho de mudar a vida das pessoas ainda era presente: a fotografia não era suficiente, ele ainda buscava algo maior. “Eu passava todos os dias em frente a um terreno abandonado,onde havia uma quadra de tênis, e imaginava o que poderia ser feito naquele terreno, algo que fosse importante, algo tivesse um valor social. Meu sonho era fazer algo que mudasse a vida de alguém”, conta.

Mariana Pacchioni/UniRitter Esporte

Projeto ensina tênis para crianças carentes do bairro Belém Novo, em Porto Alegre

Em 2000, esse terreno, localizado perto da sua casa, no bairro Belém Novo, ficou disponível para aluguel. Marcelo ficou sabendo e, junto com sua esposa, Luciane, fundou o projeto WimBelemDon, que ensina tênis para crianças sem tantas condições financeiras. No início do projeto, Marcelo e Luciane foram até os colégios do bairro para informar os alunos sobre a novidade: um local onde as crianças poderiam jogar tênis e fazer amizades.

Além da prática do esporte, o projeto inicialmente contava com aulas de leitura em uma sala improvisada nos fundos do terreno. Na inauguração do projeto, a primeira turma, formada por crianças de nove a dez anos, estava lotada. O sucesso foi tanto que outra turma foi formada em seguida, com alunos de dez a onze anos. Em menos de três meses, já havia duas turmas no período da manhã e duas turmas no período da tarde, cada uma com aproximadamente vinte alunos.

O início foi difícil. Marcelo descobriu que realizar um projeto social não era tão simples. As dificuldades apareciam todos os meses. O dinheiro era pouco, ele tinha que completar do próprio bolso para continuar com o projeto. Muitas vezes o avisavam que a luz e a água seriam cortadas e ele acabava pedindo empréstimos no banco.

Com o passar do tempo a situação foi melhorando, os patrocinadores foram aparecendo. O projeto estava evoluindo, as aulas de leitura se transformaram em aulas de português e a sala improvisada nos fundos do terreno deu lugar a uma sala estruturada. Mas as dificuldades não acabaram por completo.

Mariana Pacchioni/UniRitter Esporte

Educar com o tênis é o objetivo do projeto Wimbelemdon

Veio a crise econômica de 2008 e o único patrocinador da época desistiu de contribuir. “Nós ficamos desesperados, o nosso sonho poderia acabar. No final do ano o patrocinador resolveu contribuir pela última vez, mas o dinheiro não era suficiente. O único professor de tênis saiu para trabalhar em um clube grande e as crianças ficaram sem professores”, diz Marcelo. “Naquele momento, a vontade de desistir era grande. Nós estávamos desanimados, desiludidos, mas a vontade de fazer algo diferente para aquelas crianças era maior. Conseguimos realizar a contratação de outro professor e o projeto continuou”, lembra, emocionado.

No ano seguinte tudo melhorou. Apareceram novos patrocinadores, novos professores e mais alunos foram inscritos. Hoje, a estrutura está reformulada, desde as grades que separam a quadra da calçada até as salas de aula. Raquetes novas foram compradas, uma empresa de segurança 24 horas foi contratada. A estrutura está sendo ampliada e um refeitório está sendo construído. As crianças que praticam o esporte pela manhã podem almoçar no local e em seguida ir para a escola. As crianças que praticam o esporte durante a tarde podem sair da escola, ir para o projeto, almoçar e exercer as atividades propostas. Mas as dificuldades ainda não terminaram.

Reprodução/WimBelemDon

Campanha Fixando Raízes tem a participação dos alunos do projeto

O dono do terreno em que funciona o WimBelemDon precisa vender a área e Marcelo não tem os cerca de R$ 400 mil necessários para fazer a compra. Por isso, criou a campanha Fixando Raízes, uma vaquinha virtual. Tenistas consagrados do mundo inteiro estão ajudando e a arrecadação está evoluindo, mas ainda falta muito para chegar ao valor esperado. “Tudo o que foi construído foi pedindo dinheiro. Seria triste ter que recomeçar em outro lugar, mas se isso acontecer, nós somos teimosos o suficiente para alugar outro terreno em outro lugar e recomeçar o projeto”, garante Marcelo. “Ver como estão os ex-alunos do projeto nos motiva muito, ver que muitos estão cursando uma faculdade e outros estão em bons empregos nos faz perceber que nada foi em vão e que o projeto não pode acabar”, afirma.

Ídolos do tênis, como Guga, aderiram à campanha Fixando Raízes

O combustível de Marcelo Ruschel e de sua esposa são os alunos e ex-alunos. É a evolução que eles têm jogando tênis e frequentando as aulas. Marcelo sabe que pode estar mudando o mundo dessas crianças. E, com certeza, está fazendo a diferença na vida delas.

NOTA DA EDITORA: Este texto foi escrito um ex-aluno do WimBelemDon. Uma das tantas crianças que teve a vida transformada pelo projeto. Rafael Bernardes, hoje estudante de Jornalismo na UniRitter, é um exemplo do trabalho feito com tanto carinho pelo Marcelo e pela Luciane. Ele escreveu o depoimento abaixo sobre o projeto:

“Voltar ao local onde pratiquei um esporte regularmente pela primeira vez foi muito bom. Nesse local nós não praticávamos apenas esportes, praticávamos cidadania, aprendíamos a crescer no tempo certo, aprendíamos a sentir amor, fazíamos amizades. Nos tornávamos pessoas melhores, crescíamos com sentimentos que nos eram passados pelos professores, pelos orientadores e fundadores do projeto. Eu agradeço sempre por ter feito parte disso, por ter conhecido essas pessoas. Agradeço a cada um deles que me ajudaram a crescer. Esse projeto merece toda a ajuda possível. Só quem vivenciou sabe a importância dele para todas essas crianças”.

Deixe um comentário