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Os caminhos da Azenha: as histórias de um antigo casarão

por Fernanda La Cruz e Isabelle Silva | nanda_cruz@hotmail.com e isabelle.jornalismoritter@gmail.com

Um dia de sol, um silêncio quase total se não fosse o barulho do rádio a pilhas de um segurança que aguarda o início de mais uma partida do Campeonato Gaúcho de 2015. Há dois anos seria impossível presenciar tal calmaria em qualquer parte do bairro Azenha. O lugar que abrigou por 59 anos a torcida gremista de todo o Rio Grande do Sul e enchia ruas inteiras, hoje não recebe mais quase ninguém. Foram décadas de glória do Tricolor por aqui. E o que ficou para contar essa história?

Quem chega até o estádio Olímpico pela entrada principal ainda consegue ver praticamente a mesma fachada. Já quem passa pela Avenida Carlos Barbosa vê um cenário bem diferente. Quem olha, mesmo à distância, logo percebe que o estádio se prepara para a demolição.

Isabelle Silva/UniRitter Esporte

Entulhos se acumulam no entorno do Olímpico

Mas não foi só o Olímpico que foi desativado. Apenas dois dos quatro principais bares que eram pontos de concentração da torcida antes do jogo resistiram à ida do Grêmio para a Arena. De acordo com os comerciantes locais, a tendência é que o movimento reduza ainda mais.

Nos últimos meses, o número de clientes caiu e já não é possível manter um negócio nas redondezas. Contudo, um reduto dos antigos torcedores gremistas está resistindo ao tempo e à solidão. Na Rua Eurico Lara, em frente ao pórtico principal do estádio, o tradicional Bar do Faísca segue com portas abertas.

Proprietário do bar, Edenilson Davi, 42 anos, conta que está no Olímpico desde 2003. Gremista de coração, fez da paixão pelo time o seu negócio. Faísca, como é mais conhecido, relembra o que viveu com o Grêmio: “Sinto falta de tudo. O que vivi aqui não volta. Não acontece nunca mais”. O comerciante, que faturava em média de R$ 10 mil a R$ 20 mil reais em um dia de jogo, confidencia que hoje não ganha mais do que R$ 600. “O que nos fez ganhar dinheiro foi a época. O Grêmio tinha um bom time nos anos 2000. O estádio era sempre cheio, ingresso a R$ 5. Isso não vai acontecer na Arena”, recorda. Mesmo com baixo lucro, Faísca afirma que não pretende abandonar o ponto. “Minha esperança é voltar a ganhar dinheiro com a construção dos novos prédios. Pena que teve de ser assim”, lamenta.

Isabelle Silva/UniRitter Esporte

Dezenas de torcedores tentam, todos os dias, se despedir do estádio que foi palco de grandes conquistas do Grêmio. No entanto, todos os acessos estão bloqueados

Os torcedores se mantêm fiéis 

Há quem também não queira o fim do Bar do Faísca. Felipe Antonielli, 27 anos, é um dos torcedores que não deixou de frequentar o local. Acostumado a caminhar pelas ruas do bairro e encontrar os amigos para assistir o Tricolor, o torcedor conta que é triste ver o “estrago” do Olímpico. Entretanto, Felipe afirma que não irá deixar a tradição se quebrar. “Estou aqui desde os sete anos, conheço todo mundo. Venho até o Olímpico e vejo o jogo no bar do Faísca. Isso é clássico e vai continuar assim. A gente vai ficar por aqui”, promete.

Isabelle Silva/UniRitter Esporte

Segurança do Olímpico, Tadeu Lemos diz que não vai esquecer os momentos felizes vividos no estádio

Já no final da partida, aquele guarda solitário que acompanhava o jogo pelo rádio comemora a vitória do Grêmio. Ele é Tadeu Lemos, 58 anos – destes, 31 foram vividos no Olímpico Monumental. Trabalhando como segurança do estádio, Tadeu conta que viu o Grêmio conquistar diversos títulos, acompanhou fases boas e ruins do time, mas o que ficará marcado é a década de 90: “Foi uma fase de ouro. Vi mais de 60 mil pessoas torcendo para o melhor time que já existiu, com Jardel, Paulo Nunes e Ronaldinho…”, recorda, com saudade.

Esse tempo ficará na memória de Tadeu e de muitos outros funcionários que, segundo ele, sentirão falta de trabalhar no Velho Casarão – apelido pelo qual o estádio é chamado pelos torcedores. “Tem muita gente antiga com 30, 40 anos de história de Grêmio que está triste”, declara.

A saudade que será sentida por todos

Tadeu afirma que, todos os dias, torcedores gremistas tentam entrar pela última vez no estádio. “Muita gente vem aqui se despedir, hoje já foram mais de dez pessoas. Infelizmente, temos ordens da diretoria para não deixar ninguém entrar”, explica. Sobre a possível data de implosão do Estádio Olímpico, o segurança assegura que sabe o mesmo que todos: “Dizem que não tem data prevista. A gente escuta os rumores, mas não tem certeza de nada. A única coisa que se sabe ao certo é que vão demolir”.

Isabelle Silva/UniRitter Esporte

Abandonado, Olímpico espera pela demolição. Depois de implodido, o estádio dará lugar a um empreendimento comercial

O impasse quanto à demolição

Em outubro de 2012, o então vereador Pedro Ruas protocolou um projeto de lei que previa o tombamento do Estádio Olímpico. Na época, Pedro Ruas disse que a proposta teria respaldo jurídico, e só traria benefícios à cidade de Porto Alegre. Contudo, o projeto foi derrubado na Câmara de Vereadores semanas depois.  Desde então, supostas datas de implosão vem sendo especuladas.

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Seis meses após ser definitivamente desativado, estádio que foi palco de inúmeras conquistas do Grêmio está em processo de demolição

O diretor jurídico do Grêmio, Nestor Hein, em entrevista ao Uniritter Esporte, confirmou que não há nenhuma previsão em relação à demolição. “Como há um impasse nas negociações, o Grêmio só entregará o Olímpico quando receber a escritura da Arena Porto Alegrense. Portanto não há um plano de curto ou médio prazo”, afirma.

A única certeza de Hein é que “a demolição acontecerá certamente”. Será o fim do Olímpico, estádio fundado em 1954 com a ajuda dos próprios torcedores do Grêmio. Um palco de vitórias e lembranças que nenhum torcedor gremista – ou rival – irá esquecer.

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