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Fundação Tênis dá oportunidade para crianças e jovens trilharem novos caminhos

por Jordana Laguna e Luiza Guerim | jordanalaguna1@gmail.com e luizaguerim@gmail.com

O tênis, muito mais do que um esporte de alto rendimento, é uma forma de transformar vidas. Essa é a premissa da Fundação Tênis, organização não governamental que trabalha com crianças e adolescentes em condições de vulnerabilidade social, instituída em 2001. Através dos valores olímpicos – amizade, respeito e excelência -, o programa mostra aos alunos um caminho diferente para a vida.

Luiza Guerim/UniRitter Esporte

Rituais de entrada e saída durante as aulas são fundamentais para o desenvolvimento do trabalho

O barulho de passos rápidos e risadas anuncia a chegada da primeira turma de crianças. Elas saíram de ônibus da Escola Municipal de Ensino Fundamental Nossa Senhora de Fátima, no bairro Bom Jesus, para a primeira de duas aulas de 50 minutos de tênis da semana. Os encontros acontecem no quarto andar do Parque Esportivo, da PUC-RS. Em pouco tempo, meninos e meninas já estão sentados no chão, formando uma roda e escutando atentamente a professora.

Esse momento entre alunos e professor, chamado de ritual de entrada, é parte fundamental de toda a metodologia diferenciada de educação olímpica da Fundação Tênis. Nessa hora, é feita a chamada e apresentado aos alunos o que será abordado e explorado em quadra nos próximos 50 minutos. Essa etapa pedagógica se repete ao final da aula, com o chamado ritual de saída, quando a rodinha se forma mais uma vez. Agora, para refletir sobre o desempenho de cada um, o que pode ser ou foi melhorado, e sobre os valores olímpicos aplicados.

Para Gastão Englert, coordenador geral da Fundação Tênis, esses momentos são fundamentais para dar profundidade no desenvolvimento do trabalho: “Os rituais de entrada e saída são importantes porque se eles simplesmente praticarem o esporte sem ao final refletir, eles não vão criar esse grau de consciência. Eles estarão simplesmente jogando bola.”

Luiza Guerim/UniRitter Esporte

Coordenador geral da Fundação Tênis, Gastão Englert acredita na educação olímpica como caminho de transformação dos jovens

Gastão Englert trabalha há 14 anos na Fundação Tênis, mas estava envolvido no projeto antes mesmo deste começar. Com sua experiência em esporte de alto rendimento e uma carreira multicampeã como atleta e treinador de punhobol, o coordenador conta como o tênis explora, nas crianças, questões como disciplina, respeito e perseverança: “Para ser bom no alto rendimento, é preciso cumprir uma rotina de treinamentos, ser fiel com os planejamentos, estudar o adversário, pensar em estratégia e ser determinado”. Foi a partir dessa ideia que nasceu a Fundação Tênis, “um projeto muito maior e muito mais significativo do que só dar aula de tênis” e sim, “um projeto de resgate de cidadania”, segundo Gastão.

A Fundação Tênis soma mais de 1000 alunos, divididos em núcleos de atividades em Porto Alegre, Igrejinha, Sapiranga, Santiago e São Paulo. Na capital gaúcha, a organização atende crianças e adolescentes de sete a 17 anos, de sete escolas públicas. O trabalho realizado com esses alunos é feito em parceria com a coordenação pedagógica das escolas, que aponta as carências e as dificuldades de cada turma, para que sejam trabalhados pontos específicos de comportamento e desempenho.

Segundo o coordenador geral, a fundação busca seguir a fórmula 25-50-25 para elaboração das turmas. Ou seja, a escola direciona 25% das crianças sem problemas disciplinares, que têm bom desempenho escolar, 50% na média e outras 25% que têm dificuldades de aprendizagem ou problemas de disciplina. “Se em uma turma de 20, todos os alunos são iguais no ponto de vista educacional e comportamental, eles não têm referência para melhorar. E uma parcela muito significativa do resgate é o exemplo”, explica Gastão.

Luiza Guerim/UniRitter Esporte

Amanda, Carlos, Erick e Gilmar são moradores da Vila Fátima e alunos da Fundação Tênis há mais de um ano

Um dos pontos de destaque da metodologia do programa é a medição do “valor olímpico positivo”. Cada vez que um aluno tem uma atitude boa, seja de comportamento ou desempenho, o professor tem orientação de elogiá-lo formalmente em frente aos outros. “O elogio fica para sempre na cabeça deles e faz com que eles criem uma referência. E isso é uma troca importante no processo de compreensão do mundo”, afirma Gastão. O coordenador ainda completa: “Na vida dessas pessoas e das comunidades que elas convivem, ninguém chama para elogiar. Ao passar do tempo, elas vão reproduzir isso em outros ambientes”.

Luiza Guerim/UniRitter Esporte

Professora Luciana Andreatta trabalha com as crianças da Fundação Tênis há cinco anos

A realidade dessas crianças e jovens é difícil. “São crianças de comunidades que enfrentam problemas como violência e drogadição. A realidade deles é de quem bate, manda; e quem apanha, obedece”, conta Gastão. Para a professora de Educação Física, Luciana Andreatta, que está há cinco anos na instituição, não é fácil aguentar a carga emocional do trabalho: “Eu já escutei de tudo e isso para mim é difícil ainda. Tem que respirar, tratar eles, pelo menos aqui, como crianças, já que eles não são tratados como crianças em nenhum outro lugar”. Apesar disso, Luciana garante que é impossível “quantificar” o valor de mudar a vida dessas crianças: “Tu acabas virando família sem ser. Nem eu sei qual o tamanho disso, mas eu sei que é importante”.

É esse impacto de transformar a vida de alunos que vivem em condições tão precárias e vulneráveis que motiva e inspira a equipe da Fundação Tênis. “Uma das coisas mais importantes foi eu ter a convicção de que, mesmo somente duas vezes na semana, é possível mudar a vida dessas pessoas. Esse é o legado do Fundação Tênis para mim”, afirma o coordenador geral.

O trabalho da organização não se limita, no entanto, às quadras de tênis. O programa Pós-Tênis encaminha alunos para cursos profissionalizantes, em uma parceria com o FIERGS e CIEE. Até hoje, 158 pessoas já participaram desse programa. “São crianças de comunidade que enfrentam muitos problemas. Esse programa é uma oportunidade de ir para outro caminho”, aponta Gastão. “Tu encontras um cara de 30 anos na rua, que te abraça e diz que tu mudastes a vida dele. Ele tem emprego e casa própria. Quando ele teria isso? Eu me arrepio só de contar”, conta Gastão, emocionado.

O reconhecimento da dedicação e do envolvimento dos profissionais da Fundação Tênis fica estampado no sorriso presente no rosto de cada menino e menina que integra o projeto. Em duas aulas de 50 minutos por semana, a instituição mostra que os valores olímpicos ultrapassam as quadras e são levados para a vida inteira.

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