ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Fabiano Baldasso, um jornalista que não tem medo de arriscar

por Lucas Bubols | lucas.bubols51@gmail.com

Fabiano Baldasso é o tipo de jornalista esportivo polêmico, um homem de opinião. Mas não foi assim que o então estudante da Unisinos começou a carreira. Em 1993 ele iniciou o curso, mas só depois de 13 anos conseguiu se formar. O diploma demorou tanto tempo por causa de viagens a trabalho, que coincidiam com as aulas. Para ele, era comum faltar 15 aulas por mês. Baldasso estagiou na Rádio Gaúcha em 1996, e com o tempo foi ganhando espaço. Dois anos depois surgiram as chances para ser repórter. O resto é pura história. Atualmente ele veste a camisa da Bandeirantes, tanto na rádio como na TV. Porém, engana-se quem acha que Baldasso sempre teve olhos para o esporte. Por pouco ele não seguiu carreira como crítico musical, como revela neste bate-papo com o UniRitter Esporte.

Por que você escolheu o jornalismo esportivo?
Na verdade, a minha escolha pelo jornalismo foi porque eu gostava muito do texto. Eu não entrei exatamente pelo jornalismo esportivo. Eu gostava muito de escrever e me sentia bem escrevendo. Essa foi inicialmente minha ideia quando entrei no jornalismo.

E por que o esportivo?
Aí é que está. A minha primeira intenção no jornalismo era o jornalismo de crítica musical. Eu era um apaixonado pela antiga Revista Bizz, que fazia críticas ácidas musicais que eu gostava muito. Eu lembro do André Forastieri que era um crítico musical muito ácido, eu adorava aquilo. Meu sonho era fazer críticas musicais, os lançamentos de discos, era aquilo que eu queria. Embora paralelamente eu gostava muito de futebol, eu era um torcedor fervoroso. Mas até então eu não tinha feito a ligação do esporte, do futebol, com o jornalismo. Eu era um ouvinte de rádio, acompanhava muito futebol em rádio, gostava de alguns narradores, gostava dos repórteres. Mas eu, até então, não tinha feito a ligação. Não tinha ligado o fato de eu fazer jornalismo em pensar em ser um jornalista esportivo. Até que um dia surgiu um estágio na Rádio Gaúcha, em 1996. E eu busquei esse estágio, porque uma pessoa que trabalhava lá dentro, uma amiga, que era minha colega, pediu para que eu tentasse. Aí eu fiz a ligação, me caiu a ficha que era o que eu queria, que eu gostaria de fazer, e daí eu só segui.

Arquivo pessoal

Baldasso nos tempos em que atuava como repórter da Rádio Gaúcha e viajava pelo Brasil e pelo mundo cobrindo a dupla Gre-Nal

Como foi o início na reportagem?
Bom, primeiro que eu não comecei sendo repórter. Hoje em dia, quem começa no jornalismo esportivo em seguida vira repórter. Na época não era assim. Eu comecei como ajudante de plantão de estúdio, fazendo escutas de jogos do interior, de outros estados, ajudando o plantão de estúdio que na época era o Cléber Grabauska. Ouvindo um jogo em cada fone de ouvido pra dar os resultados. Coisas que hoje as pessoas nem imaginam que existam. Através do Twitter, a gente acompanha imediatamente os resultados de jogos pelo país inteiro. Na época não era assim. Não existia web, internet. Tu tinhas que fazer escutas telefônicas da maneira mais inusitada possível. Era muito complicado. Eu fazia arquivo de gols. Eu era produtor. Fui falar pela primeira vez em rádio, numa matéria gravada, seis meses depois de entrar. Fui fazer minha primeira reportagem bastante tempo depois. E fui ser só repórter dois anos depois de entrar na Rádio Gaúcha. E a partir daí sim, eu virei só repórter.

Como foi trabalhar na Rádio Gaúcha?
Trabalhar na Rádio Gaúcha foi uma grande escola, um grande aprendizado. Uma das maiores empresas do país, a RBS. A Rádio Gaúcha, possivelmente a maior rádio do país. Foi o meu aprendizado, foi lá que eu aprendi tudo. Foi uma passagem importante, que me ensinou muita coisa.

Como está sendo trabalhar na Bandeirantes?
A Bandeirantes é muito importante na minha vida. A Bandeirantes me deu a maior visibilidade da minha carreira como jornalista. A Rádio Gaúcha me ensinou a trabalhar. Mas quem me deu visibilidade na carreira foi a Bandeirantes. Especialmente por ter me tornado um homem de opinião, e daí sim um homem polêmico, porque só é polêmico quem é homem de opinião. Foi na Bandeirantes que eu conquistei isso. Em “Os Donos da Bola”, na Rádio Bandeirantes, me tornei uma pessoa conhecida nas ruas, por causa da Bandeirantes. Então quem me deu isso foi a Band. E aí foi o grande diferencial da minha carreira.

Divulgação/Bandeirantes

Comentarista de opiniões fortes, Baldasso é um dos debatedores do programa “Os Donos da Bola”, que vai ao ar diariamente na TV Bandeirantes

A imparcialidade em relação aos jornalistas esportivos é sempre assunto entre o público. Muitos chegam a acusar que tal profissional torce para um time e que isso pode influenciar no seu trabalho. Como você trata a imparcialidade na carreira?
Embora o dicionário apresente como sinônimos, eu estabeleço diferenças entre imparcialidade e neutralidade. O jornalista nunca pode ser neutro, ele sempre tem que se posicionar. Toda a ação do jornalista tem um posicionamento, toda pergunta tem um posicionamento do jornalista, ele nunca é neutro. Quando ele faz uma pergunta, ele tem na cabeça dele uma posição e em cima dessa posição ele faz uma pergunta. O homem de opinião mais ainda. Agora, a imparcialidade é necessária. Ele (jornalista) tem que dar uma opinião alheio a qualquer tipo de preferência. Aí sim eu estabeleço a diferença. O jornalista tem que ser imparcial, mas nunca neutro. O jornalista neutro é um picolé de chuchu, e daí não serve.

Em quem você se espelhou para ser o jornalista que é?
As minhas referências jornalísticas foram mudando através da carreira na medida em que o jornalismo foi mudando. Eu acho isso muito engraçado. Eu comecei com as minhas referências sendo Ruy Carlos Ostermann, Lauro Quadros, Lasier Martins. Depois quando eu virei repórter as minhas referências passaram a ser Antônio Carlos Macedo, Silvio Benfica. Quando eu passei a achar o jornalismo muito pesado, queria um jornalismo mais leve, aí a minha referência passou a ser o Pedro Ernesto Denardin. Depois eu achei que o jornalismo deveria ser feito pessoas mais jovens, aí passou a ser o Alexandre Praetzel e tal. Sabe quais são as minhas referências hoje de comunicadores? Que eu acho que são os comunicadores do futuro? São: Felipe Neto e PC Siqueira (youtubers). E eu não sei quais serão as minhas referências de amanhã.

O piso salarial do jornalista (valores disponíveis no site do Sindicato dos Jornalistas do RS) é questionado por muitos estudantes e profissionais da área. Você concorda ou discorda do valor? Por quê?
O piso salarial do jornalista é uma vergonha. A discussão é absolutamente plausível. É uma vergonha. Nós ganhamos muito pouco. O piso estabelecido é muito abaixo do que nos mereceríamos. Eu acho engraçado que esses dias uma colega nossa estava estabelecendo a discussão sobre as cinco horas diárias. Que é uma carga horária muito pequena para o jornalista. Quando a discussão na verdade não é a carga horária. É o que se ganha por essa carga horária. Eu tenho certeza que o jornalista aceitaria aumento na carga horária com um piso um pouco mais justo. Essa é a verdadeira discussão.

Você ainda tem algum sonho que queira realizar?
Quando eu virei definitivamente repórter, o primeiro sonho que eu queria realizar era viajar com a dupla Gre-Nal. Acompanhar os jogos fora, fazer grandes jogos. Eu graças a Deus consegui. Chegou um ponto em que eu passava, sei lá, dez dias, quinze dias por mês viajando com a dupla Gre-Nal pelo país inteiro. Era o sonho que eu tinha. Eu nunca tive especificamente sonho de fazer Copa do Mundo, Copa América. Meu sonho era acompanhar a dupla Gre-Nal. E esse sonho, graças a Deus, eu realizei.

Reprodução

Inquieto, Baldasso não teve medo de arriscar ao longo da carreira e de testar novos formatos, como o canal que mantém no YouTube

O que você faria de diferente na vida como jornalista?
Eu não faria nada de diferente. Eu acho que eu fiz todas as coisas na hora certa. Eu acho que eu busquei a chance em rádio na hora certa. Eu acho que fui repórter na hora certa. Eu acho que pedi demissão da Rádio Gaúcha na hora certa. Eu acho que abri uma empresa de assessoria de imprensa na hora certa. Fui para a Bandeirantes na hora certa. Virei comentarista na hora certa. Apostei nas redes sociais na hora certa. Mudei meu contrato com a Bandeirantes para trabalhar menos na hora certa. Abri meu canal no YouTube na hora certa. Estou apostando na vida acadêmica na hora certa. Acho que eu fiz tudo na hora certa. Não me arrependo de nada. De absolutamente nada.

Qual o teu maior orgulho na carreira?
Meu maior orgulho foi ter tido coragem para mudar. Eu saí de situações cômodas que muitas pessoas não teriam coragem de fazer. Eu fui corajoso. Eu bati a cara muitas vezes por coragem. Inicialmente me quebrei. Dei passos para trás, para dar passos mais significativos para frente. Esse é meu grande orgulho.

Qual a tua maior decepção?
A maior decepção na carreira jornalística é que as grandes vitórias, as grandes conquistas do mundo do jornalismo, as grandes realizações, ser profissional de grande visibilidade, grandes sucessos, reconhecimento na rua, não significam exatamente vitória financeira, do tamanho que deveria ser. Essa é a grande decepção.

Divulgação/Bandeirantes

Em quase 20 anos de jornalismo esportivo, Baldasso acumula histórias de bastidores como, por exemplo, o dia em que entrou no vestiário do Barcelona

Qual a história mais inusitada que você viveu no jornalismo esportivo?
Cara, eu não tenho boa memória. As pessoas acabam me lembrando de histórias mais do que eu. Mas eu talvez seja o único jornalista do mundo que entrou no vestiário do Barcelona. Em 2006, eu vi Messi pelado. Nenhum outro jornalista viu o Messi pelado. Eu vi. Em 2006, quando o Inter foi campeão da América, eu passei uma semana em Barcelona. A Rádio Gaúcha me mandou para lá. E no último dia que eu estava lá, eu tinha o intuito de entrevistar o Ronaldinho Gaúcho. Eu liguei para o Assis e ele disse: “Não, irmão, eu te coloco aqui para dentro”. Era final do treino do Barcelona. Ele e o assessor de imprensa me botaram para dentro. Os jogadores estavam saindo do treino, estava todo mundo no vestiário, tomando banho. Daí passou o Eto’o com a toalha se esfregando. Passou o Messi pelado, o Eto’o, o Puyol, todo mundo pelado dentro do vestiário. E eu entrevistei o Ronaldinho Gaúcho. Todo mundo pelado no vestiário do Barcelona. Aquele Barcelona campeão da Champions League, e eu dentro do vestiário entrevistando eles lá. Essa talvez seja a história mais inusitada. E o resumo da história é: eu vi Messi Pelado.

Quais são os conselhos/dicas que você dá para quem está começando?
A minha dica pra quem está começando é o seguinte: jornalismo é o grande dilema entre levar pras pessoas aquilo que elas querem saber e o que elas precisam saber. E as duas coisas são absolutamente importantes. Nós não podemos tirar da nossa visão que as pessoas tem que ter em mãos, precisam receber o que elas querem saber, por mais fútil e inútil, descartável que seja o que elas querem saber. Mas nós, como jornalistas, também temos a obrigação de levar pra elas o que elas precisam saber. Dentro daquela ideia que nós temos uma função social. Um exemplo: nós precisamos levar as pessoas, nós devemos, diante do que elas querem saber, levar para elas quem é o novo namorado da Ivete Sangalo. Que é fútil, descartável, e sem utilidade nenhuma. Elas querem saber disso. Mas quem sabe a gente leve essa informação e junto dela, a gente leva que a Ivete Sangalo tem um trabalho social importante, junto a comunidades carentes, a gente leve que a Ivete Sangalo tem um projeto musical importante com o Criolo, que é um outro artista musical bastante significativo. Vamos juntar tudo, vamos levar o novo namorado da Ivete Sangalo, mas vamos levar outras coisas importantes dentro da mesma notícia. Dá pra fazer tudo junto. Dá pra levar pras pessoas o que elas querem saber, que muitas vezes é inútil, mas o que elas precisam saber, que muitas vezes é educativo.

Qual é o futuro de Fabiano Baldasso?
O meu futuro é estar fazendo do jornalismo hoje o que as pessoas vão estar fazendo amanhã.

Deixe um comentário

%d blogueiros gostam disto: