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“Não é pra mim a política, não entendo até agora o que eu estava fazendo lá”, diz Haroldo de Souza

por Nando Donel | luisfernandodonel@gmail.com

O radialista, locutor esportivo e ex-vereador Haroldo de Souza já trabalhou como caminhoneiro e bancário, mas foi no rádio que descobriu sua grande paixão. Um dos grandes nomes da narração esportiva do Brasil, Haroldo já narrou 11 edições de Copa do Mundo. Iniciou a carreira no começo da década de 1960, em uma rápida passagem pela Rádio Castro, no Paraná. Após passar pelas rádios Cultura e Atalaia, ambas de Maringá, tornou-se narrador na Rádio Alvorada, de Londrina, em 1969. Ganhou a vaga após participar de um concurso em que terminou em segundo lugar – o primeiro colocado desistiu. Depois transferiu-se para a Rádio Itatiaia, de Belo Horizonte. Sua história com as rádios gaúchas começou durante a Copa de 1974, quando recebeu proposta para trabalhar na Gaúcha, onde ficou por 17 anos. Em 1991, transferiu-se para a Rádio Guaíba, onde ficou até 2010. Em 1998 ingressou na carreira política, sendo primeiro suplente a deputado estadual. No ano de 2000, foi eleito vereador de Porto Alegre e reeleito em 2004. Em 2010, Haroldo assinou com a Rádio Bandeirantes e, em 2012, se transferiu para a Rádio Grenal, permanecendo lá até hoje. Em entrevista ao UniRitter Esporte Haroldo falou sobre a carreira e a paixão pelo rádio.

Quando você decidiu ser locutor esportivo?
Ouvindo, lá no Paraná, o Fiori Gigliotti pela sua emotividade na narração e Pedro Luiz pela sua precisão no lance. Eu decidi que também deveria tentar um dia fazer a mesma coisa que eles e transportar emoções para aqueles que gostam de futebol.

Arquivo pessoal

Haroldo se prepara para narrar um jogo na Arena do Grêmio

Antes de você ingressar no rádio, quando trabalhava como caminhoneiro e como bancário, quais as rádios que você mais escutava?
No meu período de escutar rádio era a Bandeirantes, de São Paulo, a Cadeia Verde e Amarela e a Equipe 1040 da Rádio Tupi de São Paulo.

Como aconteceu a proposta da Rádio Gaúcha?
Em 1966 eu fazia pontas em rádio, 1969 eu trabalhei em definitivo na Rádio Alvorada de Londrina e aí eu recebi um convite para trabalhar na Rádio Itatiaia de Belo Horizonte. Fiquei sete anos lá, cobrindo duas Copas. E recebi um convite do Nelson Sirotsky, através do Paulo Santana durante a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha. Eu acertei com a Gaúcha ainda na Alemanha. Quando cheguei no Brasil, acertei com a Itatiaia e vim para o Rio Grande do Sul.

Depois de narrar 11 Copas do Mundo, qual a emoção em narrar um evento dessa dimensão?
É o momento principal do narrador de futebol. Mas não como é feito no dia de hoje, que é com off tube pela televisão (quando o narrador não está no estádio; ele fica no estúdio e narra assistindo ao jogo pela televisão). Ao vivo eu consegui fazer essas 11 Copas do Mundo que é motivo de muito orgulho, porque como narrador ninguém fez 11 Copas seguidas.

Arquivo pessoal

Uma das 11 Copas que Haroldo narrou foi a da Alemanha, em 2006. Na foto ele aparece com os colegas de Rádio Guaíba – o repórter e hoje professor da UniRitter, Rodrigo Rodembush, e o então coordenador de esportes e hoje comentarista da Band, Luiz Carlos Reche.

Você é conhecido por alguns bordões famosos como: “E agora tchê, as bandeiras estão tremulando, tremulando, tremulando, torcedor do Brasil!”; “Adivinheeee!” e “É gente que se liga na gente”. Como surgem os bordões?
Isso deve surgir ao natural do narrador, é a inspiração no momento, você fala um ‘adivinheeee’ sem pretensão nenhuma e no dia seguinte está repercutindo na cidade. Aí é manter. “Bandeira tremulando” eu estava transmitindo, olhei para o estádio, vi aquelas bandeiras tremulando e foi assim que surgiu. Eu gosto muito de escutar samba de partido alto de onde saem realmente esses dizeres, como: “está curtindo amor em terra estranha”, “abriu a caixa de ferramentas”, “mostrou serviço”, “está matando jacaré abotinado”, tudo isso vem de sambas de partido alto e eu encaixo na transmissão.

No jogo do Internacional contra o Mazembe, pelo Mundial de Clubes, você se recusou a narrar o segundo gol do Mazembe. Por que você tomou essa decisão?
Surgiu na hora. Você viaja com expectativa de que o time vai ser bicampeão do mundo. Aí está levando 1 a 0 do Mazembe, e ele faz o segundo. Me neguei a narrar o gol em respeito (ouça a narração), pois naquele momento eu me transportei para o Brasil, para o Rio Grande do Sul, e sabia perfeitamente que era uma choradeira só, uma frustração dos torcedores colorados. Foi uma homenagem que eu fiz à torcida.

Como foi o ingresso a política?
Foi uma bobeira minha. Queria fazer uma homenagem para o meu pai e me candidatei a deputado estadual pelo PTB, fiquei como primeiro-suplente a deputado. Na eleição seguinte me convenceram a ser vereador e fui por três legislaturas. Já na última eleição eu estava totalmente desinteressado porque não é para mim a política. Eu não consegui entender até agora o que eu estava fazendo lá.

Como foi a experiência na Rádio Guaíba?
Nove anos defendendo um dos maiores prefixos. Dou graças a Deus que trabalhei nos grandes prefixos do rádio brasileiro. A Bandeirantes de São Paulo e a ex-Tupi de São Paulo. E a rádio Gaúcha e Guaíba são poderes indiscutíveis dentro da radiofonia esportiva em mundiais. Então fazer Mundial e trabalhar na Rádio Guaíba para mim foi um motivo de muito orgulho e satisfação.

Arquivo pessoal

Equipe de esportes da Rádio Gaúcha em 1981 (Haroldo destacado no meio da foto)

Como foi o convite para trabalhar na Rádio Grenal?
Não houve convite. Da Guaíba eu fui para a Bandeirantes, e quando terminou a última eleição eu me desentendi e acabei saindo. Foi então que eu procurei a Rádio Grenal porque me pareceu uma proposta muito boa em termos de rádio, não é no lado financeiro, mas no lado da novidade, uma rádio fazendo futebol 24 horas. Então eu resolvi me integrar nesse projeto que eu acho revolucionário.

Tem muita diferença entre as principais rádios de Porto Alegre?
Havia uma igualdade muito grande entre Gaúcha e Guaíba ao longo dos tempos, as duas principais rádios daqui. Porque a Bandeirantes não é nossa, ela pertence a São Paulo e não tem nada a ver com o povo gaúcho, e é por isso que ela não sai do lugar. Agora, Gaúcha e Guaíba sempre foi uma rivalidade fantástica, como é Grenal, como é chimangos e maragatos, como é Zero Hora e Correio do Povo. Mas o rádio não é mais o que foi antigamente, hoje está nivelado por baixo.

Qual dica você dá a quem quer começar na locução esportiva?
A dica que eu dou é que o cara se prepare para transmitir pela televisão, porque a transmissão em corpo presente nos estádios raramente está acontecendo, principalmente para o narrador. As rádios de são Paulo não viajam mais, as do Rio Grande do Sul apenas uma e parece que vai parar. Se você sonha em ser narrador de futebol, você sabe que vai ter que narrar do estúdio. No meu entendimento o rádio esportivo chega ao fim em termos de fazer tudo ao vivo, aí perde a graça no meu entendimento. Não é tão fácil fazer rádio e hoje em dia é mais complicado. Mas é uma profissão extraordinária que antigamente nos dava muitas viagens e chances de melhorar a cultura. Mas para quem gosta de rádio vai em frente porque é uma profissão encantadora.

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