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Ex-lateral do Inter comanda projetos sociais para crianças e adolescentes em Cachoeirinha

por Katia Fantin | fantinkaty@hotmail.com

Um lugar simples, de muita descontração e alegria, onde se reúnem pessoas de diversas idades, seja para um chimarrão, uma conversa entre amigos, para realizar uma atividade física ou então para o futebol com a molecada. É nesse lugar que um ex-jogador do Internacional aproxima crianças e adolescentes num projeto de esperança e sonhos através do futebol. Um jogador que marcou presença em vários clubes brasileiros, lateral formado nas divisões de base do São José e do Internacional, onde se profissionalizou em 1997. Mais conhecido como Barão, seu nome é Adriano Vidal dos Reis, 37 anos, natural de Porto Alegre. Hoje ele ensina, treina e se diverte com a molecada. Tudo isso acontece na Praça da Juventude, no bairro Granja Esperança, na cidade de Cachoeirinha (RS), onde atualmente Barão é coordenador e treinador de uma escolinha de futebol que realiza um trabalho com crianças de 7 a 15 anos. Formou-se em Educação Física e se especializou como técnico. Hoje, está à frente como treinador dos projetos “Vasco da Granja Ressuscitando Esperança” e “Gol de Ouro”, realizando o trabalho com 192 crianças. Na entrevista a seguir, realizada na Praça da Juventude, ele revela alguns de seus sonhos em sua nova carreira.

Como você começou no futebol?
Comecei a jogar no bairro Sarandi, em Porto Alegre, em 1992, quando um rapaz chamado Lisandro estava passando em frente à minha casa e me disse que estava indo realizar um treino no São José. Naquele momento não pensei duas vezes, fui junto com ele e acabei participando do treino também. A partir daquele treino minha vida mudou, gostaram de mim e assim continuei treinando até que chamaram para jogar profissionalmente.

Divulgação

Barão defendeu 18 clubes, entre eles o Guarany de Bagé, entre 2011 e 2012

O que o futebol te proporcionou de mais positivo?
Na verdade, em toda a minha carreira o futebol me proporcionou a importância do comprometimento, do compromisso, o respeito ao próximo e de aprender a trabalhar em grupo. Aprendi a dar valor às pequenas coisas através da interação com pessoas que possuem sonhos e crenças muito diferentes.

E negativo? 
As perdas de alguns títulos, como a perda do Gauchão pela Ulbra em 2004. Para a equipe era como se a gente fosse campeão do mundo, pois foi o primeiro ano que a Ulbra disputou a Série A de um Gauchão e já foi para uma final. Na semifinal tiramos o Grêmio. Para mim essa perda (para o Inter, na final) foi uma tristeza. Mas, nesse meio tempo eu aprendi a ter uma capacidade de sofrimento e hoje passo isso para meus alunos. Eles têm que saber como é a realidade. É fácil suportar as alegrias, as vitórias. Mas e quando vem a dor, a perda, também temos que saber sair dessa. Em 20 anos no futebol como atleta de alto rendimento, fiz poucos amigos devido ao grande interesse financeiro e também às muitas mentiras que faziam parte do nosso meio. Eu vi muito egoísmo.

Qual sua maior conquista?
É ter uma família bem estruturada, pois quem vive no meio do que o futebol proporciona, um “banquete no mundo”, tem todas as facilidades. Eu consegui permanecer com minha família por todos esses anos. Hoje, tenho uma filha de 17 e um menino de 15 anos, posso dizer que minha maior vitória é ter uma família.

Qual o motivo de você ter saído do futebol como jogador e agora ser treinador?
Decidi sair do futebol porque passava muito tempo longe da minha família, além de ter perdido o prazer de participar dos jogos, mesmo sendo num estádio cheio e com muitos torcedores, entendi que era hora de parar. Não me frustrei, nem me arrependi de ter parado, se pudesse voltar não voltaria. Como sempre tive carisma com crianças decidi usar isso em favor das mudanças que queria para meu futuro. Foi então que iniciei meu projeto de trabalho com crianças moradoras da cidade de Cachoeirinha, a partir dessa decisão construí o rumo da minha vida.

Arquivo pessoal

Barão (o primeiro, agachado, da direita para a esquerda) se profissionalizou no Inter em 1997 e passou novamente pelo clube entre 2001 e 2002

Quem eram tuas referências como jogadores no início da tua carreira? E agora como treinador?
Tive duas referências que na época jogavam comigo: Lucimar da Silva Ferreira (Lúcio) e o Claiton. Depois, tive a oportunidade de jogar com o Dunga, em 1999, no Internacional. Ele se tornou uma referência e continua mantendo a mesma simplicidade de anos atrás, por isso, a Seleção Brasileira escolheu esse grande jogador, pois não se corrompe com marcas famosas e também não faz o jogo da imprensa. Se precisar ele compra briga pelos atletas, é um perfil de homem, atleta e treinador que me agrada.

Quais foram seus objetivos ao criar a escolinha de futebol?
Trabalho com dois projetos: o Ressuscitando Sonhos, que iniciou com seis crianças apenas, mas com o passar do tempo foi se expandindo; e um segundo projeto, chamado Gol de Ouro. Atualmente trabalho com 192 crianças, sendo 15 meninas. Tenho duas pessoas que me auxiliam, o Guilherme Costela e o Anderson Farinha. Meu objetivo principal é usar bem o tempo dessa criançada. Sei que os pais agradecem, havia até casos de alunos com déficit mental e depressão que através da escolinha futebol são novas crianças. Ver a alegria desses pais não tem preço.

Como o trabalho da escolinha se mantém?
Através de doações de materiais. Ganhamos camisas, bolas, coletes… estou esperando por um patrocinador, algum empresário que ajude a manter esse trabalho. Desde que se iniciou, há um ano e seis meses, a escolinha de futebol vem se mantendo por doações.

Katia Fantin/UniRitter Esporte

Projeto Ressuscitando Sonhos atende as crianças de Cachoeirinha após o horário da escola

Se alguma criança quiser participar o que tem que fazer?
Deve me procurar na Praça da Juventude. A única mensalidade que cobramos é o repeito e o amor ao próximo. Quanto à idade é bem distribuída: no projeto Ressuscitando Sonhos eles são divididos entre de 7 a 10 anos, 11 a 13 e 14 a 16. O projeto Gol de Ouro vai até 12 anos. O projeto que mais recebemos crianças é no Ressuscitando Sonhos devido aos horários, após horário da escola, é mais flexível.

Jogador de futebol precisa estudar?
Precisa estudar sim. No início da minha carreira, devido à falta de estrutura, em pouco tempo me deslumbrei com o outro lado da vida, da conquista, do dinheiro. Comecei apenas com vale-transporte, dava maior valor a tudo, mas em pouco tempo já estava com uma Mitsubishi, já tinha preguiça de treinar. O atleta deve sim estudar, antigamente o jogador era “boleirão”, chamado assim devido às correntes de ouro, carros importados, etc. Mas hoje, o atleta sabe que deve estudar, ter visão mais ampla, abrir o leque para o conhecimento, assim você se destaca e com certeza vai além das expectativas.

Tem incentivo?
Deveria ter mais incentivo das prefeituras ou núcleos, isso geraria mais empregos e oportunidades. Recebo pelo trabalho que faço, mas as coisas poderiam ser bem melhores para quem tem projetos e investe na juventude. O Brasil em si precisa mudar, um exemplo disso é a Alemanha, os meninos desde pequenos seguem um planejamento que lhes dará resultados futuros bons. O meu sonho é ter uma casa em que possa servir refeições para as crianças todos os dias, quero mais segurança e desejo ver esse trabalho sendo muito bem falado. O ser humano abre as portas pelo que você foi, e não pelo que você é hoje, no meu caso como um jogador muito reconhecido há anos atrás.

Katia Fantin/UniRitter Esporte

Barão durante entrevista para o UniRitter Esporte

Como você vê o esporte hoje?
Vejo o esporte atual envolvido com muito dinheiro e com muitas pessoas despreparadas para esse meio. Grêmio, Inter, Flamengo e São Paulo poderiam criar muito mais jogadores devido aos recursos que hoje possuem, mas também tem a questão financeira, onde o clube só pensa no que é melhor para si. A minha época era de um terrão de areia onde treinávamos com a mesma roupa de manhã e durante toda a tarde. Não é mais assim, agora são outras cifras econômicas. Grêmio e Inter não vêm aqui buscar jogador, os empresários é que vem buscar. No Inter, passam em média 500 atletas por semana, 10 são aprovados para ficar e os outros 480 como ficam? Pois é, ninguém se preocupa com os outros, se irão se frustrar ou ficar chateados, é triste, é complicado. O Brasil tem potencial, mas devido à questão financeira produz bem menos do que poderia.

Como o futebol poderia ajudar mais a juventude brasileira?
Acredito que se o governo investisse mais nessa área, a juventude seria diferente. Por exemplo, aqui na cidade de Cachoeirinha, sei que há condições de fazer algo melhor, mas falta investimento. Esse trabalho gera sonhos, conquistas e diversos fatores, além da capacidade de aprender a perder e reagir, pois todos passarão por momentos difíceis. Antigamente eu não podia perder um jogo, não sabia perder, mas entendi que o esporte não é tudo na vida e mudei isso em mim.

Qual sua expectativa de futuro para as crianças que você treina?
Quero ver o crescimento deles, estou tentando colocá-los em clubes, quero mudar a história deles e de suas famílias. O futebol tem esse poder de mudar rapidamente uma história como mudou a minha, saí de casa com um tênis velho e um par de meias, mas graças a Deus conquistei coisas que jamais imaginei. Só quero ver essas crianças no caminho certo, longe das drogas, da prostituição e honrando pai e mãe.

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