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Os dias de glória de Daniel: o maior atleta paralímpico brasileiro

por Matheus Closs | matheuscloss@hotmail.com | edição de Robson Hermes | robsonhermescolombo@gmail.com

Maior medalhista paralímpico brasileiro, Daniel Dias superou preconceitos para marcar seu nome na história do esporte (Foto: Alexandre Vidal/Rio 2016)

Ao ouvir o locutor do Estádio Aquático Olímpico do Rio anunciando-o como o maior atleta da história da natação paralímpica e, prestes a subir ao pódio para receber a vigésima terceira medalha de sua carreira em Paralimpíadas – 14 delas de ouro – Daniel Dias não conteve a emoção. Após vencer os 100m livre, as lágrimas tomaram seu rosto, dividindo espaço com o largo sorriso, marca registrada do atleta que agora avança ao patamar de lenda do esporte.
A emoção daquela manhã de sábado, dia 17 de setembro, era única.

Daniel fazia sua última prova individual nos jogos do Rio (horas depois conquistaria o bronze no revezamento 4×100 medley masculino) e, sob os olhares da família e dos filhos Asaph (2 anos) e Danielzinho (10 meses), levava o Brasil mais uma vez ao topo da natação. Os meninos ainda não compreendem o porquê de um estádio inteiro gritar o nome de seu pai. Mas Dona Rosana sim. A mãe de Daniel lutou com ele desde sua infância para que aquele momento acontecesse. O momento em que os olhares preconceituosos fossem trocados pelos de admiração.

Daniel conquistou sua 24ª medalha em Jogos Paralímpicos (Buda Mendes/2016 Getty Images)

Daniel conquistou sua 24ª medalha em Jogos Paralímpicos (Foto: Buda Mendes/Getty Images)

Sem limites
Na madrugada do dia 24 de maio de 1988, Rosana era levada às pressas ao hospital de Campinas, para dar luz prematuramente a Daniel. Apenas após o nascimento descobriram que Daniel nascera com má formação congênita nos braços e em uma das pernas, possuindo apenas um dedo em um dos braços. Em um primeiro momento seus pais choraram. Paulo, pai de Daniel, chegou a desmaiar ao saber da notícia. Mas as dúvidas sobre como cuidar de seu primeiro filho foram esquecidas ao pegarem pela primeira vez Daniel no colo. Bastou um sorriso do bebê para os questionamentos darem lugar à felicidade.

Daniel passou por uma cirurgia aos 3 anos para poder usar prótese na perna e então começar a caminhar. Apesar de sua deficiência, ele nunca foi visto ou tratado como um coitado por sua família. Desde cedo cumpria com obrigações como qualquer criança. Arrumava sua cama, por exemplo, mesmo que do seu jeito.

Ao começar a frequentar a escola, começou a entender a existência do preconceito. Voltava das aulas aos prantos para casa, pois era chamado de saci e aleijado por alguns colegas. Certa vez, Daniel chegou a perguntar a sua mãe por que ele tinha essa condição. Rosana lhe disse que ele deveria aprender a viver daquele jeito. Seus pais nunca disseram que ele não podia fazer alguma coisa. Na adolescência pediu aos pais um piano. Mesmo desconcertados atenderam a seu pedido. Posteriormente, ele descobriu que não conseguia tocar, mas não desistiu. Pediu uma bateria que toca até hoje.

Daniel Dias começou a nadar apenas aos 16 anos (Foto: Buda Mendes/Getty Images)

A natação
Daniel sempre praticou esportes na escola, mas foi ao assistir o campeão paralímpico Clodoaldo Silva em Atenas 2004, que se interessou pela natação. Ainda naquele ano, Daniel entrara pela primeira vez em uma piscina. Em apenas dois meses aprendeu a nadar todos os estilos e, pouco tempo depois, foi chamado para treinar em uma equipe. Dias topou o desafio. Era o único atleta deficiente da equipe. Fato que o motivava a cada vez mais superar suas marcas e seus companheiros. Em 2006, viajou a Durban, na África do Sul, para disputar seu primeiro mundial. Mesmo com 18 anos, não sentiu a pressão. Voltou ao Brasil com 5 medalhas no peito (3 de ouro e 2 de prata).

No ano seguinte, os Jogos Parapan-americanos do Rio apresentaram ao Brasil Daniel Dias. Com incríveis 8 medalhas de ouro, Daniel começava a ganhar repercussão e status de uma das grandes promessas do Brasil na natação. Faltava uma Paralimpíada para confirmar. Em Pequim 2008, a confirmação veio com quatro medalhas de ouro, quatro de prata e uma de bronze, acompanhadas de dois recordes mundiais nos 200m, medley e livre. Daniel já era protagonista no esporte. Recebeu no ano seguinte o prêmio Laureus, cerimônia anual que premia os grandes nomes do esporte.

Com o grande desempenho Daniel conseguiu patrocínios, que lhe permitiam viver do esporte. Esse apoio foi fundamental para o seu crescimento como atleta. Daniel queria ser o melhor, e se preparava para isso. No ciclo das Paralimpíadas de Londres, repetiu grandes desempenhos, com 8 ouros no mundial de Eindhoven, em 2010, e onze ouros no Parapan de Guadalajara, em 2011.

Daniel parecia sem limites nas piscinas, mas foi em Londres que viveu seu ápice. As 6 medalhas de ouro nas 7 provas disputadas nas Paralimpíadas de 2012 marcaram o seu melhor momento da carreira. Bateu recordes que perduram até hoje, como nos 100m peito SB4 e 100m livre S5.

Daniel com sua família no Rio 2016 (Foto: Sergio Moraes/Reuters)

 

Rio 2016 e seu legado
Com as grandes marcas alcançadas em Londres, as expectativas para o seu desempenho no Rio 2016 aumentaram. Fora das piscinas, Daniel conquistava também grandes vitórias. Após Londres, casou-se com sua noiva Raquel Andrade. Chegou a reduzir horários de treinos para dar mais atenção à família. Em 2013, foi coroado mais uma vez com prêmio Laureus. Nos mundiais de Montreal 2013 e Glasgow 2015 conquistou o total de 13 medalhas de ouro e 3 de prata. No Parapan de Toronto em 2015 levou mais uma vez 8 medalhas de ouro. O número de medalhas seguia alto e Daniel parecia cada vez mais imbatível. Antes dos Jogos do Rio, ainda viu o nascimento dos filhos Asaph e Daniel. Também nesse período teve a primeira lesão em sua carreira. Em 2016, recebeu pela terceira vez o prêmio Laureus de melhor paradesportista.

Daniel Dias recebeu prêmio Laureus em três oportunidades (Foto: Reprodução)

Se havia questionamentos sobre a qualidade dos atletas que Daniel enfrentava, nas Paralimpíadas do Rio viu-se adversários mais preparados. Competiu com especialistas, que se dedicavam a apenas uma prova específica. Daniel, que havia batido o recorde paralímpico em Londres nos 200m livre, dessa vez ficou com o bronze. Em entrevista após a prova, revelou que não estava satisfeito com o resultado. Seus tempos nas outras provas também aumentaram, talvez Daniel já tenha passado pelo seu auge. Mesmo sem o melhor desempenho, Daniel chegou a vigésima quarta medalha paralímpica.

Aos 28 anos, Daniel não sabe até que idade vai continuar competindo. E se o governo brasileiro não investe para que surjam novos nomes na natação, Daniel fez a sua parte. Apadrinhou o projeto Nadando com Daniel Dias, localizado em Bragança Paulista, onde o próprio Daniel treina. Lá, possibilita a jovens deficientes condições para treinar e viajar.

Daniel Dias tem consciência do seu nome no esporte e da importância do incentivo ao deficiente. Ele revela que não quer ser lembrado somente como o grande campeão, mas por ser responsável por melhorar as condições do esporte paralímpico. Se hoje Asaph e Danielzinho são jovens demais para compreender o tamanho dos feitos de Daniel Dias, daqui alguns anos, quando pesquisarem pelo seu nome, encontrarão os registros do maior esportista paralímpico que o Brasil já teve.

FONTES CONSULTADAS:

MONTEIRO PEREIRA, Luiz Humberto. Daniel Dias – Entre piscinas e pódios. Disponível em: http://esportedefato.com.br/daniel-dias-entre-piscinas-e-podios-26338. Acesso em 28 set. 2016.

GLOBO ESPORTE. Nasce o segundo filho do nadador paralímpico Daniel Dias: “Alegria”. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/paralimpiadas/noticia/2015/11/nasce-o-segundo-filho-do-nadador-paralimpico-daniel-dias-alegria.html. Acesso em 29 set. 2016.

CARDOSO, Rodrigo. Daniel Dias Brasileiro do Ano no Esporte Paralímpico. Disponível em: http://istoe.com.br/257714_DANIEL+DIAS+BRASILEIRO+DO+ANO+NO+ESPORTE+PARALIMPICO/. Acesso em 29 set. 2016.

GQ BRASIL. Daniel Dias: maior medalhista paralímpico do Brasil só aprendeu a nadar na adolescência. Disponível em: http://gq.globo.com/GQ-no-podio/noticia/2016/09/daniel-dias-maior-medalhista-paralimpico-do-brasil-so-aprendeu-nadar-na-adolescencia.html. Acesso em 29 set. 2016.

MARTÍN, Maria. Daniel Dias eleva-se a herói paralímpico mundial. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/15/deportes/1473970357_549612.html. Acesso em 29 set. 2016.

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