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Rodrigo de Ouro

por Eduardo Brusch Müller | edugremio@gmail.com | edição de Ulisses Miranda | ulisses_mr17@hotmail.com

Rodrigo Dourado e sua medalha de ouro olímpica (Foto: Lucas Figueiredo/MoWA Press)

O coração da Dona Mara Lúcia Cunha estava partido. Na distante Pelotas, a pouco mais de 250 quilômetros de Porto Alegre, o pequeno Rodrigo, com apenas 12 anos de idade, havia passado em um teste para jogar futebol de campo nas categorias de base do Internacional, na capital gaúcha. Era o sonho do menino, guri bom de bola e colorado de coração. O pai Claudiomir Cunha, conhecido por todos como Bill, ajudou o jovem a convencer a mãe. Não foi tarefa fácil. A família até pensou em se mudar para Porto Alegre, mas compromissos profissionais inviabilizaram a ideia. Então, Rodrigo partiu sozinho para a capital, deixando para trás o pai, a mãe e o seu melhor amigo, o irmão Diego, quatro anos mais velho que ele. Mas levava um sonho…. queria ser jogador de futebol! Muitos de seus amigos ainda brincavam pelas ruas de Pelotas quando o menino desembarcou na capital e foi morar nos alojamentos do estádio Beira-Rio.

Rodrigo já jogava futebol em Pelotas. Porém, jogava futebol de salão. Jogou em dois clubes de futsal pelotenses: o Paulista e o Progresso. Este último foi quem indicou o guri para a peneira do Inter em 2006 e detém os direitos de clube formador do atleta, caso o Colorado venda Rodrigo para algum outro clube.

Rodrigo, com doze anos, vestindo a camisa e ganhando títulos no Inter (Foto: Arquivo Pessoal)

Rodrigo, com doze anos, vestindo a camisa e ganhando títulos no Inter (Foto: Arquivo Pessoal)

Nos campos suplementares do estádio Beira-Rio, Rodrigo logo se sentiu à vontade. Foi ganhando confiança e espaço em todas as categorias que competia. Sempre teve determinação para seguir em frente. Foi se destacando e ganhando títulos. O resultado de tudo isso foram as constantes convocações para as Seleções Brasileiras sub-15, sub-16 e sub-17. Ter seu nome na lista de atletas convocados para vestir a “amarelinha” não era mais surpresa. Em 2011, foi campeão Sul-Americano com a seleção sub-17 no Equador.

Todo esse sucesso nas categorias de base chamou a atenção da comissão técnica do time profissional. O Internacional é conhecido por formar grandes jogadores e promovê-los a profissionais e, com Dourado, não foi diferente. Em 2012, foi relacionado pelo técnico Clemer para compor o time B do Inter, que disputaria alguns jogos do Gauchão e a Copa FGF no segundo semestre. Novamente, foi destaque e naquele mesmo ano teve a sua primeira chance, aos 17 anos, com o time profissional no empate de 2 a 2 com o Sport Recife, pelo Campeonato Brasileiro. O clube estava passando por um momento conturbado e ao final do jogo o técnico Fernandão concedeu uma entrevista coletiva acusando parte do time de viver “na zona de conforto”.

Bah, aquele jogo foi difícil. Teve uma repercussão muito grande, por causa da entrevista do Fernandão. Foi muito bom para aprender. Eu era muito novo. Hoje, me sinto mais preparado para defender o Inter – contou Rodrigo Dourado para o jornal Diário Gaúcho em março de 2015.

Após esse jogo, Rodrigo voltou para o time B e não teve mais nenhuma chance com os profissionais. Ficou desiludido. Passou mais dois anos no Beira-Rio, alternando jogos com o time B e com o time sub-20. Somente em janeiro de 2015 voltou a ser lembrado. O técnico era Diego Aguirre, que estava montando o time para a disputa do Gauchão e da Libertadores da América. A pré-temporada do Inter se iniciava em janeiro e Jorge Macedo, diretor de futebol do clube, chamou Dourado para compor o grupo. Macedo não queria que ele fosse apenas mais um, mas sim que subisse e não descesse mais. O time estava precisando de um volante para compor o meio de campo e Rodrigo estava pronto para cumprir essa função.

Rodrigo Dourado agarrou essa oportunidade com unhas e dentes. Ou melhor, com unhas, dentes e chuteira. Virou titular do time e na sequência foi logo ganhando o seu primeiro título como profissional, o Gauchão 2015. Para coroar esse trabalho, foi eleito atleta revelação e um dos titulares da seleção do campeonato, em festa promovida pela FGF no dia 23 de maio daquele ano. O primeiro gol também surgiu naquele ano, foi na vitória colorada por 2 a 1 sobre o Sport, mesmo clube que ele enfrentou na sua estreia nos profissionais. E não foi um gol qualquer. Foi o da vitória. Dourado recebeu um cruzamento de Valdívia, aos 36 minutos do segundo tempo, e cabeceou forte para as redes, marcando aquele que seria o gol da vitória colorada. Na saída de campo, se emocionou ao dar uma entrevista para a TV, chorou e dedicou o gol a Fernandão, treinador que havia lhe dado a primeira oportunidade no time e que havia falecido um ano antes em um acidente de helicóptero em Goiás.

Dourado se emocionou e dedicou seu primeiro gol para Fernandão (Foto: Ricardo Duarte/Internacional)

Dourado se emocionou e dedicou seu primeiro gol para Fernandão (Foto: Ricardo Duarte/Internacional)

Agora, o guri que havia chegado há nove anos no Beira Rio estava pronto. O geminiano, nascido no dia 19 de junho de 1994, mesmo dia da abertura da Copa do Mundo dos EUA e que chegou ao Inter em 2006 – ano da conquista do maior título da história colorada, o Mundial de Clubes, havia crescido e vencido. Já não morava mais nos alojamentos do clube, havia se mudado para um apartamento no bairro Menino Deus, com vista para o estádio Beira-Rio. Já era um homem, com 1m86cm de altura e quase 21 anos. Mas ele queria mais, muito mais.

O verde e amarelo já corriam em suas veias. O ano de 2016 chegou e, com ele, a expectativa pela participação na Olimpíada do Rio de Janeiro. Seu nome era um dos mais fortes para compor o grupo que seria chamado para disputar três amistosos. No dia 4 de março, a convocação saiu e o seu nome estava lá. Rodrigo se apresentou, treinou e foi escalado entre os titulares para o primeiro amistoso contra a Nigéria. O Brasil perdeu esse amistoso e, Dourado sentiu uma lesão na virilha e foi cortado da seleção no dia seguinte. A desilusão e a incerteza tomaram conta de Rodrigo. Voltou para Porto Alegre para fazer tratamento médico no Inter e só retornou a campo no final de abril. Na fase final do Gauchão, teve uma nova lesão e só retornou aos treinos em junho, vinte dias antes da convocação final da seleção olímpica. A angústia continuava.

Essa agonia só teria fim no dia 29 de junho, quando saiu a convocação final do grupo que disputaria os Jogos Olímpicos na cidade maravilhosa. Seu nome estava lá. Rodrigo Dourado iria disputar a primeira Olimpíada realizada no Brasil. Todo empenho, trabalho, todos os treinos e toda a sua infância perdida para se tornar um atleta profissional estavam sendo recompensados naquele momento. Mas ele queria mais, muito mais. E havia um tabu a ser quebrado. O Brasil jamais havia ganhado medalha de ouro no futebol em uma Olimpíada.

O Brasil venceu. A tão sonhada medalha de ouro estava no peito. Rodrigo jogou poucos minutos na Olimpíada do Rio. Para ser exato, foram 15 minutos no jogo contra a Dinamarca, na primeira fase, quando o Brasil já vencia por 4 a 0. Mas ele teve a sua importância. Treinou com a equipe, esteve presente, deu seu incentivo para os titulares quando estava sentado no banco de reservas durante os jogos. E nos 15 minutos que jogou, ele se doou pela Seleção Brasileira, pelo povo brasileiro, por uma nação inteira. Seu gesto ao final do jogo, ao morder a medalha de ouro é a síntese do esforço de um guri que sempre soube aonde queria chegar. E chegou. Rodrigo, agora, era definitivamente dourado.

FONTES CONSULTADAS:

MUNHOZ, Amanda; BEHS, Leandro. Longe de casa desde os 12 anos, Dourado agradece oportunidade de Aguirre: “Valeu o sacrificio”. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/esportes/inter/noticia/2015/03/longe-de-casa-desde-os-12-anos-dourado-agradece-oportunidade-de-aguirre-valeu-o-sacrificio-4723440.html. Acesso em 03 de out. 2016.

LAGOS, Rogério. Convocado para a seleção olímpica, Dourado comemora: “É um sonho”. Disponível em: http://torcedores.com/noticias/2016/06/convocado-selecao-olimpica-dourado. Acesso em 03 de out. 2016.

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