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Ricardo Fenômeno

por Rarissa Grissutti | rarissa.grissutti@gmail.com | edição de Leonardo Ferreira | leonardoferreira305@hotmail.com

Eleito melhor jogador do mundo de Fut5, Ricardinho garantiu seu terceiro ouro olímpico na Rio 2016 (Foto: Arquivo pessoal)

O silêncio em campo é um presságio, quase um descompasso. Os gritos, as reações e todo explodir devem ficar presos. Guardados para o melhor momento. Assim quando a bola, que faz o único barulho presente, entrar pela espreita do gol, a avalanche de emoções e comemorações vem toda de uma só vez. Essa espera por vibrar, complementa os jogos de Fut5 e, também, a vida de um dos craques da modalidade.

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Camisa 10 da Seleção fez o gol da vitória na final olímpica, conquistando o quarto ouro do Brasil (Foto: Arquivo pessoal)

Ricardo Alves, 27 anos, eleito duas vezes melhor jogador do mundo de futebol de 5, traz no peito a última conquista, a medalha de ouro na Paraolimpíada do Rio. A seleção brasileira de Fut5 está invicta há 10 anos e essa hegemonia se manteve através dos pés de Ricardinho. Na final Brasil x Irã, o único e grande gol da vitória veio dali, da jogada do craque. Mas o feito foi a pedido. Ao ouvir um conselho por telefone antes da partida, Ricardinho soube exatamente como jogar a bola. O pai lhe disse sobre o goleiro: “Ele é bom, é alto, tem que jogar rasteiro”. Assim o fez.

Aos seis anos de idade, Ricardinho sonhava com o futebol. Queria ser jogador e chegar nas grandes competições. Mal sabia ele o futuro que teria. Nessa idade, Ricardo perdeu a visão por um descolamento de retina e o sonho quase se desfez ali, em seus olhos. Ainda assim o contato com esporte não foi esquecido. O menino de Osório, aos dez anos, se jogou outra vez no “campo” e descobriu um jeito semelhante de jogar futebol: O Fut5.

Quem guarda parte da responsabilidade de Ricardinho ter se tornado quem é hoje é o pai, Célio Luiz Alves. Ao trazer o filho de Osório para Porto Alegre para ter uma educação em braile, ele não imaginava o que traçava para o futuro do garoto. No colégio escolhido, Ricardinho conheceu o Fut5 e logo entrou com tudo no esporte. A carreira se mostrou promissora. Aos doze anos ele jogava contra os garotos de quinze. Aos dezesseis entrou para a Seleção. A partir daí foram muitas conquistas. Bicampeão mundial, tricampeão paraolímpico, campeão das duas edições do Desafio de Futebol de 5, além dos Parapan-americanos de Toronto, Guadalajara e Rio. O currículo de títulos é extenso. É de um verdadeiro craque. Mas o grande desafio ainda estava por vir.

Em abril deste ano, Ricardinho se submeteu a uma cirurgia para corrigir uma lesão na fíbula do pé direito. Com um tempo curto e ouvindo muitos “o Ricardinho não volta a jogar”, o camisa 10 da Seleção superou as adversidades em quatro meses, treinando pesado, e mostrou o potencial de um fenômeno. Como a história já havia contado com outro personagem, a superação deixou para Ricardinho um gosto ainda melhor na conquista. Além de se tratar da Olimpíada de casa e estar na seleção invicta, ele pôde mostrar o resultado de um trabalho que poucos acreditavam. A vitória veio pelos seus pés. E hoje sacudindo a medalha com guizos, Ricardinho sorri ao comparar o seu momento com o de Ronaldo Fenômeno. Histórias parecidas, lesões, tempo curto e muita superação. Ronaldo Fenômeno em 2002, Ricardo Fenômeno em 2016.

Com mais esse feito para a sua história e a do esporte, o jogador também leva uma vida leve fora dos jogos. A paixão que se estende ao silêncio guiado pelos guizos da bola e prescindido pela explosão da torcida faz o coração acelerar toda vez que o gol é marcado dentro das linhas marcadas em um campo, em um jogo divido em duas partes de 25 minutos e que estabelece que seus jogadores enfaixem os olhos.

Assim acontece em um jogo de Fut5 – modalidade incluída no programa das Paralimpíadas em 2004 (Jogos de Atenas) – e que hoje leva luz a um dos nomes mais marcantes da história do esporte, ao do garoto que nasceu na beirada do litoral gaúcho, que traz na mente muitas lembranças, que até o auxiliam em campo e que, além do futebol, tem uma quedinha por música, por bichos e que conserva um jeito caseiro, sempre achando que o melhor lugar para estar é em casa. Apesar de isso ter mudado uma vez, onde o melhor lugar para estar foi no Maracanã, levando a bandeira do Brasil no encerramento dos Jogos Paraolímpicos. Como porta-bandeira, o momento foi total e inteiro de alegria e com um sentimento que vai muito além do de dever cumprido. A sensação ficou mais próxima de um agradecimento eterno.

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Memórias da infância de Ricardinho o guiam muitas vezes em campo (Foto: Arquivo pessoal)

FONTES CONSULTADAS:

BAIBICH, Andre. Conheça Ricardinho, o melhor jogador do futebol de cegos. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/esportes/noticia/2014/11/conheca-ricardinho-o-melhor-jogador-do-mundo-no-futebol-de-cegos-4651754.html. Acesso em: 19 de set. 2016.

ORTIZ, E. O cego que é craque da seleção brasileira de futebol de 5. Disponível em: http://www.istoe2016.com.br/por-que-o-brasil-nao-olha-para-ele/. Acesso em: 20 de set. 2016

CRUZ, B. Ricardinho decide, e Brasil leva quarto ouro no futebol de 5. Disponível em: https://esportes.terra.com.br/lance/ricardinho-decide-e-brasil-fatura-o-tetra-no-futebol-de-5,11868871c3295ef27e5c9ad6e5223a0dxjq4tmy5.html. Acesso em: 20 de set. 2016.

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