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Das lutas da vida para as vitórias no ringue

por Valéria Possamai | valeria.possamai@gmail.com | edição de Leonardo Ferreira | leonardoferreira305@hotmail.com

Robson Conceição derrota francês Sofiane Oumiha na luta final e sagra-se campeão (Foto: Yuri Cortez/AFP)

Dedicação, garra e luta, são algumas das palavras que definem a personalidade forte do lutador, em todos os sentidos denotativos da palavra, que se tornou o primeiro pugilista brasileiro a receber uma medalha olímpica. O esporte transformou a realidade de Robson Conceição Donato. O fez deixar as brigas de rua para dedicar-se às lutas do ringue. E, agora, é ele quem provoca uma transformação na história do boxe.

O início dos combates começara cedo para Robson Donato Conceição. Aos 13 anos, o menino iniciava sua luta diária às 4h da madrugada. Ajudava a avó na feira no bairro onde morava, em Boa Vista do São Caetano, Salvador –BA. Antes de montar a barraca dos produtos, percorria cerca de 5km até a feira de São Joaquim, a mais famosa de Salvador, para buscar as frutas e verduras que seriam vendidas em sua banca. Voltava para o bairro de origem, montava a barraca e deixava tudo pronto para sua avó. Após, partia rumo ao caminho da escola e voltava a feira à tarde. À noite, era a vez do boxe.

Sem a presença do pai, Robson tinha como inspiração a figura do tio, famoso pelas brigas de rua do Carnaval de Salvador. Para ter um bom desempenho frente aos outros foliões, que saem de casa com intenção de brigar no meio da folia – o que faz parte da cultura de Salvador-, o menino procurou o boxe. Inicialmente, um amigo que treinava em uma academia local que lhe ensinava os primeiros golpes. Os equipamentos eram improvisados. Sandálias eram utilizadas como manopla. E nas mãos, as bandagens eram conseguidas graças à criatividade. Quando percebia que o material estava bastante gasto, Robson corria para o hospital. Lá, reclamava de dores no braço ou na mão. E assim, o médico mobilizava a região.

O esporte, porém, apresentou novas visões ao moleque que gostava de lutar. Por incentivo de sua avó, a quem ajudava no trabalho na feira, Robson entrou em um projeto social que ensinava boxe para jovens entre 13 e 16 anos. Aos poucos, passou a levar a sério e dedicar-se ao esporte. Sem dinheiro para pagar o transporte, o caminho de nove quilômetros até a academia, era feito a pé. “Chegava em casa 23h, meia-noite… Para acordar 4h para ir para a feira no outro dia”, recorda Robson.

Conceição presta continência após conquistar a medalha de ouro na Rio 2016 (Cesar Guimarães/UOL/NOPP)

Conceição presta continência após conquistar a medalha de ouro na Rio 2016 (Foto: Cesar Guimarães/UOL/NOPP) 

Toda a dedicação valeu a pena. Talentoso, não demorou para conseguir um lugar na seleção brasileira. Mas antes de dar o golpe final e se tornar campeão olímpico, Robson levou uns bons cruzados. “Quando comecei no boxe, fiz dez lutas e perdi todas. Pense no quanto apanhei”, lembrou. Em duas edições olímpicas, foi derrotado logo na estreia. Em Pequim-2008, Robson lutou no peso pena (até 57,1kg) e perdeu na primeira luta para o chinês Yang Li. Em Londres, lutando no peso leve (até 61,2kg), novamente foi eliminado na estreia ao ser derrotado pelo britânico Josh Taylor. Mas nada o fez desistir. Foi apanhando que Robson aprendeu. A dedicação nos treinamentos lhe rendeu medalha de bronze no Mundial de Doha, no Catar, em 2015.

Nos Jogos Olímpicos do Rio, competindo no peso ligeiro (até 60kg), Robson Conceição precisou fazer três lutar até chegar à final da competição. Em sua estreia, teve pela frente Anvar Yunusov, do Tadjiquistão. Venceu por nocaute técnico, já que o tadjique não voltou ao segundo assalto. Na sequência, nas quartas de final, precisou superar Hurshid Tojibaev, do Uzbequistão. Com uma vitória por decisão unânime dos jurados (30-27/30-27/29-28), avançou à semifinal, que já lhe bastava para ficar com um bronze. Quinto colocado no ranking da Associação Internacional de Boxe Amador (AIBA), Robson superou então o cubano Jorge Lazaro Alves, então líder do ranking e tricampeão mundial na divisão, para chegar à decisão.

Com o Pavilhão 6 do Riocentro pulsando, ele derrotou o francês Sofiane Oumiha por decisão unânime, com 3 a 0 (30-27, 29-28 e 29-28) na noite da terça-feira (16/08). E o sonho de se tornar famoso por seus golpes, virou realidade. Aos gritos de “é campeão”, o Sargento da Marinha subiu ao lugar mais alto do pódio e prestou continência quando a bandeira verde e amarela subia ao som do Hino Nacional.

Depois do pódio, o baiano agora se prepara para alçar novos voos. Aos 27 anos e após três ciclos olímpicos, o boxeador migrou para o boxe profissional. Robson assinou contrato de cinco anos com a empresa americana Top Rank para fazer seis lutas por ano. O novo ciclo inicia-se no dia 5 de novembro, quando o campeão olímpico entrará no ringue para uma luta em Las Vegas, nos Estados Unidos. A luta será uma das preliminares do combate que marcará o retorno de Manny Pacquiao da aposentadoria.

FONTES CONSULTADAS:

PORTAL IBAHIA. Robson Conceição assina contrato profissional e garante luta por cinturão em 2 anos. Disponível em: http://www.ibahia.com/detalhe/noticia/robson-conceicao-assina-contrato-profissional-e-garante-luta-por-cinturao-em-2-anos/?cHash=a38bbba7ffdb98a1a188d51999c02d68. Acesso em: 13 out. 2016.

CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE BOXE. Ficha dos atletas. Disponível em: http://www.cbboxe.com.br/sitenovo/fichaatleta/7/Robson-Conceicao. Acesso em: 10 out. 2016.

SIQUEIRA, Felipe; BARONE, Marcelo; CARNEIRO, Raphael; MARINHO, Raphael; GOZZER, Thierry. Ouro inédito! Robson Conceição bate francês e leva título histórico no boxe. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/olimpiadas/boxe/noticia/2016/08/ouro-inedito-robson-bate-frances-e-conquista-titulo-historico-no-boxe.html

BBC BRASIL. Das brigas de rua ao ouro olímpico: Robson Conceição conquista medalha inédita para o Brasil. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/geral-37103163. Acesso em: 08 out. 2016.

CARTA CAPITAL. Robson Conceição, das brigas nas ruas ao ouro olímpico. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/robson-conceicao-da-briga-nas-ruas-ao-ouro-olimpico. Acesso em: 08 out. 2016.

VETTORAZZO, Lucas; LUCENA, Rodolfo; RIBAS, Tiago. Campeão olímpico, Robson buscou o boxe para brigar no Carnaval de Salvador. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/esporte/olimpiada-no-rio/2016/08/1802157-brigao-robson-entrou-no-boxe-aos-13-anos-para-melhorar-sua-tecnica-na-rua.shtml. Acesso em: 09 out. 2016.

NADDEO, André; GUIMARÃES, Saulo Pereira. É campeão! Robson Conceição conquista ouro inédito para o boxe brasileiro. Disponível em: https://www.rio2016.com/noticias/e-campeao-robson-conceicao-conquista-ouro-inedito-para-o-boxe-brasileiro. Acesso em: 09 out. 2016.

MONIZ, Gustavo; BORGES, Rodolfo. Robson Conceição, o impávido ouro de Salvador. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/08/17/deportes/1471386587_242140.html. Acesso em: 09 out. 2016.

REVISTA LUTAS. Das BRIGAS DE RUA em SALVADOR para o Podium na RIO-2016. Disponível em: http://revistalutas.com.br/2016/08/27/das-brigas-de-rua-em-salvador-para-o-podium-na-rio-2016/. Acesso em: 09 out. 2016.

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