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Cidade pequena, sorte grande: a breve história de um campeão paralímpico

por Alberi Neto | alberineto@outlook.com | edição de Débora Ramos | debora.indcris@hotmail.com

Jovane Guissone, natural de Barros Cassal, é o único brasileiro campeão olímpico na esgrima em cadeira de rodas (Foto: Marcio Rodrigues/MPIX/CPB)

Pequenas cidades de interior existem aos montes, mas as pequenas cidades de interior sortudas não são tantas. Um exemplo de comunidade de sorte vem do município de Barros Cassal, no interior do Rio Grande do Sul. Segundo o Censo de 2010, a cidade tem pouco mais de 11 mil habitantes. Fica a 256 quilômetros da capital, Porto Alegre. Barros, como é conhecida pelos mais próximos, se designa como “terra de belezas naturais”. Próxima à cidade Soledade, a estância fica na região das pedras preciosas, um dos atrativos turísticos do Estado. Mas não, não são as pedras preciosas a sorte de Barros Cassal. A sorte lá é de metal precioso, o mais precioso, ouro. O município é berço de um campeão paraolímpico. Aliás, o primeiro brasileiro campeão paraolímpico de esgrima em cadeira de rodas. Foi em 11 de março de 1983, quando tinha 19 anos de emancipação, que a pequena Barros Cassal viu nascer Jovane Guissone, filho de Sebastião e Maria Iraci, um dos seis filhos que o casal teve.

Jovane Guissone com a família durante o revezamento da tocha olímpica em Porto Alegre (Daniel Zappe/MPIX/CPB)

Jovane Guissone com a família durante o revezamento da tocha olímpica em Porto Alegre (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)

Barros Cassal é pequena, já falamos sobre isso, mas ela é. O centro da cidade, da ponta norte ao extremo sul, tem pouco mais de dois quilômetros. Isso talvez seja o tamanho de alguma avenida próxima da sua casa. Em Barros, essa avenida é a Maurício Cardoso, a única com canteiro central, umas das poucas com asfalto. Outras ruas menores são calçadas de paralelepípedo, asfalto ou a boa e velha terra batida. Para quem vem de Soledade pela BR-153, o primeiro acesso à cidade se dá numa rotatória, em um canteiro logo ao lado uma grande imagem da padroeira da cidade, Nossa Senhora da Imaculada Conceição, recepciona os visitantes. Saindo da rodovia e seguindo pela Rua Ceferino Barbosa, se chega a Maurício Cardoso. No meio do cruzamento, um relógio eletrônico intercala hora e temperatura. Uma antiga Igreja Católica, o prédio da prefeitura, a câmara onde nove de vereadores fiscalizam o trabalho do prefeito, posto de saúde, agências bancárias e uma agência dos Correios, tudo se encontra no pequeno centro.

Mas voltemos à sorte de Barros Cassal. Jovane Guissone, antes de conquistar medalhas e mais medalhas mundo afora, se criou com os irmãos em meio às plantações de fumo dos arredores do centro de Barros, principal produção da época. Hoje, o fumo está dando lugar à soja. Guissone arrancava as folhas, as amarrava e colocava nas grandes estufas para secar. Depois, classificadas, as folhas eram unidas em pesados montes e conduzidas nos ombros até os caminhões responsáveis por levar as folhas para a indústria. Guissone ainda cuidava de alguns animais na propriedade.

O pai, Sebastião, já falecido, era açougueiro, uma tradição na família. Tradição que o rapaz sempre forte, de mãos grandes, cabelos escuros e sorriso fácil seguiu quando resolveu sair de casa para morar em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, aos 20 anos. Mas diferente das espadas e dos floretes, ele acabou por não se acertar com as facas e os cortes de carne, indo trabalhar como segurança.

Aos 21 anos – oito dias depois de sair do serviço como segurança, na noite de 19 de novembro de 2004 -, Guissone reagiu a um assalto. Um disparo foi efetuado pelo assaltante, a bala se alojou na coluna do jovem interiorano, lhe tirando o movimento das pernas. Segundo reportagem do jornal Zero Hora, o registro policial aponta o caso como uma tentativa de homicídio, na qual um conhecido de Jovane era o alvo.

O garoto de Barros Cassal durante a conquista do ouro em Londres (Luciana Vermell/CPB)

O garoto de Barros Cassal durante a conquista do ouro em Londres (Foto: Luciana Vermell/CPB)

O rapaz acabou caindo em profunda depressão sabendo que não voltaria a andar. Resistiu aos estímulos da fase de recuperação e sentiu a dor de viver sobre uma cadeira de rodas. Entretanto, algo mudou quando conheceu um novo mundo. O atleta credita o esporte como uma das grandes razões de sua recuperação, onde conheceu pessoas que viviam na mesma situação que ele. Após um ano indo a sessões de fisioterapia, Guissone começou a praticar o basquete em cadeira de rodas, mas a paixão esportiva veio em 2008, quando encontrou na esgrima o seu potencial. O convite para praticar o jogo de esgrima, como é conhecido o esporte, veio do também esgrimista Fábio Damasceno. A recuperação do rapaz de Barros Cassal também está ligada à massoterapeuta Quéli. Foi ela uma das responsáveis por tirar Jovane da depressão, lhe mostrar que ainda há vida depois de um acidente tão trágico. Superando o fundo poço da depressão, logo o casal teve seu primeiro filho, Jovane Jr., que chegou para fazer companhia à enteada de Guissone e filha de Quéli, Amanda. As competições logo começaram a aparecer.

Da entrada na esgrima, em 2008, até os dias de hoje, o atleta teve um crescimento significativo no esporte. O treino diário e o interesse pelo jogo lhe trouxeram já naquele ano duas medalhas de prata, uma na arma espada (a preferida dele) e outra na arma florete. Desde 2009 ele é campeão invicto nacional na Categoria B. No ranking mundial da categoria, ele ocupa a terceira posição, era líder até metade desse ano. A carreira praticamente invicta seguiu com sucesso até os Jogos de 2012, em Londres, onde Jovane Guissone selou sua unanimidade na modalidade. A capital do Reino Unido viu a história do Brasil no esporte acontecer, em uma campanha inédita, o menino de Barros Cassal chegou a final da categoria B da espada. Em um jogo disputado ponto a ponto, a vitória sobre o chinês Chik Sum Tam veio com o placar de 15 a 14. Guissone consagrou- se na categoria B da espada. Não foi apenas uma conquista, foi a primeira vez na história que um brasileiro conquistou o ouro na esgrima em cadeira de rodas em uma paraolimpíada. A fama repentina pode ter assustado. Reportagens e mais reportagens mostrando o título inédito conquistado em Londres, alçaram Guissone ao título de ídolo. Um patamar do qual poucos gostariam de sair.

Jovane durante o revezamento da Tocha Olímpica (Foto: Daniel Zappe/MPIX/CPB)

Nos quatro anos seguintes, na preparação para os Jogos do Rio de Janeiro, ele seguiu conquistando títulos, como a Copa do Mundo da Alemanha e o GP do Canadá, ambos em 2014. A rotina exaustiva de treinos era repetida diariamente. Começava cedo, saindo da sua casa em Esteio, na Região Metropolitana de Porto Alegre, e se dirigindo até a Capital para treinar no Centro Estadual de Treinamento Esportivo (Cete), em Porto Alegre, das 10h às 16h. Depois disso, se dirigia para o Grêmio Náutico União (GNU), para mais algumas horas de preparação. Antes das Paraolimpíadas do Rio Jovane falou que “não tinha tempo a perder”. Os Jogos estavam chegando e seu objetivo, “sem dúvida, era ser campeão”.

Ainda antes dos Jogos desse ano, Guissone se envolveu em uma polêmica. A Polícia Federal descobriu um esquema entre federações e o Ministério do Esporte. A fraude envolvia uma empresa escolhida, de modo ilícito, para gerir as verbas destinadas a confederações e clubes onde treinam os atletas. O programa Fantástico, da Rede Globo, fez uma reportagem sobre a denúncia da PF. A matéria abria com imagens de Jovane comemorando o título nos Jogos de Londres. A conquista dava lugar aos treinos de hoje na sede do GNU. Imagens de Guissone treinando, seguidas de um depoimento onde falava sobre sua cadeira de rodas, que estava quebrada e havia sido consertada por ele mesmo. A investigação mostrava que o dinheiro para compra de novos equipamentos podia estar sendo desviado. Segundo a reportagem, o nome do atleta foi colocado em uma lista do GNU em 2012 com o objetivo de angariar recursos públicos para o clube e comprar novos equipamentos para diversas modalidades, entre elas a esgrima. Em 2012, Jovane Guissone ainda não fazia parte do corpo de atletas que treina no GNU. Segundo ele, seu nome teria sido usado indevidamente.

Jovane levou a tocha para Barros Cassal, onde ocorreu um desfile extra-oficial (Prefeitura de Barros Cassal/Divulgação)

Jovane levou a tocha para Barros Cassal, onde ocorreu um desfile extra-oficial (Foto: Prefeitura de Barros Cassal/Divulgação)

Antes da competição Jovane foi um dos condutores da Tocha Olímpica. A comitiva oficial não passou por Barros Cassal, mas o menino de ouro da cidade fez questão de levar a tocha até lá. Em um desfile em carro aberto ele percorreu a cidade e tirou fotos com quem apareceu para prestigiar o evento que movimentou a tarde do dia 8 julho. Segundo o site da prefeitura, um “dia histórico para Barros Cassal”.

A preparação seguiu para os Jogos do Rio, as incansáveis horas diárias de treino não pararam. No dia 31 de agosto, Jovane Guissone chegou ao Rio de Janeiro, como parte da delegação que iria representar o Brasil nas Olimpíadas. A semana de preparação correu tranquilamente. O início das competições parecia indicar o bicampeonato. Na fase classificatória, Guissone venceu três dos quatro combates. Era chegada a hora das quartas de final.

Jovane sendo consolado após a derrota nos Jogos do Rio (Marco Antonio Teixeira/MPIX/CPB)

Jovane sendo consolado após a derrota nos Jogos do Rio (Foto: Marco Antonio Teixeira/MPIX/CPB)

Em um jogo contra o ucraniano Oleg Naumenko, três anos mais jovem, Jovane viu se distanciar o sonho de conquistar mais um ouro na espada, categoria B, sua especialidade. Perdeu por 15 a 12. Em entrevista ao jornal Zero Hora, ele afirmou: “Estou saindo feliz. Lutei para chegar até as quartas, fiz o meu melhor, mas o ucraniano foi superior. Estou tranquilo, de cabeça erguida. Peço desculpas ao Brasil, mas quero que entendam que o esporte é assim.”

Jovane ainda podia fazer como em 2012, quando não estava entre os favoritos e venceu na espada. Poderia fazer o mesmo no florete, no dia seguinte. A arma que não é sua especialidade poderia alça-lo novamente à posição de ídolo, mas não aconteceu. Era hora de retornar, não só para sua casa em Esteio, mas para onde tudo começou, para os braços da família, uma família com mais onze mil pessoas, que sempre sabe recepcionar seu campeão.

FONTES CONSULTADAS

SILVA, Jones Lopesht. A história de superação do gaúcho Jovane Guissone, medalha de ouro na Paralimpíada. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/esportes/noticia/2012/09/a-historia-de-superacao-do-gaucho-jovane-guissone-medalha-de-ouro-na-paralimpiada-3882604.html.  Acesso em: 20 out. 2016.

GUISSONE, Jovane. Conheçam o Jovane Guissone – PARALIMPÍADAS RIO 2016 Modalidade: Esgrima sobre Rodas. Disponível em: http://www.cantinhodoscadeirantes.com.br/2016/08/conhecam-o-jovane-guissone.html. Acesso em: 20 out. 2016.

ANÁLIA, Blog.  Touché! Conheça a trajetória de Jovanne Guissone, o primeiro paratleta a ganhar o ouro paralímpico em esgrima com cadeira de rodas. Disponível em: http://blogdoanalia.shoppinganaliafranco.com.br/?p=2105. Acesso em: 20 out. 2016.

GASPARETTO, Cristiel. Jovane Guissone perde nas quartas e fica sem medalha na espada. Disponível em: http://zh.clicrbs.com.br/rs/esportes/olimpiada/noticia/2016/09/jovane-guissone-perde-nas-quartas-e-fica-sem-medalha-na-espada-7445378.html. Acesso em: 20 out. 2016.

NETO, Alberi. Delegação paralímpica brasileira chega ao Rio de Janeiro. Disponível em: http://jcrs.uol.com.br/_conteudo/2016/08/galeria_de_imagens/518983-delegacao-paralimpica-brasileira-chega-ao-rio-de-janeiro.html. Acesso em: 20 out. 2016.

DE LANNOY, Carlos. Empresa desvia verbas destinadas a confederações e clubes esportivos. Disponível em: http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2016/07/empresa-desvia-verbas-destinadas-confederacoes-e-clubes-esportivos.html. Acesso em: 20 out. 2016.

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