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Duelo sobre rodas

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(Foto: William Oliveira)

“Quando assistem algo sobre deficientes, sempre pendem para o lado da história de vida do atleta, do ‘coitadismo’ pela deficiência, e não por seus resultados”, afirma a atleta de esgrima em cadeira de rodas, Daiane Peron.

Daiane Peron no Campeonato Brasileiro de Esgrima em 2012. (Arquivo pessoal/Facebook)

Popularmente chamada de esgrima adaptada, a esgrima em cadeira de rodas teve sua origem em 1953, através do médico alemão Ludwig Guttmann, e é destinada a atletas com deficiência locomotora. Sete anos depois, na primeira Paralimpíada, já havia duelos entre homens e mulheres. Hoje em dia a disputa segue as regras da Federação Internacional de Esgrima (FIE), mas é administrada pelo Comitê Executivo de Esgrima, do Comitê Paralímpico Internacional (IPC). As pistas onde ocorrem as disputas medem 4m de comprimento por 1,5m de largura, e as cadeiras de rodas ficam fixas ao chão, entre suportes metálicos. Isso porque se um dos esgrimistas move a cadeira, a competição é interrompida.

Na esgrima há duelos de espada, onde homens e mulheres podem competir e a zona de toque é acima do quadril, conhecida como florete, além de ser a arma, também é praticada por ambos os sexos com zona de toque apenas no torso. Sabre é a categoria destinada apenas para homens onde todo o corpo conta como zona de toque e não só a ponta, mas a dimensão inteira da lâmina conta para efetuar um toque. Para cada prova há uma proteção específica para o competidor e para as cadeiras, além de diferentes regras. Na competição individual de esgrima, os combates se dividem em três etapas de três minutos, com direito a um minuto de intervalo. Ganha quem fizer cinco toques na primeira etapa ou um total de 15 toques ao final da disputa. Já na competição de grupos, esse total pula para 45 toques.

Daiane Peron, 30 anos, é considerada a primeira atleta gaúcha na esgrima em cadeira de rodas. Quando ainda era criança teve os pés amputados e parte do braço esquerdo, em razão de um acidente com água fervente. Em 2005, aos 19 anos, teve seu primeiro contato com o esporte através de um grupo de amigos. “Eles faziam reuniões aos sábados de confraternização, em uma Associação da Brigada Militar. A esgrima estava começando ali. Como não havia nenhuma menina, me convidaram a conhecer e acabei ficando por 10 anos”, conta. Durante esse período, Daiane treinou com os técnicos Eduardo Nunes e Alexandre Teixeira na associação para deficientes de ex-militares reformados, a Associação de Servidores da Área de Segurança, Portadores de Deficiências, do RS (ASASEPODE).

“Eu sempre quis ser psicóloga, desde criança. Gosto muito de tudo que envolve este campo”, afirma a atleta. Desde seus 17 anos mora sozinha em Porto Alegre, e nunca teve condições financeiras para pagar um curso superior particular. O sonho de cursar psicologia sempre acabava sendo adiado. Em 2011 realizou o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem), no qual passou com média alta e conseguiu bolsa. Porém, para psicologia existiam mais concorrentes do que vagas, e com o objetivo de não perder a bolsa, acabou se inscrevendo para o curso de segunda opção, Educação Física. “No fim me encontrei na profissão e amo o que a vida acabou escolhendo por mim”, conta.

Formanda no curso de bacharel em Educação Física pelo Centro Universitário Metodista (IPA), Daiane, junto a um colega de curso, ministra a segunda escolinha de esgrima adaptada do Brasil, o Programa Paradesporto do IPA, que já existia há um ano, porém apenas com atividades aquáticas e para cegos.

Como já havia montado uma escolinha via ASASEPODE/Grêmio Náutico União (GNU), que está ativa até hoje, e ministrado aulas durante 2 anos no Centro Estadual de Treinamento Esportivo (CETE), a atleta apresenta a ideia de uma escolinha adaptada a coordenadora do paradesporto do IPA. Responsável pelo planejamento de todo o projeto, Daiane também dá as aulas no espaço cedido pelo IPA.

Jogos Mundiais organizados pela IWAS, na Índia em 2009. (Arquivo pessoal/Facebook)

Sendo a primeira brasileira a competir pelo Brasil na esgrima em cadeira de rodas, a primeira a ganhar uma medalha de ouro nacional, a única até então a participar dos Jogos Mundiais da IWAS (Federação Internacional de Desporto para Amputados e em Cadeira de Rodas), na Índia, e a primeira deficiente a montar as duas únicas escolinhas de base de esgrima adaptada existentes no país até hoje, Daiane também colaborou com um capítulo para o lançamento do livro “Educação Física Inclusiva”. O livro aborda textos de colegas que participam do Grupo de Estudos Washington Guttieres, sobre Esporte e Inclusão do IPA e traz também todas as vivências que o esporte da esgrima proporcionou a Daiane.

A atleta compete na categoria 1A, na qual conquistou cerca de 40 medalhas viajando para países como: Polônia, Alemanha, Itália, França, Argentina e Índia. Como qualquer esporte paralímpico, existem categorias que classificam o nível da deficiência dos competidores. Na esgrima em cadeira de rodas são seis categorias: classe 1A que é composta por atletas sem equilíbrio sentado e que têm limitações no braço armado; classe 1B com atletas sem equilíbrio sentado e limitações no braço armado; na classe 2 estão os atletas com total equilíbrio sentado e braço armado normal; classe 3 é composta por atletas com bom equilíbrio sentado, sem suporte de pernas e braço armado normal; classe 4 conta com atletas de bom equilíbrio sentado e com suporte das extremidades superiores e braço armado normal; e, por fim, a classe das limitações mínimas, onde se encaixam aqueles que têm somente deficiência nos membros inferiores.

Daiane Peron como voluntária nos Jogos Olímpicos do Rio 2016 (Arquivo pessoal/Facebook)

Esse ano, o Brasil foi palco dos maiores espetáculos no esporte, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Entre os dias 07 e 18 de setembro, atletas do mundo inteiro puderam competir em seus esportes e categorias paralímpicas, nos Jogos sediados na cidade do Rio de Janeiro. O Estado do Rio Grande do Sul teve 34 atletas como seus representantes. Daiane Peron foi para o Rio como voluntária das Paralimpíadas. Apesar da felicidade pela participação, ela se diz chateada quando questionada sobre a visibilidade que a mídia deu para os Jogos Paralímpicos. “Elas (as mídias) vendem o que o povo compra, e o povo só compra esporte de alto rendimento convencional. Quando assistem algo sobre deficientes, sempre pendem para o lado da história de vida do atleta, do ‘coitadismo’ pela deficiência, e não por seus resultados, que é o que deveria ser considerado para vender”, desabafa a esgrimista.

Pensando no futuro, Daiane diz que “se Deus quiser”, pretende conseguir bolsa para cursar o mestrado, se não na psicologia – que é a área que mais ama -, talvez na Educação Física adaptada – que também a cativa desde que entrou para a esgrima. “Posteriormente quem sabe, terei minha própria escolinha de esportes recreativos para crianças deficientes”, planeja.

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