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Ponteiro do Voleisul, Bozkinho relembra momentos importantes da carreira e já planeja a despedida das quadras

por Ana Paula Silva e Bruna Padilha |anapsilva.comuni@gmail.com e brunaa.jornalismo@gmail.com

Quando você está diante de um atleta em ação, seja de qual for a modalidade esportiva, você se pergunta como tudo começou? Como ele chegou ao momento em que concluiu aquele lance ou superou aquele recorde? Ou, ainda, já parou para pensar como será depois que ele disputar a última partida na carreira? Na vida ou no esporte, já diria o lema olímpico, é preciso ser Citius, Altius e Fortius, ou, em bom português, o mais rápido, o mais alto e o mais forte para superar limites e alcançar os objetivos.  A vida é feita de ciclos, e a preparação para passar de ciclo ao outro é um processo gradativo – e contínuo.

O UniRitter Esporte conversou com o jogador de vôlei Luciano Paczko Bozko, que dedicou 26 de seus 36 anos à vida esportiva sem abrir mão de manter o foco nos estudos, para que pudesse fazer essa transição da melhor forma possível.

Pensar no amanhã sempre fez parte da vida do jogador. Durante a passagem pelos times infanto e infanto-juvenil da seleção brasileira, com os quais conquistou dois ouros e duas pratas em Campeonatos Mundiais e Sul Americanos, e também na Superliga, torneio em que ele atingiu, em 2009, a marca de 2.000 pontos (até então alcançada por apenas onze atletas na competição), ele sempre fez dos estudos um parceiro fiel na trajetória esportiva e da dobradinha esporte/educação um guia nos passos para o futuro.

Ele sempre foi movido pela consciência de que deveria se preparar para o que aconteceria depois que a carreira terminasse. “Até porque o esporte acaba para o profissional, vai até no máximo os 40 anos. São pouquíssimos jogadores que conseguem atuar depois desta idade, então eu tenho na minha cabeça que vou ter que fazer alguma coisa com o resto da minha vida. Por isso sempre procurei aproveitar as oportunidades e continuar estudando”, diz o atleta.

O começo de uma história no  esporte

O UniRitter Esporte conversou com Bozko no lugar em que ele deu os primeiros passos em sua carreira profissional: o Grêmio Náutico União. Chegando em uma das quadras de vôlei do clube, encontramos o time feminino mirim. A primeira reação de Bozko foi um sorriso: “Passei grande parte da minha infância e juventude aqui”. A lembrança logo foi interrompida pela saudação do técnico Dênio Peixoto, que há 10 anos acompanha as equipes mirim, infanto e adulto do clube. Aproveitando a visita do jogador, Dênio apresenta às meninas o Bozkinho, como é chamado no vôlei. Os dois se conheceram quando Bozko fazia parte das categorias de base e o seu irmão, Marcelo, jogava com Dênio no time adulto do União.

Ana Paula Silva/UniRitter Esporte

Durante uma visita ao Grêmio Náutico União, clube em que começou a jogar vôlei, Luciano Bozko é apresentado ao time mirim treinador pelo amigo Dênio Peixoto

Não era possível escutar muita coisa além do som das bolas explodindo nas palmas das mãos das atletas em quadra. Por alguns minutos, Bozko não tirou os olhos do treino, como se estivesse se imaginando nele, ainda criança, quando chegou ao clube. Agora com 1,98 metros de altura, tronco e pernas curvados, sentado na arquibancada, ele confessa: “Eu só esperei ter a idade suficiente (10 anos) e comecei a vir aqui para cá, porque era a idade com que poderia entrar para equipe e começar os treinamentos”. Foram cinco anos e três categorias no União (mirim, infanto e infanto-juvenil).

Da quadra, Bozko nos guiou por um passeio pelo clube, a procura de um lugar em que pudéssemos conversar. No caminho ele apontava as mudanças ocorridas desde a época em que começou a frequentar o local, como a reforma do ginásio. “Está tudo bem diferente de quando eu comecei”, comentou. Mesmo há dois anos sem visitar o clube, ele sabia exatamente aonde estava indo. No sobe e desce de escadas, e caminhando entre os corredores que nos faziam sentir em um labirinto, cada espaço estava repleto de esportistas. Aproveitando a tarde ensolarada, por sugestão dele a conversa aconteceu à beira da piscina. Sentado em um dos poucos bancos de madeira cobertos pela sombra, o jogador fez questão de contar sua história desde o começo.

O jogador de vôlei que fez dos estudos um alicerce enfatizou a importância que isso teve dentro das quadras. “Muitas coisas que conseguia fazer era pelo fato de estudar e estar com o cérebro em atividade. Isso é muito importante. Às vezes você tem que tomar uma decisão em uma fração de segundo e, se você está preparado mentalmente, isso ajuda muito. Por isso, dedicar-se somente ao esporte não resolve tudo”, afirma.

“É preciso manter os neurônios em funcionamento”, diz Bozko

Formado em Direito pela Ulbra em 2014, Bozko precisou conciliar os estudos com a carreira. “Quando tive a oportunidade de jogar em uma equipe que era em uma universidade, eu retomei meus estudos”, lembra. Não foi fácil. Ele precisou trancar o curso de Direito depois dos primeiros três anos e só conseguiu terminar no ano passado, quando voltou a jogar em Canoas.

Foi na faculdade que ele conheceu a esposa, Jaqueline Bozko, definida como “a companheira de todas as horas”. Na época ela fazia o mesmo curso e hoje é advogada do Voleisul, atual time do jogador. Juntos eles tiveram um casal de filhos, Ricardo, de seis anos, e Júlia, de cinco. “Em 2015 faz dez anos que sou casado e ela sempre me acompanhou, mesmo quando fui pra fora, ela sempre foi comigo. E ela também sempre estudou”, lembra o jogador.

Arquivo pessoal/Luciano Bozko

Primeiro título de expressão da carreira de Bozko veio em 1995, quando ele defendeu a seleção brasileira infanto-juvenil no Campeonato Mundial disputado em San Juan, em Porto Rico

Carreira, momentos marcantes e superação

A trajetória profissional de Luciano Bozko começou em 1995, aos 17 anos, quando ele foi convocado para defender a seleção brasileira no Campeonato Mundial infanto-juvenil em San Juan, em Porto Rico.  A conquista do primeiro título é, para ele,  um dos momentos mais especiais da carreira. “Nós fomos campeões! Foi uma coisa que marcou muito. Até por ser tão novo e por ser um título tão importante. Ser campeão mundial e saber que ganhou de todas as outras equipes do resto mundo todo é uma coisa bem marcante”, recorda.

A lesão no punho direito também não é esquecida entre as marcas do atleta. Ainda aos 17 anos, disputando a Superliga, ele colidiu contra uma placa de publicidade e cortou os tendões e os nervos do punho direito. O tratamento o afastou das quadras por quase um ano. “Antigamente as placas de publicidade eram de madeira, com um metal embaixo, que era um suporte. A quadra estava molhada, eu fui correndo e não vi. Escorreguei, bati nas placas e cortei todo o meu punho. Tive que fazer uma microcirurgia de cinco horas e meia”, conta.

Em 1997, recuperado, ele foi convocado novamente. Desta vez para o Mundial juvenil, em Bahrein, onde foi vice-campeão e, além disso, foi eleito a melhor recepção do torneio. “Para mim foi uma honra”, afirma o jogador com um sorriso timidamente orgulhoso.

Arquivo pessoal/Luciano Bozko

Bozko com os colegas da equipe, Marcelo Patel, Marlon Yared e Rodrigo Gil no Mundial juvenil de Bahrein disputado em 1997

Os primeiros passos fora do Brasil

Em 2005 Bozko começou a se aventurar fora do país. Foi jogar no Tourcoinh LM, na França. “Jogar fora é diferente. Lá eles te cobram muito mais por ser estrangeiro, toda pressão do time recai nas tuas costas, mas também por um lado é bom. Se tem essa pressão é porque tu tem condições. Se te contratam é porque te dão valor, porque tu tem respaldo para corresponder”, explica. Depois foram mais três anos na Itália, nas equipes de Forli e Pineto.

Mas entre as experiências interacionais, a da Polônia, em 2011, foi a mais enriquecedora. “Foi um dos países mais legais em que morei. Primeiro porque minha família é polonesa, e segundo porque é um dos países da Europa está em grande crescimento. Foi um campeonato muito forte, lá o vôlei é o primeiro esporte do país, os ginásios estão sempre cheios, a infraestrutura é muito boa, então só tenho boas lembranças de lá”, destaca.

Quando perguntado sobre quem motivou a carreira como jogador, ele não esconde o  orgulho e a admiração  por dois grandes referenciais que fizeram parte de sua vida no esporte. “Eu me lembro da primeira medalha de ouro olímpica, em 1992 (nos Jogos Olímpicos de Barcelona). O Brasil tinha aquela equipe com Tande, Carlão, Giovani, Maurício, Paulão e Marcelo Negrão. Com certeza todos ali me inspiraram. Não tinha um que não te motivasse. Mas eu gostava muito do Giovani, ele fazia jogadas lindas, foi uma das principais pessoas que me motivou, além do meu irmão, que também foi jogador. Eu sempre me espelhava nele”, revela.

Jorge Araújo/Folhapress Mais

Geração de Ouro do vôlei brasileiro (com Tande, Carlão, Giovani, Maurício, Paulão e Marcelo Negrão) foi uma inspiração para Bozko no início da carreira

O sonho de estar nos Jogos Olímpicos sempre existiu. Em 1997 ele chegou a ser convocado para treinar com a seleção brasileira adulta. “Isso já é uma coisa especial, que te motiva ainda mais. Apesar de serem os mesmos atletas que jogamos contra ou, muitas vezes, no mesmo time”, diz, e completa dizendo que seu sonho pode se concretizar nas próximas gerações da família: “Não cheguei a jogar uma Olimpíada, mas quem sabe meu filho ou minha filha, que adoram esporte”, espera.

Às vésperas dos Jogos Olímpicos no Brasil, o atleta acredita que o país está em fase de crescimento. “Vejo um avanço, mas claro que ainda precisamos de muitas melhorias. A gente não pode se contentar. E com certeza, com os Jogos Olímpicos dentro de casa o país quer fazer bonito e ficar entre os melhores do mundo. Eu acho que tem condições para isso. Material humano tem”, afirma. Contudo, sobreviver por meio do esporte ainda é complicado para muitos atletas. “No vôlei tu consegue viver se for um atleta de alto nível, jogar por um clube grande. Vai se manter durante o tempo que jogar. Por isso também que estudei, porque quando tu para de jogar, não é como no futebol que tu consegue fazer um pé de meia para viver o resto da vida. Depois que para tem que começar a fazer alguma coisa, é um momento bem difícil. Por isso que estou me preparando”, diz.

Daniel Nunes/Divulgação/Voleisul

Na temporada 2014-2015, Bozko disputou a Superliga B pelo Voleisul, de Novo Hamburgo

Vivendo o presente e pensando o futuro

Bozko chegou ao Voleisul no fim de 2014 e assumiu a camisa 16. Ponteiro, ele chegou a ficar quase seis meses fora das quadras desde que deixou o time do Canoas, no fim de 2013. O técnico do Voleisul, Paulo Roese, afirma que a chegada do jogador foi um grande diferencial para a equipe. “Ele é um jogador super técnico, o que é muito difícil na posição em que ele atua. Ele tem uma energia muito bacana. Sinceramente foi um grande prazer e até um aprendizado muito grande trabalhar com ele”, elogia. Paulo ainda reforça que Bozko é um privilegiado no que se refere à condição física: “Ele é um atleta que se cuida, não teve lesões sérias, não tem problema de peso. O que ele não pode, nesta idade em que está, é ficar muito tempo sem treinar. Problemas com condicionamento físico ele não vai ter”, garante.

Estudando para prestar a próxima prova do concurso público para auditor fiscal do trabalho, até pouco tempo ele estava se dividindo entre os dois treinos diários, de duas horas e meia, a família e os estudos. “É bem complicado. Eu tenho dois filhos pequenos, eles sentem minha falta e eu também sinto falta de estar com eles. Também tenho a minha esposa, então preciso ser pai e marido. No final da noite eu conseguia estudar um pouco. Durante o campeonato foi meio complicado, mas agora estou de férias, então estou tendo tempo para focar nos estudos, aproveitando este tempo”, conta. O pai , jogador, marido e estudante faz questão de arranjar tempo para jogar bola com o filho, pular corda com a filha e ir ao cinema com a esposa. “Até porque a carreira de atleta te faz ficar muito tempo fora com as viagens. Quando posso tento sempre estar com eles”, diz.

Ele afirma que ainda permanecerá jogando por mais um bom tempo, e que a aprovação no concurso para auditor não significa uma despedida imediata das quadras. “Se eu passar, até sair a nomeação, fecharia exatamente com meus planos de jogar mais um ou dois anos. Se eu não passar, vou continuar estudando”, conta.

Para quem está começando agora, Bozko deixa como recado o mesmo conselho que dá  para os filhos: “É preciso aproveitar e se divertir, gostar do que se faz e não pensar em ser profissional, ganhar dinheiro ou viver disso. Tem que estar ali porque gosta. Se não gosta, se está fazendo meio que obrigado, então não está no caminho certo”, finaliza.

BOZKINHO CONVERSA COM O UNIRITTER ESPORTE NO GRÊMIO NÁUTICO UNIÃO

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