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“A mobilização social é o maior instrumento contra as injustiças do futebol”, diz presidente da Frente Nacional dos Torcedores

por Thiago Nascimento | thiago.nascimento.rs@hotmail.com

João Hermínio Marques trabalha como advogado e é militante da A Marighela, uma organização socialista, patriota, internacionalista e revolucionária. Ele foi integrante da torcida organizada do Grêmio durante 10 anos e foi presidente da Frente Nacional dos Torcedores, movimento social que luta pelo futebol democrático e popular, surgido há quatro anos. Para João, o futebol é uma forte arma para se combater as injustiças sociais e se almejar dias mais justos, tanto dentro quanto fora de campo. Ele cita Sócrates e Afonsinho, dois ex-jogadores de futebol, que viam no esporte uma grande força para movimentações populares, e João Saldanha, o João Sem Medo, ex-técnico da seleção brasileira, perseguido pela ditadura militar por ser comunista declarado. João conversou com o UniRitter Esporte e falou também sobre um dos principais problemas do futebol: sua elitização e distanciamento do povo.

Primeiramente, João, como surgiu a Frente Nacional dos Torcedores?
A Frente se organizou, primeiramente, pela internet, através de um fórum de debates sobre torcidas organizadas. Nesse espaço discutíamos sobre violência nos estádios, como combatê-la e questões que abordassem o futebol, no geral. Em seguida, decidimos nos encontrar fisicamente, para fixar nossos ideais. Meses mais tarde realizamos o 1º Encontro Nacional dos Torcedores, onde elegemos uma direção e apresentamos nosso manifesto como estatuto do movimento. Hoje nós temos a Frente Nacional espalhada em várias regiões do país, do sul ao nordeste.

Qual a política do manifesto criado pela Frente Nacional dos Torcedores?
O manifesto simboliza nossa grande arma para a mobilização popular, nos garantindo direito de sair às ruas reividicando pelo futebol mais social, justo e igualitário, fora das mãos das grandes empresas e do monopólio CBF/Rede Globo. Quando criamos o estatuto, desde o início, sempre batemos na tecla de criarmos uma raiz, primeiramente, no Brasil e, logo após, se espalhar pela América Latina, começando por países como Argentina e Uruguai, fomentando nossas ideias e, assim, conseguindo patamares mais altos.

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Depois de ganhar destaque com as manifestações pedindo a saída de Ricardo Teixeira da CBF, Frente Nacional dos Torcedores foi às ruas para protestar contra José Maria Marin

E de que forma vocês conseguem mobilizar as pessoas para irem às ruas protestar?
Pois bem, nosso carro-chefe, sem dúvida alguma, foi o “Fora Teixeira”. O bloco conseguiu levar uma multidão às ruas, mobilizando não somente em Porto Alegre, mas no resto do país. É verdade que, depois disso, ele saiu e entrou o Marin, mas nosso principal ponto era mostrar a indignação do povo com a Confederação Brasileira de Futebol, comandada pelo Ricardo Teixeira, e que ninguém mais aguenta ver o futebol nas mãos dos empresários e sendo usado unicamente para enriquecê-los. O torcedor não é bobo, ainda mais aquele que respira futebol e tem a paixão no sangue. Então, através dos debates e da rede facebook nós conseguimos mexer com os brios das pessoas.

Falando em Ricardo Teixeira, o futebol brasileiro, representado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), passa pela sua pior fase dentro e fora de campo, com todos os escândalos de corrupção e lavagem de dinheiro. Como você vê esse cenário atual e o que esperar futuramente?
A crise da máfia da bola abre uma oportunidade enorme para mudanças no futebol brasileiro e mundial. Afinal, vale lembrar que a FIFA também está em crise, e o chefe da máfia de lá renunciou. O problema é que os torcedores não estão bem organizados. A FNT, por exemplo, passa por um momento de renovação de seus quadros e de oxigenação de sua política para poder mobilizar os torcedores e as torcidas por mudanças radicais na CBF. Infelizmente, porém, não acredito que tenhamos tempo para conseguir efetivar as condições necessárias para avançar dessa forma. Assim, acredito que a crise da atual máfia da bola no Brasil conduzirá a ascensão de uma nova máfia, mais vinculada ao capital financeiro e ao mercado especulativo, junto com os oligopólios de mídia… Engana-se quem pensa que o futebol-empresa, ou clube-S.A. sejam as soluções. Ao contrário, isso é a exacerbação da mercantilização do futebol, causa maior de uma mais intensa elitização. A ordem do dia é reconstruir a FNT para mobilizar, lutar, avançar e vencer contra a máfia da bola. Um outro futebol é possível.

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Para o ex-presidente da FNT, candidatura de Zico à presidência da Fifa é “mais do mesmo”

E a candidatura do Zico para presidente da Fifa?
Péssima candidatura. Mais do mesmo. E Zico nem tem a coragem de Romário pra denunciar. Ao contrário, ele joga no mesmo time dos que já estão lá… Basta lembrar quando ele foi ministro do esporte do Collor… Uma tragédia de ministro. Essa mania de colocar ex-jogador em cargo político é cômica. Política precisa de formação ideológica e preparo. Não é só saber jogar bola.

O Romário vem se destacando fora de campo, com a abertura da CPI do futebol, inclusive fazendo críticas ao atual coordenador-geral de seleções da CBF, Gilmar Rinaldi. O Romário é uma boa expectativa em combate aos cartolas que hoje comandam nosso futebol?
Bem, em terra de cego quem tem olho é rei. Diante da submissão e da mesmice daquela corja de parasitas que é o Congresso Nacional, um baixinho driblador e sem papas na língua acabaria se destacando. É isso que o Romário tem feito: barulho. Nesse sentido, ele joga do lado certo ao denunciar a corrupção e o lamaçal da CBF e da FIFA. Porém, ele é um deputado. Ele tem lado político. E tem dificuldade de se encontrar politicamente. Mas aos poucos ele está se achando. E infelizmente já está dando demonstrações claras que não joga no mesmo time que o nosso. Em outras palavras, o Romário é contra a máfia da bola que atualmente está na CBF, mas está aliado com outros setores da máfia da bola, os que provavelmente terão a chance amanhã e não mudarão nada, a turma do futebol- business.

Você falou em futebol-business, e isso nos lembra logo sobre a elitização do futebol. De acordo com uma matéria, publicada pela revista Época, os ingressos do futebol brasileiro são os mais caros do mundo. Como combater a elitização do nosso futebol, que hoje não leva mais o torcedor “povão” ao seu estádio?
Só tem um jeito. Ingresso barato. A FNT é contra a elitização do futebol e luta por um futebol justo, democrático e popular. Lutamos para que haja um setor popular de pelo menos 30% da capacidade dos estádios com ingresso até 3% do salário mínimo. Isso é tentar trazer o povo de volta aos estádios. O futebol é lazer da classe trabalhadora, o lazer do povo. Era em favor disso que o Sócrates lutava, quando foi jogador. Sócrates, João Saldanha, Afonsinho… e está há anos deixando de ser.

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João Hermínio Marques diz que o ex-jogador corintiano Sócrates é uma das referências na luta por dias melhores no futebol

Falando um pouco sobre o Sócrates, qual a referência dele para o futebol?
O Dr. Sócrates é o nosso principal símbolo, seja no futebol, com sua participação na democracia corintiana, seja no campo político, com as Diretas Já. Ele, junto do João Saldanha, é nossa referência de luta para sonhar com dias melhores. O João Saldanha, que a mídia chamava de João Sem Medo, foi deposto do cargo da seleção porque os militares, na época da ditadura, o achavam subversivo, revolucionário, e isso poderia atrapalhar no plano de usar a seleção brasileira como principal imagem de que o Brasil vivia dias de glória. O João era comunista declarado, assim como o Sócrates, e ambos tiveram um papel importante no cenário brasileiro.

Faz falta um jogador que fuja das regras, seja se manifestando ou questionando, que seja a voz do povo…
Faz muita falta. Não acho correto cobrarem do Neymar, por ex, mesmo ele sendo a nossa referência, assim como discordo que cobrem do Pelé por ele ser o rei do futebol. O jogador de futebol não tem a obrigação de ser politicado, mas a questão é que a FIFA, hoje, impede as manifestações, seja dentro ou fora de campo, mas ela mesma não conseguiu acabar com o racismo proeminente das torcidas, principalmente do leste europeu e nem procura alguma forma para combatê-lo. Não combate o racismo e nem combate a máfia que ela mesma criou no futebol.

Já se passou mais de um ano da Copa do Mundo. Qual o legado que ela deixou?
Muito pouco. O futebol elitizou ainda mais. Os estádios, a maioria, estão perdidos sem jogos, sem público. E as obras de infraestrutura foram mínimas. Talvez o legado da Copa seja a memória popular de boas partidas, de muita raça, garra e determinação das seleções dos outros países, obviamente. Porque a brasileira está marcada na paleta pelo 7 a 1. Foi uma boa Copa do Mundo pra quem gosta de futebol. Eu gosto, logo vejo como uma boa Copa. No entanto, para o torcedor brasileiro foi trágica.

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