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A violência da Cidade de Deus e o preconceito da internet derrotados no tatame

por Patricia Vieira | patii_vieira@hotmail.com

Rafaela com a primeira medalha de ouro do Brasil nos Jogos Olímpicos 2016 (Foto: Marcelo Theobald/Extra)

Aquele era um dia de muitas primeiras vezes. A primeira vez em que o Hino Nacional Brasileiro soou nos Jogos Olímpicos de 2016. A primeira vez em que uma mulher conquistava o ouro olímpico para o Brasil no judô. A primeira vez em que a menina negra da favela alcançava o topo do seu sonho. Em 8 de agosto de 2016, Rafaela Lopes Silva, 24 anos, nascida no Rio de Janeiro e criada na Cidade de Deus, conquistou o ouro inédito nos Jogos Olímpicos do Rio.

Infância e a descoberta do judô

Porém, esse sonho não se construiu somente na área nobre do Rio de Janeiro, local onde a Vila Olímpica foi instalada. Rafaela Silva cresceu em meio a uma comunidade difícil, onde a violência, o tráfico e o consumo de drogas eram seus vizinhos e vistos pelos seus pais como maior vilão na criação das filhas. Justamente por esse motivo, as irmãs foram encaminhadas por eles a um projeto de esportes da Associação de Moradores local. Inicialmente, Rafaela tinha um grande interesse no futebol, porém, a Associação não tinha time feminino, o que a fez migrar para o judô, também impulsionada pela irmã mais velha, Raquel, sua maior parceira nas brigas na escola e futuramente, no tatame.

A partir do empenho, dedicação, experiências e conquistas das suas primeiras medalhas, Raquel foi desenhando uma história de competitividade com a irmã. A mãe, dona Zenilda, sempre disse que Rafaela gostava de disputar pelos melhores lugares. Foi nesse momento em que o Instituto Reação, fundado pelo judoca Flávio Canto, e o treinador Geraldo Bernardes entraram na vida das meninas. Desse momento em diante, o esporte entrou definitivamente na vida das irmãs e logo depois de algumas conquistas, Raquel teve que deixar os tatames por conta da maternidade. Rafaela tomou a situação como um ordenamento a seguir no esporte em nome da história que desenvolveu junto da irmã.

Conquistas: do ponto mais alto ao mais baixo

Rafaela contou com o apoio do Instituto Reação e do treinador Geraldo, não só no aspecto técnico, mas também com auxílios para captação de patrocínio e até mesmo ajuda para custear despesas das competições. Afinal, nem sempre era possível contar com a ajuda da família. O investimento rendeu diversos frutos: mais de 40 títulos, entre eles o primeiro lugar no Campeonato Mundial Júnior em Bangkok, no ano de 2008; o primeiro lugar no Grand Prix Panamericano, em 2010; e a classificação para as Olimpíadas de 2012, em Londres. Porém, o desafio se tornou ainda maior do que o tatame, do que a competição, do que os próprios Jogos Olímpicos: o maior desafio foi contra a própria decepção e contra o ódio.

A depressão e a luta contra o racismo

Eliminação. Essa foi a palavra que ecoou durante meses na cabeça de Rafaela, após perder a luta contra a húngara Hedvig Karakas, no ano de 2012, em Londres. Não bastasse a decepção com ela mesma, a internet fez questão de dar voz àqueles que a consideraram uma decepção para o Brasil. Nesse momento, o fato de ser negra e de origem humilde se fez presente em diversas ofensas, o que fez com que a tristeza e a dor voltassem com ela para casa.

Considerada pelos familiares de Rafaela Silva a fase mais difícil da carreira, com situações em que ela chegou a pensar em desistir. O período que se seguiu foi acompanhado pela psicóloga do Instituto Reação, Nell Salgado, mostrando que, apesar de tudo, ainda havia esperança e força para continuar. E apesar de muitas ofensas que recebeu nas redes pudessem resultar em processos na justiça, Rafaela escolheu combatê-las no seu próprio território e as calou no tatame.

A judoca voltou com força para os treinos, e o Mundial de Judô de 2013, realizado no Rio de Janeiro, trouxe para a sua casa a chance de fazer os insultos recebidos pela internet serem engolidos pelos seus autores. Rafaela fez bonito na competição: cinco vitórias em cinco lutas. No Maracanãzinho, veio a medalha de ouro. As lágrimas, derramadas pela tristeza em Londres, caíram no Rio de Janeiro com gritos de alegria. E muitos dos que a chamaram de “macaca” e desmereceram sua posição no tatame por ser “favelada” tiveram que aplaudir a conquista. Agora só faltava o ouro olímpico.

Jogos Olímpicos Rio 2016

O judô brasileiro possui o histórico de nunca um campeão mundial ter conquistado uma medalha olímpica. Ao mesmo tempo, nunca um medalhista olímpico no esporte se consagrou campeão mundial. Rafaela aceitou o desafio, e foi confiante para os Jogos Olímpicos no Rio em 2016, mesmo com resultados não tão bons nas competições de 2014 e 2015.

A saga de Rafaela se iniciou com foco total. Tentando não absorver o calor da torcida brasileira de forma absoluta e com a fisionomia séria ao entrar para todos os combates. O apoio da família em todas as lutas foi primordial. Lutar novamente em casa deu a ela a chance de estar perto deles durante a competição.

A competição ocorreu em 8 de agosto. As duas primeiras lutas foram tranquilas. Nas quartas de final, Hedvid Karakas, a judoca com quem lutara na eliminação em 2012 foi a adversária, e o foco em não cometer o mesmo erro levou Rafaela a vitória. A luta seguinte trouxe Corina Caprioriu, vice-campeã olímpica em 2012. Disputada até o final, Rafaela levou a melhor. Sumyia Dorjsuren foi o último obstáculo e, tendo pontuado primeiro, a brasileira precisou administrar o resultado até o último segundo. Enfim, veio o grito de vitória, a consagração, a medalha de ouro e o Hino Nacional Brasileiro, ecoando nos Jogos Olímpicos do Rio pela primeira vez. Rafaela Silva estava no topo do seu sonho.

Repercussão ao ouro na internet

Curiosamente, a conquista da judoca despertou reações nas mesmas redes sociais que causaram sua depressão quatro anos atrás. A vitória de dela foi, para muitos usuários, a prova de uma tese de que todos podem alcançar seus objetivos independentemente de suas origens. Um pedacinho dessa medalha pertence ao Instituto Reação. Além dele e da família, Rafaela também já demonstrou publicamente o apoio ao Bolsa Atleta, do Ministério do Esporte, e faz parte de um programa de atletas de alto desempenho promovido pelo Ministério da Defesa em parceria com o Ministério do Esporte, condição que possibilita a ela ter direitos trabalhistas através do vínculo com de trabalho com a Marinha do Brasil.

Porém, ainda mais simbólico do que as reações da internet, é o valor da conquista de uma menina negra, humilde e de comunidade carente. Rafaela Silva é um exemplo e prova que o Brasil ainda tem muitas preciosidades para recolher em meio ao seu povo. Afinal, é gigantesco o número de meninas dessas comunidades que pode vir a se tornarem medalhistas olímpicas, profissionais do mundo das ciências ou, principalmente, campeãs das suas próprias vidas.

FONTES CONSULTADAS:

ABRAMVEZT, David; REBELLO, Helena; MORAIS, Renan; SOUZA, Richard. Somos todos Rafaela. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/olimpiadas/judo/noticia/2016/08/somos-todos-silva-rafaela-conquista-1-ouro-do-brasil-na-olimpiada-do-rio.html.

MONIZ, Gustavo. Negra, pobre e Silva: o primeiro ouro da Rio 2016 é a cara do Brasil. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/08/09/deportes/1470695638_790195.htm.

GUIMARÃES, Thiago. Quatro maneiras de usar a vitória de Rafaela Silva para confirmar o que você já pensa. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/brasil-37022870.

Site Oficial da Judoca Rafaela Silva. Disponível em: http://www.rafaelasilvajudo.com.br/.

RABELLO, Helena. Das ruas ao tatame. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/olimpiadas/judo/noticia/2016/08/das-ruas-ao-tatame-rafaela-silva-um-diamante-lapidado-com-pes-no-asfalto.html.

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