ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Majlinda Kelmendi: a vitória de uma nação

por Larissa Pessi | larissapessi@gmail.com | edição de Débora Ramos | debora.indcris@hotmail.com

Majlinda é considerada a melhor judoca do mundo na categoria até 52Kg (Foto: Getty Images)

O dia é 7 de agosto de 2016. O local, a Arena Carioca 2, onde ocorrem os Jogos Olímpicos. É a final da categoria de judô feminino até 52kg entre a kosovar Majlinda Kelmendi e a italiana Odette Giuffrida (10ª do mundo), e as expectativas são altas: a primeira não perde uma luta desde 2013, quando ganhou sua primeira medalha de ouro no Mundial de Judô naquela mesma cidade – o Rio de Janeiro. É com um yuko que Majlinda confirma o favoritismo e vence a luta mais importante da sua vida. No Kosovo, seu povo festeja a primeira medalha de ouro de sua história, na sua primeira participação olímpica como país independente. No pódio, a atleta não consegue segurar a emoção e chora ao ver a bandeira de seu tão sofrido país sendo hasteada.

Majlinda é considerada a melhor judoca do mundo na categoria até 52Kg. (Siempre889.mx)

Majlinda conquistou a primeira medalha de ouro olímpica da história do Kosovo (Foto: Divulgação)

Localizado no sudeste da Europa, o Kosovo, independente desde 2008, continua não reconhecido por mais de 80 países membros das Nações Unidas, incluindo Brasil, Rússia, Índia e China, sendo considerado por estes apenas uma província separatista da Sérvia. A primeira tentativa de independência ocorreu em 1991 (ano de nascimento de Majlinda), o que gerou conflitos bélicos de grandes proporções nos anos seguintes. Em 1998, a tensão cresceu entre os guerrilheiros albaneses separatistas (ELK) e os ioguslavos, e, no ano seguinte, com o ataque da OTAN a Iugoslávia, teve início a Guerra do Kosovo. Vários habitantes das cidades atacadas viraram refugiados. Após quase três meses, houve acordo de paz intermediado por líderes ocidentais. Até hoje o país luta por reconhecimento internacional, não tem estabilidade política e está em constante ameaça de guerra com seus vizinhos.

Na época dos conflitos, a família de Majlinda, de origem albanesa, viu-se obrigada a passar três meses trancada dentro de casa. Ao fim da guerra, seus pais ficaram desempregados. A medalhista, então com oito anos de idade, viu no judô uma forma de dar orgulho aos seus pais e ajudá-los financeiramente. Começou a praticar o esporte que levaria o nome do seu país aos holofotes, tendo como treinador o marido de sua irmã, Driton Kuka, que buscava concretizar seus próprios sonhos como judoca através de Majlinda.

Majlinda com Driton Kuka, seu treinador desde sua inserção no esporte. (Judo Inside)

Majlinda com Driton Kuka, seu treinador desde sua inserção no esporte (Foto: Judo Inside)

Foi na cidade de Pec (ou Peja, como chamam os habitantes de origem albanesa), no centro de treinamento de Kuka, que o caminho de sucesso começou a ser trilhado. Majlinda dedicou toda a sua vida ao judô. Não gostava muito de festas e tinha poucos amigos. Mas não se mostra arrependida de sua escolha: “Quando comecei a praticar judô mudei completamente. Quando criança era calma e até tinha medo de sair na rua. Depois comecei a praticar judô e ganhei uma personalidade mais forte. Crescer com o judô nos faz aprender a respeitar tudo e todos. Temos boa coordenação entre o corpo e a mente. Se não nos tornamos campeões, pelo menos tornamo-nos grandes pessoas”.

Desde 2006 Majlinda participa de competições internacionais, acumulando uma coleção de medalhas. Uma vitória relevante em sua carreira foi a do Campeonato Mundial Júnior em Paris, quando a Federação Internacional de Judô conseguiu um certificado de reconhecimento pelo trabalho da atleta. Já nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012, quando representou o país de origem da sua família, foi eliminada na segunda rodada por Christianne Legentil (Ilhas Maurício), a qual derrotou na Rio-2016. No Mundial de Judô em 2014, na Rússia, fez parte da delegação dos países independentes e conquistou o título de bicampeã mundial.

Ao final daquele ano, o Comitê Olímpico Internacional finalmente aceitou o Kosovo como membro e só então Majlinda pode representar seu tão querido país e conquistar a primeira medalha de sua história. “Quando o Thomas Bach (presidente do Comitê Olímpico Internacional) me entregou a medalha, disse que tinha cumprido a minha parte do acordo. Ele sempre apoiou muito o esporte kosovar”, relatou a atleta. Após sua vitória, emocionada, a judoca declarou que “ganhar na estreia (do Kosovo nos Jogos Olímpicos) é fantástico. (…) Essa medalha significa muito para as pessoas, principalmente as crianças. Elas olham para mim como uma heroína e, agora, sabem que mesmo sendo de uma nação que sobreviveu à guerra e um país pobre, se elas querem ser campeãs olímpicas, podem conseguir”.

No ponto mais alto do pódio, a melhor do mundo faz a clássica pose dos medalhistas olímpicos. (Extra online)

No ponto mais alto do pódio, a melhor do mundo faz a clássica pose dos medalhistas olímpicos (Foto: Divulgação)

A expectativa é de que outras instituições esportivas, como a Fifa, sigam o exemplo do COI e reconheçam o Kosovo como país, o incluindo em suas competições. Assim, ganhará visibilidade e relevância perante o mundo. Inclusive, anos atrás, um diplomata de Belgrado disse que reconheceria a nação como Estado independente apenas quando o visse jogando na Copa Mundial.

O amor de Majlinda por sua nação é tanto que recusou propostas milionárias para se naturalizar e competir por outros países, mesmo com a pressão dos pais. E não se arrepende: “Estou muito contente por levar esta medalha para o Kosovo e não para outro país. Não há milhões, não há dinheiro no mundo, que possam fazer uma pessoa sentir-se como me sinto. (…) Para mim o Kosovo significa muito. É um país que sobreviveu a uma guerra, que tem problemas. E sei que significo muito para o meu país. (…) Todo o povo está feliz. É um sonho realizado”.

Hoje, aos 25 anos, Majlinda Kelmendi é bicampeã mundial de judô e medalhista olímpica, sendo vista como a melhor do mundo em sua categoria. Com o ouro, não apenas conseguiu uma vitória esportiva, mas também marcou seu nome na história do Kosovo, colocou-o em evidência no mundo e deu alegria ao seu povo. Até mesmo o vice-primeiro-ministro do país, Petrit Selimi, assumiu a importância da moça ao declarar que ela “é uma embaixadora melhor do que eu e todos os demais diplomatas juntos”. Hoje as motivações da judoca para continuar lutando são diferentes daquelas da menina de oito anos: “Eu amo o judô. Não luto por dinheiro ou popularidade, mas pelo amor a esse esporte”.

FONTES CONSULTADAS:

DELAUNEY, Guy. Rio Olympics 2016: Judo champ Kelmendi thrills Kosovo. Disponível em http://www.bbc.com/news/world-europe-37009927. Acesso em: 18 out. 2016.

O GLOBO. Majlinda Kelmendi ganha no judô a primeira medalha de ouro da história de Kosovo: país participa de seus primeiros Jogos Olímpicos como nação independente. Disponível em: http://oglobo.globo.com/esportes/majlinda-kelmendi-ganha-no-judo-primeira-medalha-de-ouro-da-historia-de-kosovo-19874109#ixzz4NR3E9P5P. Acesso em: 18 out. 2016.

EDESPORTO. Majlinda Kelmendi: valeu a pena sonhar. Disponível em: http://edesporto.com/majlinda-kelmendi-valeu-a-pena-sonhar-7205. Acesso em: 18 out. 2016.

EURONEWS. Majlinda Kelmendi, a judoca de “ouro” de Kosovo. Disponível em: http://pt.euronews.com/2016/08/10/majlinda-kelmendi-a-judoca-de-ouro-do-kosovo. Acesso em: 18 out. 2016.

FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE JUDÔ. Kosovo’s first Olympic Champion- Majlinda Kelmendi. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=SZiDeWQERn8. Acesso em: 18 out. 2016.

Deixe um comentário