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China, campeão mundial pelo Grêmio, relembra os anos dourados e fala sobre o futuro

Osmar Martins | zionwebjob@hotmail.com | edição de Ulisses Miranda | ulisses_mr17@hotmail.com

Hoje técnico da seleção sub-15 do tricolor gaúcho, ex-volante China conta desde sua estréia no Grêmio, até os seus projetos atuais e planos futuros, ainda envolvendo o seu time do coração

Natural de Espumoso, RS, nascido em 13 de setembro de 1959, o gaúcho com apelido oriental começou a dar seus primeiros passos – e passes – no futebol, no modesto 14 de Julho, em Passo Fundo. Henrique Valmir da Conceição, ou China, mesmo sem ter feito processo de categorias de base, ao realizar um teste, conseguiu ingressar nos juniores do clube. Após três meses de estadia tendo feito bom desempenho em torneio regional, foi contratado para o time principal. A partir daquele momento, pôde desenvolver-se melhor técnica e fisicamente. Chegou até a morar nos alojamentos do clube durante o período. Este que não durou muito, logo ele foi contratado pela Chapecoense e mudou-se para o Estado de Santa Catarina. Lá, jogou parte de um campeonato brasileiro e logo foi transferido para o Grêmio, inicialmente num período de testes de três meses.


Em entrevista China conta sobre sua passagem pelo Grêmio, fim da carreira de jogador e trabalhos como treinador

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Além de sua passagem histórica pelo tricolor gaúcho, eternizando a camisa 5, ganhando títulos de todas escalas, do estadual ao mundial, China também teve larga experiência como treinador. Foram oito estados do Brasil em clubes de menor expressão, na maioria dos casos contratado em situações emergenciais e sem estrutura. Fora do nosso país, ele conseguiu ter mais sucesso.

China, Grêmio

(Foto: Arquivo Pessoal)

Chegou a treinar times na Arábia e Bahrein, onde subiu um time para a primeira divisão e salvou outro de ser rebaixado. Ainda como treinador na Arábia, conquistou um vice-campeonato da Copa do Rei. O questionamos sobre essas experiências vividas nestes países.

“No Bahrein é mais tranquilo, na Arábia é uma prisão, tu não tem liberdade pra nada, nem pra rezar. Mas tem que ver que quando tu chega lá, eles já te dão todas as regras pra assinar, aceita quem quer”, salienta o eterno camisa 5 tricolor.

Em relação ao processo de passagem de filosofia tática e técnica, com as dificuldades da cultura e da língua, China afirma que ele primeiramente não passou por problemas com tradutores, pois conhecia o seu e já eram amigos, assim havia confiança na palavra passada de um para outro. Porém relata que em outros casos não foi bem assim.

“Esse meu funcionou, pois era muito meu amigo, era um cara muito bom, gostava de mim, era gremista, morou aqui no Sul também. Mas já com outros eu sabia que falava uma coisa e eles diziam outra aos jogadores. Não cheguei a aprender árabe pois não quis, mas me comunicava também em inglês”, conta China;

Questionado referente ao nível técnico de competição, afirmou que no Bahrein ainda é baixo, pois muitos jogadores trabalham em outras profissões, não tendo exclusividade ao futebol. Já na Arábia, pelo contrário, o nível é alto pois o mercado é inflado, altíssimos salários e jogadores que de acordo com China, não gostam de treinar.

“Lá eles são enjoados, é complicado, ganham bem. Vai falar com eles, tudo cheio do dinheiro, e eu mandando correr, pular, suar. Mas é assim, já quando tu chega eles avisam: ‘Aqui tem que mandar, tem que gritar, tem que ser duro’ e aí é comigo mesmo”, brinca.

Ainda referente a sua passagem pelo mercado oriental, China relata também um grave problema já muito antigo no futebol. O empresariado interferindo no futebol dos clubes. Existem diversos casos de convocações questionáveis, titularidades precoces, ausências inexplicadas, etc. Tentaram fazer o mesmo com o camisa 5 gremista, mas com ele não foi possível.

“Em quase todos os contratos que me ofereceram por lá, queriam que eu falasse de futebol já antes, dissesse quem vai jogar, como vou montar e escolher. E isso eu não aceitava, tudo menos isso. Porque aí tu escolhe um jogador X pra jogar na posição, avisa a diretoria e amanhã esse mesmo jogador tem uma “dor de barriga”,”morte da tia” ou alguma “indisposição muscular” para que o jogador Y entre no lugar dele, com o dedo do empresário”, alerta.

Sobre a ocorrência desse tipo de caso no Brasil, o craque gremista afirma que em nosso país isso até pode ocorrer, como o caso de Gefferson, lateral-esquerdo colorado na Seleção, mas em menor escala, em virtude dos clubes ainda priorizarem muito o resultado, pautado no interesse de sua torcida, diferente de alguns casos em países do oriente, onde o principal interesse do clube é o comercial.

Presente e Futuro

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(Foto: Osmar Martins)

Hoje, China trabalha no CT Cristal, em frente ao Barra Shopping de Porto Alegre, diretamente com o sub-15 do Grêmio – uma seleção dos melhores jogadores nascidos entre 2001 e 2002. Sobre o trabalho atual, afirma que gosta de onde está por ser um ambiente educativo e estar diretamente ligado a formação dos garotos.

Referente ao futuro, se diz satisfeito em ser funcionário do Grêmio e estar à disposição. Relata também sua vontade de estar mais próximo do profissional.
Questionado o motivo disso não estar acontecendo hoje, China não sabe dizer ao certo, acredita que sejam motivações do clube, pois ele se sente preparado para maiores desafios. Com todos os anos e situações agregando experiência, o professor afirma que teria know-how para agregar diretamente o trabalho que hoje existe no elenco de ponta da equipe gremista.
 “Tem muita coisa lá que não poderia acontecer para uma equipe do tamanho do Grêmio. Com certeza teria coisas para mudar. Acho que tinham que criar uma coisa que já tínhamos há muito tempo, o Departamento de Fundamento para funcionários, tem muitos lá que não fazem tudo que poderiam fazer. Eu sei das minhas capacidades, meus conhecimentos, só que o problema é que muita coisa se perde no hiato daqui (juniores) para lá (profissional), também pela realidade vivida pelos garotos fora daqui” explica China.
O ídolo gremista também discorda de certos pontos no futebol jogado atualmente pelo Grêmio, principalmente no que foi criado por Roger Machado, dizendo ser um futebol mais “carioca ou paulista”, porém é esperançoso com o trabalho de Renato Portaluppi e Valdir Espinosa. Disse no dia da entrevista, duas semanas antes do título gremista, que acreditava que dessa vez “tudo conspirava” para que finalmente fossem campeões.

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