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Da brincadeira de criança à ginástica artística

Leticia Szczesny | leleszczesny@gmail.com | edição de Débora Ramos | debora.indcris@hotmail.com

Flávia Saraiva é sucesso na trave (Foto: Divulgação)

Com os pés no chão ela entra pra competir no solo e encanta. Com a força em seus pequenos braços ela começa a trave e se equilibra como se estivesse no chão. Com menos da metade da altura das barras paralelas ela voa de um lado ao outro. Com 1,33 de altura, 31 quilos e 17 anos, Flávia Saraiva, a Flavinha, como é chamada carinhosamente, conquista todos pelo seu carisma, e principalmente pelo seu talento.

Ela nasceu no dia 30 de setembro de 1999, no Rio de Janeiro. Seus pais, Fábia Brito Lopes Saraiva e João Saraiva, naturais do nordeste, anos antes de seu nascimento deixaram de lado o sertão para morar na capital carioca e trabalhar vendendo cestas básicas. Flávia e seu irmão mais novo, João Saraiva Junior, foram criados pelos pais em Paciência, um bairro simples na Zona Oeste do Rio. Enquanto os meninos e meninas da vizinhança se divertiam jogando futebol, ela estava fazendo acrobacias, plantando bananeira e se pendurando nos galhos de uma árvore próxima à casa onde a família mora.

Flávia mostra suas habilidades no Mundial de Glasgow (Foto: Ricardo Bufolin/CBG)

Flávia mostra suas habilidades no Mundial de Glasgow (Foto: Ricardo Bufolin/CBG)

Flávia mostrou as suas habilidades desde muito cedo. Aos quatro anos de idade ela passava a maior parte do dia pendurada de cabeça para baixo em uma goiabeira.Os vizinhos que passavam por ali e viam a menina brincando começaram a lhe incentivar a ir para a ginástica, pois eles viam nela um dom. “Ela tinha a mania de sair do sofá com as mãos e ir até a cozinha tomar água. Ela tomava e volta do mesmo jeito, com os pés pra cima, plantando bananeira”, contou a mãe da atleta em uma entrevista ao Esporte Espetacular.

A prima de Flavinha, professora de Educação Física, a incentivou a deixar os galhos da goiabeira de lado para ir treinar em aparelhos profissionais. Então, aos sete anos de idade, a pequena começou a participar de um projeto social desenvolvido por uma ONG, onde teve seu primeiro contato com a ginástica artística. Sua mãe, que até então ajudava o pai nos negócios da família, teve que deixar de lado o trabalho para acompanhar a filha pelos longos trajetos até onde ela treinava.

A menina que até então passava o dia pendurada em galhos já tinha em mente que queria ser uma ginasta. Encantada com as apresentações de Daniele Hipólito e Daiane dos Santos, ela se motivava para seguir trilhando rumo ao seu sonho. Era a primeira a entrar e a última a sair do ginásio. Seis horas de treino, seis dias por semana.

Aos oito anos foi descoberta por profissionais, porém, foi participar da sua primeira competição somente dois anos depois. Com 11 anos, mesmo com o receio da mãe, ela deixou a família e foi morar em Três Rios, no Sul do Rio de Janeiro, com o seu técnico e outros atletas, no projeto criado pela técnica Georgette Vidor. A partir dessa mudança, Flavinha começou a se dedicar ainda mais, e a ter a certeza que estava trilhando o caminho certo rumo ao seu sonho: participar das Olimpíadas.

Em 2013, logo no início da sua carreira como ginasta, ela garantiu medalhas e colocações de grande prestígio para a sua idade. No Houston National Invitational, terminou em décimo lugar no individual geral. No evento estudantil Gymnasiade, que ocorreu no mesmo ano no Brasil, ela conquistou suas primeiras medalhas. Ouro no solo e trave de equilíbrio, e prata com a equipe. Acabou na sexta colocação nas barras assimétricas.

O ano de 2014 foi de grandes conquistas na carreira de Flávia. Ao todo foram quatro competições. Começou com WOGA Classics em Plano, no Texas, onde foi primeiro lugar na trave de equilíbrio, segundo lugar por equipe e quinto no individual geral. Depois disso, ela competiu no Campeonato Pan-Americano júnior, um encontro para a qualificação dos Jogos Olímpicos da Juventude. Ficou em primeiro lugar no solo e individual geral, segunda com a equipe e terceiro nas barras assimétricas e na trave. Foi campeã nacional júnior e medalhista de bronze na trave.

Para finalizar o ano de conquistas importantes, com apenas 14 anos, ela participou dos Jogos Olímpicos de Verão da Juventude, em Naquin, na China. Substituiu a colega de equipe Rebeca Andrade, que estava lesionada, e trouxe para casa uma medalha de prata na individual geral, na trave e o ouro no solo. Ouro esse que a tornou definitivamente uma aposta para a seleção brasileira de ginástica artística. Ela chamou a atenção dos patrocinadores, começou a receber um salário e benefícios do governo brasileiro, mudando a sua vida e a de sua família. Os pais, no entanto, continuaram vendendo cestas básicas para manter a renda familiar.

Flavinha encanta a todos no Pan-Americano de Toronto (Foto: Geoff Burke/Reuters)

Flavinha encanta a todos no Pan-Americano de Toronto (Foto: Geoff Burke/Reuters)

A menina que treinava na ONG perto de casa participou dos Jogos Pan-Americanos de Toronto, em 2015, e fez sucesso por lá. Conquistou uma medalha de bronze no individual geral e ganhou também o bronze por equipes. Mas não foi só pelas

medalhas que Flavinha ficou conhecida. Ela era a menor entre todas as competidoras dos Jogos e sempre que competia parecia que estava brincando, com um sorriso de orelha a orelha. Isso tornou a atleta, de apenas 1,33 m, símbolo de “fofura” e carisma.
Aos 16 anos, após o sucesso nos Jogos Pan-Americanos, ela deixou de representar a ONG Qualivida/Três Rios e entrou para o Flamengo, clube por qual foi contratada até 2016. Treinada por Alexandre Carvalho ela começou a se preparar para as Olimpíadas Rio 2016. Flavinha que apenas sonhava em um dia participar de uma Olimpíada, agora teria a chance de mostrar para o mundo inteiro que tinha o dom ser uma ginástica artística.

Rio 2016. A oportunidade perfeita de começar uma jornada olímpica. Com apenas 16 anos, em meio a ginastas experientes, como Daniele Hipólito e Jade Barbosa, Flávia Saraiva competiu pela primeira vez em uma Olimpíada. A mascote, como ficou conhecida entre os colegas e a torcida, não deixou transparecer o nervosismo e a pressão de competir em casa. Desde as classificatórias ela mostrou que tinha potencial, principalmente na trave e no solo, os dois aparelhos que são a sua especialidade.

Na final olímpica da trave, Flávia Saraiva fica em 5º lugar (Foto: Rio 2016/ divulgação)

Na final olímpica da trave, Flávia Saraiva fica em 5º lugar (Foto: Rio 2016/ Divulgação)

Faltou pouco. Na final da trave, na qual tinha maiores chances de medalha, ela acabou se desequilibrando. Ficou em quinto lugar na Arena Olímpica. Apesar de não ter conseguido ir ao pódio, Flavinha deixou o povobrasileiro esperançoso para um futuro dourado e alegre na ginástica artística. A caçula da equipe brasileira foi muito elogiada pelos colegas e pelos treinadores. Após a prova final ela foi questionada pelos jornalistas presentes na Arena sobre perder uma chance de medalha. Com um sorriso no rosto, como sempre, a ginasta mostrou que apesar de parecer frágil, é muito madura. “Ser a quinta melhor do mundo na minha primeira Olimpíada, no meu país, é muito gratificante”, respondeu.

Muitos jovens e adultos têm suas vidas mudadas com o esporte, um clichê que se encaixa perfeitamente na história de Flávia Saraiva. A baixinha carioca que aos quatro anos de idade passava o dia pendurada em uma goiabeira e que descobriu seu talento através dos vizinhos e da família fez por merecer – e hoje é o futuro da ginástica artística do Brasil.

FONTES CONSULTADAS:

VEJA. Quem é Flávia, a carismática caçula da ginástica. Disponível em: http://veja.abril.com.br/esporte/quem-e-flavia-saraiva-a-carismatica-cacula-da-ginastica/. Acesso em 8 out. 2016.

MARTIN, Maria. Flávia Saraiva, a pequena que desceu de um pé de goiaba para subir na barra olímpica.  Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/08/12/deportes/1471038777_277085.html. Acesso em 8 out. 2016.

ÉPOCA. Tudo sobre Flávia Saraiva. Disponível em: http://epoca.globo.com/tudo-sobre/noticia/2016/08/flavia-saraiva.html. Acesso em 8 out. 2016.

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