ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Da Cidade de Deus para os tatames olímpicos

por Ana Paula Gomes Lima | anapaula.gomes1997@hotmail.com | edição de Leonardo Ferreira | leonardoferreira305@hotmail.com

Rafaela Silva conquista ouro olímpico no Rio 2016 (Foto: Marcio Rodrigues/Mpix Produções)

Sonhadora, humilde e apaixonada por luta, Rafaela Silva cresceu na favela Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, onde nasceu em 1992. O primeiro esporte que chamou sua atenção foi o futebol, que praticava em um campo com outras crianças perto de sua casa. Aos cinco anos, a atleta começou a praticar judô, na comunidade carente onde morava, incentivada pelos seus pais, pois eles queriam achar uma forma de não deixar a menina se aproximar da criminalidade e parar de brigar nas ruas. Com sete anos, ela e sua irmã Raquel foram convidadas pelo técnico consagrado Geraldo Bernardes, que revelou Rafaela e outras crianças talentosas no judô, a treinar no Instituto Reação, um projeto social desenvolvido pelo judoca Flávio Canto.


O Instituto Reação é uma organização não governamental que promove o desenvolvimento humano e a inclusão social por meio do esporte e da educação, fomentando o judô desde a iniciação esportiva até o alto rendimento. A proposta é utilizar o esporte como instrumento educacional e de transformação social, formando faixas pretas dentro e fora do tatame.Cerca de 1200 crianças, adolescentes e jovens a partir de quatro anos são beneficiados em cinco pólos – Rocinha, Cidade de Deus (Jacarepaguá), Tubiacanga, Pequena Cruzada e Deodoro.
Os primeiros títulos

Em 2008, aos 16 anos, a carioca ganhou seu primeiro título de expressão em Bangkok, na Tailândia: foi campeã mundial júnior. Logo em 2009 competiu pela primeira vez o mundial adulto, em Roterdã, na Holanda, e terminou a competição em 5° lugar. Em 2011, nos Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, no México, desbancou Ketleyn Quadros, a primeira a subir ao pódio no judô nos Jogos Olímpicos, e ganhou a medalha de prata na categoria até 57 kg. E no mesmo ano foi vice-campeã mundial adulto em Paris 2011, com apenas 19 anos.

A possível esperança que virou um trauma

Nas Olimpíadas de Londres 2012, a judoca já era esperança de medalha para o Brasil. Porém nada aconteceu como planejado. Ela foi eliminada da luta por uma tentativa de golpe irregular e quase encerrou sua carreira no judô.
Após a derrota, Rafaela recebeu muitos comentários racistas e ofensivos nas redes sociais. “Lar de macaca é na jaula e não na Olimpíada”, foi umas das críticas que mais atingiu o psicológico da atleta. Londres virou um trauma. Devido a esses acontecimentos, ela sofreu muito, pensou em até abandonar o esporte.

Sem acreditar em si mesma, depressiva e decepcionada com o que estavam falando dela, a esportista começou a fazer tratamentos psicológicos. Com ajuda da família, aos poucos conseguiu superar a depressão. Para tentar reerguer a irmã, Raquel a apresentou à coach esportiva Nell Salgado, que começou a trabalhar para não deixá-la abandonar a carreira. Nell ajudou muito. Puxou as recordações da infância até chegar à Olimpíada e, conversando,aos poucosa judoca voltou a acreditar que poderia ser campeã. Então Rafaela começou a se dedicar mais aos treinamentos. Os técnicos sempre comentavam que ela gosta muito de competir, mas não se empenhava tantos nos treinos. Queria resolver tudo sozinha.

Em 2013, a atleta estava de volta às competições, depois de um ano parada. Em abril, ganhou a medalha de ouro no Pan-Americano de Judô. Em agosto, Rafaela entrou para a história do judô brasileiro ao tornar-se a primeira brasileira a se sagrar campeã Mundial de Judô, vencendo na final a americana Marti Malloy. Porém, logo na sequência, teve uma recaída. No ano de 2014 e 2015, ela não teve bons resultados, foi eliminada do Campeonato Mundial na primeira rodada. A única conquista foi o Grand Prix de Dusseldorf, na Alemanha.

Superação e a conquista do ouro nas Olimpíadas 2016

Após todo o sofrimento de Londres 2012 e as recaídas nas competições, a carioca, com 24 anos, mostrou para o mundo que pode estar entre os melhores e, depois de muitos treinos, finalmente veio o resultado. Na estreia das O

Rafaela emocionada com o grande desempenho na Olimpíadas 2016 (Marcio Rodrigues Mpix Produções/Dilvulgação)

Rafaela emocionada com o grande desempenho na Olimpíadas 2016 (Foto: Marcio Rodrigues/Mpix Produções)

limpíadas de 2016, Rafaela Silva teve pela frente a alemã Miryam Roper, mesma adversária da estreia de Londres 2012. Nas oitavas de final, enfrentou a sul-coreana Jandi Kim e venceu a luta aplicando um wazari. E nas quartas de final mais um wazari vencedor contra a húngara Hedvig Karakas.

Empatadas em 3×3 em confrontos anteriores, Rafaela e a romena Corina Caprioriou prometiam um embate equilibrado na semifinal, mas com garra a judocacarioca venceu e foi para a final. Na decisão, enfrentou a mongol Sumiya Dorjssuren, número um do ranking mundial. Rafaela seguiu o seu planejamento e no contra-ataque garantiu a medalha de ouro nos Jogos

Olímpicos 2016, na cidade onde nasceu.O ouro nas olimpíadas foi uma superação. “Lembrando do sofrimento que passei em Londres, que me criticaram, que eu era uma vergonha para minha família, e hoje eu pude fazer todos os brasileiros com essa medalha aqui dentro da minha casa. O macaco que tinha que estar na jaula em Londres hoje é campeão olímpico dentro de casa e hoje eu não fui uma vergonha para a minha família”, afirmou a brasileira em entrevista ao globoesporte.com após a conquista da medalha.

Rafaela vence Sumiya Dorjssuren e conquista o ouro no Rio-2016 (Marcio Rodrigues Mpix Produções/Dilvulgação)

Rafaela vence Sumiya Dorjssuren e conquista o ouro no Rio 2016 (Foto: Marcio Rodrigues/Mpix Produções)

Rafaela é um exemplo de mulher humilde, que começou sua vida em uma comunidade carente, passou por muitas dificuldades. O esporte e o Instituto Reação transformaram a sua vida. “Acho que a minha vida é o judô. Se não fosse o judô, eu não sei onde estaria agora. Poderia estar ainda brincando dentro da Cidade de Deus, mas graças a Deus eu conheci o esporte e estou aqui como campeã mundial e campeã olímpica”, argumentou Rafaela Silva em entrevista ao Sport TV. Com força, persistência e principalmente superação, agora Rafaela Silva é uma campeã olímpica brasileira. Dedicou sua medalha de ouro às crianças do Instituto Reação que são suas companheiras de treino. Também para seus familiares e amigos que a apoiaram muito, com destaque para a namorada Thamara Cezar. Thamara, além de namorada, é assessora da atleta, marca as entrevistas, administra o seu perfil nas redes sociais, cuida de tudo para que a judoca se preocupe apenas em lutar e vencer.

FONTES CONSULTADAS:

MONIZ, Gustavo. Negra, pobre e Silva: o primeiro ouro da Rio 2016 é a cara do Brasil. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/08/09/deportes/1470695638_790195.html. Acesso em : 2 out. 2016.

KESTELMAN, Amanda. Campeã olímpica, Rafaela Silva volta às origens e visita Instituto Reação. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/judo/noticia/2016/08/campea-olimpica-rafaela-silva-volta-origens-e-visita-instituto-reacao.html. Acesso em: 03 out. 2016.

FRANCESCHINI, Gustavo. Técnica diz que Rafaela Silva reagiu ao ser chamada de “macaca”; Ministro aciona a PF. Disponível em: http://olimpiadas.uol.com.br/noticias/redacao/2012/07/31/tecnica-diz-que-rafaela-silva-reagiu-ao-ser-chamada-de-macaca-mas-foi-repreendida.htm. Acesso em: 04 out. 2016.

 

 

Deixe um comentário