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Da dificuldade à superação: conheça o melhor jogador de futebol paralímpico do mundo

por Nathália Lauxen Braga | nathalialbraga@gmail.com | edição de Ulisses Miranda | ulisses_mr17@hotmail.com

Ricardinho vibra nos Jogos Paralímpicos Rio-2016 (Foto: Alaor Filho/MPIX/CPB)

Se praticar um esporte exige dedicação, pense em fazê-lo sem enxergar. Tarefa difícil, porém, não impossível. Pelo menos não para Ricardo Steinmetz Alves, de 27 anos, o “Ricardinho” do futebol paralímpico. Considerado, atualmente, o melhor jogador de futebol de 5 do mundo na classe B1, o atleta persistiu, desde a infância, no sonho de jogar bola e colecionar conquistas.

Natural de Osório, no Rio Grande do Sul, Ricardinho enfrentou problemas de visão aos seis anos. Após sofrer um descolamento de retina, frequentou as salas de cirurgia por cinco vezes em busca da reversão do quadro. No entanto, aos oitos anos, perdeu completamente a capacidade de enxergar.

Mesmo abalado com a deficiência, a esperança de tornar-se jogador profissional de futebol permaneceu intacta. A família de Ricardinho decidiu se mudar para Porto Alegre, a fim de inscrevê-lo no Instituto Santa Luzia, referência no ensino em braile. Lá, ele treinou natação, atletismo e encontrou o futebol de 5. Aos dez anos, já se destacava como jogador acima da média e, aos doze, disputava partidas contra meninos com idade entre 15 e 17 anos. Ainda preservada e exercitada, a memória visual da infância auxilia nas jogadas que o tornam craque dentro de campo. “Quando eu comecei a treinar, tinha aquilo bem vivo na minha memória. Mesmo sem enxergar, eu aplicava o mesmo movimento. O jeito de chutar a bola, dar um passe, um drible. Aquilo ficou em mim. Tenho certeza de que todo o atleta cego que já enxergou tem muita vantagem sobre os outros”, conta Ricardinho.

A primeira convocação para a Seleção Brasileira de Futebol de 5 veio cedo, aos 15 anos. No ano seguinte, foi eleito a revelação e o melhor jogador do Mundial, vencido pela Argentina, em 2006. A partir disso, a carreira do atleta ascendeu. Em 2010, foi campeão mundial com a seleção brasileira e passou a direcionar toda a rotina ao esporte. “Eu me dedico só para o futebol. O negócio está totalmente profissionalizado, com preparação física muito forte, o pessoal está priorizando muito isso. Todo o acompanhamento é bem profissional”, comenta. Atualmente, Ricardinho treina pela Associação Gaúcha de Futsal para Cegos (Agafuc), com sede em Porto Alegre.

Paralimpíadas
Camisa 10 da seleção brasileira, Ricardinho consagrou o time como tetracampeão nos Jogos Paralímpicos do Rio 2016. Ele foi responsável por balançar as redes no 1 a 0 contra o Irã. A vitória fez o atleta comemorar, pela segunda vez, a medalha de ouro nas paralimpíadas. A primeira foi em Londres, há quatro anos.

Ricardinho comemora o tetracampeonato nos Jogos Paralímpicos Rio-2016 (Fotos: Comitê Paralímpico Brasileiro/Divulgação)

A final disputada em casa com a seleção foi equilibrada. A marcação cerrada da equipe iraniana obrigou os jogadores brasileiros a mostrarem talentos individuais. A habilidade de Ricardinho apareceu logo aos 12 minutos da etapa inicial. Ele partiu para cima da defesa rival, driblou dois marcadores e bateu cruzado. A bola passou entre as
pernas do goleiro Meysam Shojaeivan e parou no fundo da goleira.

FUTEBOL DE 5

História
Praticado por atletas cegos, o futebol de 5, ao que tudo indica, surgiu na Espanha, por volta da década de 1920. No Brasil, há indícios de que era praticado durante a década de 1950 por cegos que jogavam com latas. Durante as Olimpíadas das APAEs, em 1978, foi organizado, na cidade de Natal (RN), o primeiro campeonato da modalidade. Em 1984, ocorreu a primeira Copa do Brasil, em São Paulo. Posteriormente, a Seleção Brasileira participou de edições da Copa América, conquistando o ouro em 1997, 2001 e 2003. Em 1998, o Brasil foi ainda o campeão do primeiro Mundial, realizado em Paulínia (SP).

A modalidade só entrou para o programa dos Jogos Paralímpicos em Atenas-2004. E o Brasil é, até hoje, o único campeão. O futebol de 5 é disputado em uma quadra que segue as medidas do futsal, com algumas alterações nas regras tradicionais.
Os atletas de linha usam vendas nos olhos para evitar qualquer vantagem dos que apresentem percepção luminosa, enquanto o goleiro consegue enxergar normalmente. A partida é composta por dois tempos de 25 minutos cada, com intervalo de 10 minutos. O som dos guizos do interior da bola orienta os jogadores.

Classificações
B1: Cegos totais ou com percepção de luz, mas sem reconhecer o formato de uma mão a qualquer distância
B2: Atletas com percepção de vultos
B3: Atletas que conseguem definir imagens

Curiosidades
A rivalidade de sempre
A final da primeira edição dos Jogos Paralímpicos, em Atenas-2004, disputada pela Seleção Brasileira, foi contra a Argentina. E o jogo precisou ser definido nos pênaltis. O placar terminou em 3 x 2 para o Brasil. Em Pequim-2008 a decisão foi contra os anfitriões chineses e, em Londres-2012 os rivais do Brasil na disputa pelo ouro foram os franceses.

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