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Defesa israelense, paixão brasileira

Por Sidd Rodrigues | siddrodrigues15@gmail.com

Krav Maga é ensinado em academia do bairro Bom Fim (Foto: Sidd Rodrigues/Uniritter)

Sob o olhar do criador do Krav Maga, Mestre Imi Lichtenfeld, e do responsável por seu crescimento na América Latina, Mestre Kobi Lichtenstein, cerca de vinte alunos repetem os movimentos ensinados desde os anos 1940. Os dois quadros na parede relembram a história do Krav Maga, arte de defesa israelense usada pelas maiores forças militares do mundo. Os retratos dos mestres são emoldurados pelas bandeiras do Estado de Israel – que abrigou o judeu Imi Lichtenfeld quando a Europa começou a se voltar contra seu povo –  e pelo pavilhão brasileiro, onde Mestre Kobi encontrou seus primeiros instruídos na América Latina.

Krav Maga é ensinado em academia do bairro Bom Fim (Foto: Sidd Rodrigues/Uniritter)

Krav Maga é ensinado em academia do bairro Bom Fim (Foto: Sidd Rodrigues/Uniritter)

Criado como meio de defesa em um tempo de grande turbulência, pouco antes da criação do Estado de Israel, O Krav Maga (do hebraico קרב מגע, “combate de contato”) logo chamou atenção pela sua eficiência em combate. Sendo pensado para neutralizar ameaças e dar resposta efetiva, rápida e simples para agressões, a arte de defesa foi integrada ao treinamento dos militares israelenses desde a formação do país. Após isso, Imi ainda levou para outras corporações a filosofia do Krav Maga, como o Mossad, o FBI e equipes S.W.A.T.

Em 1964, o Krav Maga deixou de ser exclusividade dos militares e agentes de segurança de elite e a população civil teve acesso pela primeira vez as técnicas de combate de Lichtenfeld. A resistência dos judeus discriminados pelo fascismo ascendente na Europa pré-Segunda Guerra começava sua jornada como filosofia moderna de vida. Com base no respeito, paciência e autoconhecimento, a arte começou a dar sinais que necessitava ser profissionalizada. Assim, o grão-mestre preparou seu legado, escolhendo os melhores alunos para darem continuidade a pureza e simplicidade da arte de defesa, espalhando-a pelo mundo.

Krav Maga é ensinado em academia do bairro Bom Fim (Foto: Sidd Rodrigues/Uniritter)

Krav Maga é ensinado em academia do bairro Bom Fim (Foto: Sidd Rodrigues/Uniritter)

Foi um destes escolhidos que, enviado para a América, lançou a pedra fundamental da arte de defesa no Brasil. Treinado desde os três anos de idade por Mestre Imi, Kobi Lichtenstein desde cedo era visto como um prodígio moldado pelo Krav Maga. Veterano da Guerra do Líbano (1982), o professor foi responsável primeiramente pela divulgação da arte na Região Centro-Sul de Israel, onde treinou milhares, antes de partir para o Brasil, tornando-se o primeiro mestre a ensinar fora do país. Estabelecendo-se no Rio de Janeiro, em 1989, fundou a Federação Sul-Americana de Krav Maga (FSAKM), hoje presente no Brasil, Argentina e Peru.

Treino pesado e clima leve

No prédio da Associação Israelita Hebraica, na rua Gen. João Telles, o instrutor Felipe Milach, 38, recebe os alunos com um largo sorriso. São jovens e adultos de várias idades, homens e mulheres que aguardam o início da aula com empolgação. Quando entro, levo bronca de Milach, que encerra a aula para a turma anterior. “Tira o sapato pra pisar no tatame, cara!”, avisa. Como reação, solto um palavrão como interjeição. O instrutor, sem perder o sorriso, manda a turma fazer dez flexões. “Cada um pensando em proteger o colega cria espírito de corpo”, explica o rapaz, enquanto inicia a contagem.

Krav Maga é ensinado em academia do bairro Bom Fim (Foto: Sidd Rodrigues/Uniritter)

Krav Maga é ensinado em academia do bairro Bom Fim (Foto: Sidd Rodrigues/Uniritter)

A irmandade entre os alunos é um dos pilares do Krav Maga. Não existe competição e o principal objetivo é voltar para casa em segurança depois de um dia de trabalho ou estudos. A turma é ensinada que evoluir em grupo é sempre a melhor evolução. “A arte não possui rivalidade como há em algumas lutas. Por toda a América Latina, somos treinados pelo mesmo mestre”, explica Felipe. De fato, todos os testes são conduzidos rigorosamente por Kobi e identificações da FSAKM são ostentados com orgulho junto ao nome do mestre em camisetas, faixas e adesivos nos carros. “Se você precisar de ajuda e algum praticante de Krav Maga ver um adesivo como esse no seu carro, pode ter certeza que ele irá te auxiliar”, complementa, apontando para um adesivo com o símbolo da Federação.

O carioca Felipe Milach coloca a turma, pontualmente às 18h, em formação. A linha começa timidamente os alongamentos, estranhando a presença do jornalista que se dispôs a experimentar as primeiras lições. Em reverência, todos saúdam os retratos de Imi e Kobi, enquanto o sol dourado começa a deixar o bairro Bom Fim, jogando o início do crepúsculo pela larga janela do lado oeste da sala. De prontidão, todos começam a correr: assim começa o treino. Sob orientação do instrutor, diversos exercícios são passados durante a corrida. Músculos das pernas e dos braços vão despertando, enquanto o sangue corre mais rápido. Iniciantes e veteranos correm na mesma linha, aquecendo em conjunto.

Passo a passo

Com a faixa verde na cintura, Milach ensina os golpes criados por Lichtenfeld décadas atrás, na Bratislava, enquanto o cerco fascista começava a ameaçar os judeus. A preocupação metódica do professor na aplicação dos movimentos vem de outro lado de sua vida profissional: ele é médico ortopedista, cirurgião do Hospital São Lucas, em Porto Alegre. Apaixonado por adrenalina, se alistou na Brigada Paraquedista do Exército, conhecido por abrigar alguns dos mais valentes combatentes da corporação, e ter um nível de exigência quase sobre-humano. Perguntado pelo oficial da junta de serviço militar se era louco ou coisa do tipo, respondeu: “Não, sou voluntário mesmo”, conta rindo. Ele também teve passagens por esportes como o muay-thay, mas abandonou devido aos fatores profissionais. “Não pegava bem chegar de olho roxo no consultório”, conta entre risadas. Em 2011, ele conheceu o Krav Maga e chegou a instrutor em agosto de 2015. Hoje, é um dos 124 instrutores licenciados pela FSAKM (o título de professor é reservado aos faixas preta).

A graduação do Krav Maga é usada para dar eficiência ao método de ensino. O aluno inicia sem faixa, a simbólica faixa branca, onde desenvolve seus reflexos e condiciona os movimentos básicos do combate e permanece por seus seis primeiros meses de treino. Segue para a amarela, onde o iniciado é apresentado aos primeiros ataques de curta distância, aprendendo através da repetição incessante. Após um ano de faixa amarela, pode encarar o teste e ser elevado à faixa laranja, que aprimora seus sentidos e percepção, inserindo aos poucos o combate corpo-a-corpo.

Uma nova fase se inicia na faixa verde, acessada por aqueles que completaram no mínimo 18 meses no grau anterior. Sob a cor verde, o preparo físico se intensifica e o combatente se faz mais ágil e resistente contra as ameaças. Após outros 18 meses, a segunda fase do aprendizado começa, com defesas contra armas de fogo, facas e bastões além de resposta a ataques de múltiplos oponentes sendo ensinadas. A faixa marrom é usada para aprimorar ao extremo os alunos, polindo sua técnica até a faixa preta. A caminhada até a excelência dura anos, e não sempre há novos passos para trilhar. Dentro da faixa preta, existem cinco níveis, chamados de “dan”, ampliando conhecimentos e moldando os professores. Mestre Kobi mostra em sua graduação o nível de integração com a arte: em 2011, recebeu em Israel a graduação de honra de 8º dan, representado por uma faixa vermelha com oito barretas douradas. O presidente da Federação Israelense de Krav Maga, Mestre Haim Zut, leva hoje o título de 10º dan.

O treino é pesado, desde seus primeiros momentos e canaliza a energia do corpo e da mente para movimentos precisos e pensados, focando a coordenação e a defesa. Em uma arte criada para combater a violência, o clima é de paz e amizade no tatame do Krav Maga. A aula, com duração de uma hora, queima até 800 calorias – tanto quanto uma aula de crossfit. No final do treino, novamente os alunos saúdam os retratos, lembrando do passado para construir o futuro de uma arte de defesa que tem o Brasil como um dos principais focos no mundo. Durante os três dias seguintes, fortes dores, causadas pelo sedentarismo, abateram meus músculos. A endorfina liberada foi maior que a dor e a satisfação do exercício me fez confirmar a matrícula. Aqui começa minha jornada.

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