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Desistir jamais, lutar sempre: a trajetória do recordista Daniel Dias

por Marianna Tondolo | marianna.tondolo@gmail.com | edição de Ulisses Miranda | ulisses_mr17@hotmail.com

Daniel Dias nas Paralimpíadas de Londres 2012 (Foto: Marcio Rodrigues/CPB)

Daniel veio ao mundo com apenas 1,970 kg e 41 centímetros, nasceu prematuro com 37 semanas de gestação. Naquela época os pais, Rosana e Paulo, não tinham um plano de saúde que cobrisse tantos gastos e não existia a tecnologia que temos hoje nos exames de gravidez. Por esse motivo a família só foi saber que o menino era deficiente quando ele nasceu, no dia 24 de maio de 1988, na cidade de Campinas, em São Paulo.

A má formação congênita nos membros superiores e na perna direita não impediu Daniel Dias de seguir seus sonhos. O atleta se esforçou muito para chegar onde chegou. Sua infância foi normal, como de toda criança. Seus pais nunca o limitaram, o menino sempre brincou e realizou atividades normalmente desde que entrou na escola aos quatro anos de idade. A mãe, Rosana Dias, conta que um dos momentos mais difíceis da vida da família foi quando Daniel precisou fazer uma cirurgia quando tinha apenas três anos. Era uma cirurgia importante, pois sem ela o menino, tão pequeno, não poderia usar a prótese para, finalmente, aprender a andar. O procedimento foi feito e ele conseguiu superar mais um obstáculo em sua vida: o de poder andar normalmente. A prótese que Daniel usava quando criança era pesada e dura, mas mesmo assim o garoto, que já mostrava ser um grande exemplo desde pequeno, persistiu e tirou de letra esse desafio.

Um de seus grandes sonhos quando criança era andar de bicicleta. Mas como Daniel aprenderia se não tinha as mãos e se na perna direita usava uma prótese? Isso não foi um problema para ele. Superou as expectativas de todos e conseguiu com êxito. A vontade superou o medo. Na escola, era comum que seus pais recebessem ligações da diretora dizendo que Daniel havia “quebrado uma perna”, quando na verdade ele só havia quebrado as próteses que usava. Era um menino muito participativo e esforçado. Praticava basquete, vôlei e futebol, mostrando que sua deficiência não o limitava a nada, muito pelo contrário, só o deixava ainda mais ativo.

Os anos passaram e quando Daniel atingiu seus 16 anos, ao assistir a Paralimpíada de Atenas, em 2004, se deu conta de que queria muito ser um atleta e lutar para que isso acontecesse. Ele imediatamente pensou: “existe esporte para deficiente”. A partir desse pensamento se encorajou para ir atrás do sonho que tanto almejava. Sua maior inspiração foi o atleta paralímpico Clodoaldo Silva, o “tubarão das piscinas”.

Daniel Dias nas Paralimpíadas de Londres 2012 (Buda Mendes/CPB)

Daniel Dias nas Paralimpíadas de Londres 2012 (Foto: Buda Mendes/CPB)

Então foi atrás do que tanto queria: começar a nadar. Já na sua segunda aula de natação, seu professor perguntou a Daniel se ele queria participar de uma equipe que havia na academia. Ele topou e passou a ser o único deficiente presente nos treinos. Isso deu mais força de vontade para que Daniel continuasse a viver seu sonho, pois seus colegas de equipe não queriam perder para ele, e nem ele queria perder para os colegas. Sempre se mostrou uma pessoa determinada a correr atrás de seus objetivos. Tinha em mente o sonho de participar de uma Paralimpíada, e foi exatamente o que aconteceu em 2008, em Pequim.

Com apenas 20 anos de idade, Daniel Dias participou de sua primeira Paralimpíada. Foi na China, em Pequim, que o grande atleta recordista mundial ficou conhecido por brilhar nas piscinas. Deu um show e mostrou que para ele nada é impossível, que é preciso lutar e correr atrás daquilo que quer. Conquistou nove medalhas em sua primeira Paralimpíada, sendo quatro de ouro, quatro de prata e uma de bronze. Foi ali que Daniel fez brilhar os olhos de muita gente que estava nas arquibancadas. Aquele momento estava marcado na vida do atleta, que mal sabia quantas conquistas estariam por vir até os dias de hoje. Nas Parlimpíadas de Londres, em 2012, Daniel mostrou a todos que sua capacidade de conquistar medalhas era infinita. Nesse ano ele garantiu seis medalhas de ouro, subindo ao pódio diversas vezes.

“O país está carente de bons exemplos”

O sonho de Daniel sempre foi representar seu país nas Paralimpíadas. Esse sonho pode ser realizado com mais intensidade no Rio 2016. Nessa edição, o fenômeno das piscinas levou para casa quatro medalhas de ouro, três de prata e duas de bronze. A torcida, sempre muito calorosa, o acolheu e torceu muito por suas vitórias. O sorriso é a marca do atleta. Sempre muito sorridente e receptivo, ele diz que sorrir muda tudo, muda o sentimento e o nosso dia.

A força, a garra, a determinação e o ativismo movem Daniel Dias. Ele é um exemplo a ser seguido. Enfrentou muito preconceito e passou por muitos obstáculos. É uma pessoa especial. E não especial por sua condição física, mas especial de coração. Daniel tem um coração enorme, cheio de amor e otimismo. Está sempre pronto para correr atrás daquilo que deseja. Não para um segundo. É esforçado e cheio de vida. Sua vitalidade é de emocionar, é um ser humano que conquista a todos que estão ao seu redor. É apaixonado pelo que faz, dá tudo de si quando entra na piscina. Ele disputa para vencer, e sabe que sempre vai se destacar.

“A nossa vida é feita de escolhas. Oportunidades todo mundo, pelo menos num momento da vida, vai ter. Eu agarrei, não com mãos que eu não tenho, mas com o que eu tenho eu agarrei a oportunidade que eu tive. Acho que em algum momento da sua vida você vai ter uma oportunidade enorme, a questão é se você vai estar preparado pra ela ou não.”

Casado há quatro anos com Raquel Dias, Daniel é pai de dois filhos pequenos, Asaph, de dois anos, e Danielzinho, de 10 meses. Além de ser o maior nadador paralímpico e recordista mundial, tendo conquistado 24 medalhas em paralimpíadas e mais 14 títulos, seis recordes mundiais e o prêmio Laureus em 2009, o atleta é um pai dedicado e muito amoroso que coloca a família acima de tudo. Apesar dos pesares, Daniel Dias sempre esteve disposto a passar por cima das dificuldades e lutar fortemente por seus objetivos. A frase que ele sempre costuma dizer é: “a vida é simples, nós que complicamos muito ela”. Sempre com o sorriso marcante estampado no rosto, o fenômeno da natação paralímpica espera deixar um grande legado e ser lembrado sempre como um exemplo para aqueles que sonham e não desistem nunca.

FONTES CONSULTADAS:

GISMONDI, Lydia e MARQUES, Fabricio. Daniel Dias Fenômeno Sem Limites. Disponível em: http://app.globoesporte.globo.com/paraolimpiadas/10-curiosidades-sobre-daniel-dias/. Acesso em: 25 out. 2016.

DIAS, Rosana e DIAS, Paulo. A vida de Meu Filho. Disponível em: http://www.danieldias.esp.br/daniel-diasAcesso em: 25 out. 2016.

MARTÍN, María. Daniel Dias eleva-se a herói paralímpico mundial. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/15/deportes/1473970357_549612.html. Acesso em: 25 out. 2016

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