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Do hobby ao pódio: o jiu-jitsu e os desafios de quem luta por espaço

Jean Costa | jean.costa966@hotmail.com - Edição: Leonardo Ambrosio | leonardo.ambrosio@outlook.com

João Pedro (terceiro da direita para esquerda) na academia junto de seus colegas após uma de suas conquistas (Foto: arquivo pessoal).

Por Jean Costa

O jiu-jitsu é uma arte marcial que originou um esporte de combate. Hoje em dia, é uma modalidade espalhada por todos os continentes e é considerada uma das mais disputadas tanto no Brasil quanto no mundo devido ao alto nível técnico exigidos dos competidores.

Há quem diga que a casa do jiu-jitsu é o Brasil. Não deixam de estar enganados, mas a história tem outro lado que nem todo mundo conhece. Tendo raiz japonesa e origem há séculos, sucedendo assim praticamente todas as artes marciais ancestrais, o jiu jitsu não foi originado em terras tupiniquins, mas sim aperfeiçoado. Tanto é que no Brasil o chamamos de jiu-jitsu brasileiro. O esporte tem como golpes de essência as alavancas, torções e pressões para levar um oponente ao chão e dominá-lo. O jiu também é denominado como a “arte suave”, literalmente. Jū, em japonês, significa “suavidade”, “brandura”, e jutsu, “arte”, “técnica”. Daí seu sinônimo literal.

Voltando um pouco na história do esporte, o seu ambiente de desenvolvimento e refinamento foram as escolas de samurais, a casta guerreira do Japão feudal. A sua finalidade? Ser um método de defesa efetivo. Como um samurai poderia acabar sem suas espadas ou armas utilizadas durante uma batalha ou qualquer outro tipo de enfrentamento, o jiu acabou surgindo como essa opção para um confronto sem que precisasse usar o armamento indisponível. Nascia aí a arte que iria evoluir desde então.

No Brasil, especificamente em 1914, chegava Mitsuyo Maeda. Junto de outros professores da escola de Jigoro Kano (responsável pela reforma da modalidade), ele espalhou o esporte pelo mundo ao bater adversários nas mais diversas apresentações. Sua nobre postura o faria ganhar o apelido de Conde Koma. Ele fincaria suas raízes em Belém e mudaria a história do esporte por aqui.

Koma foi quem promoveu o primeiro torneio do esporte no Brasil, em 1915 para apresentar o até então desconhecido para o público. Em 1917, um adolescente chamado Carlos Gracie viu pela primeira vez o japonês em ação. Como o seu pai, Gastão Gracie, era amigo de Maeda, o mestre concordou em ensinar ao filho as artes de defesa pessoal. O resto é história, que pode ser conferida aqui.

O esporte se desenvolveria pelas mãos dos Gracie e se tornaria uma potência pelo mundo e principalmente no Brasil. Ainda assim, enquanto aqui o valor que se dá para o futebol é muito maior quando comparado aos outros esportes, o jiu-jitsu, assim como outras modalidades, enfrenta dificuldades no que diz respeito a patrocínio e incentivo. Sua filosofia em meio as dificuldades que os atletas enfrentam, que vão desde a remuneração até mesmo a distância dos seus familiares, encanta e faz com que alunos – e também os curiosos pela arte – não só se tornem competidores, mas sim parte de uma nova família.

A glória despretensiosa

Em meio às dificuldades encontradas na vida de um atleta, João Pedro Oliveira, 20 anos, encontrou no jiu-jitsu uma nova filosofia para se viver, fazendo do esporte a sua segunda casa. Pedrinho, como é carinhosamente chamado pelos amigos e companheiros, começou a praticar a arte marcial por um motivo curioso: perder peso. João sentia-se incomodado com a sua condição física e também pelo fato de os amigos fazerem piadas com isso. Afinal, por ter uma estatura considerada baixa, 1,69 e pesar 72 kg, aparentava estar acima do peso.

João Pedro então encontrou no esporte um ponto de fuga, um lazer, foi pegando gosto pelo que fazia e se reconhecendo na arte marcial. “Você está sempre aprendendo. A filosofia do jiu-jitsu é diferente e isso me fez permanecer”, diz João. O atleta ganhou uma nova família, e mal podia imaginar que o futuro lhe reservaria glórias no esporte.

João Pedro (terceiro da direita para esquerda) na academia junto de seus colegas após uma de suas conquistas (Foto: arquivo pessoal).

“Eu entrei no Jiu para emagrecer, mas depois descobri que dentro da academia havia uma equipe de competidores e isso me motivou a competir”, afirmou o atleta da VBF Team (equipe formada pelos atletas da academia). Com o foco em perder peso, Pedro viu na equipe de competições uma outra alternativa para a sua vida, e isso o recompensaria mais à frente. João então passou a ter interesse em participar de competições e em meio a uma equipe bastante competitiva, três meses após ingressar nos treinos, já acomodado com sua condição física e tendo perdido 10kg, teria a primeira grande oportunidade de provar seu valor.

Na academia, Pedrinho contava com o apoio de seus companheiros e principalmente do seu mentor na arte marcial, Vagner Bueno. “Ver meu mestre nas lutas dava mais vontade ainda de participar dos campeonatos”, lembra João Pedro, que acompanhava de perto o seu mestre. Incentivado pelo seu professor, sua primeira competição foi a Copa Prime, que ocorreu em São Leopoldo. Nesta, Pedro já dava indícios de que despontaria na arte, conquistando um terceiro lugar já na sua estreia em competições.

A primeira conquista de João Pedro não demoraria a chegar. Se sua estreia em competições já havia sido promissora, o dia 07 de junho de 2015 o reservava a sua primeira glória no esporte. Novamente competindo em São Leopoldo, Pedrinho participava dessa vez da Sakura Cup, onde o garoto que entrava no esporte buscando uma forma de perder peso conquistava algo muito maior e importante do que a condição física ideal. Era o primeiro título, e com ele o início de uma trajetória em que ainda conquistaria outros cinco campeonatos. A segunda conquista veio em 12 de março de 2016, em uma disputa promovida pela Federação de Jiu-Jitsu do Estado do Rio Grande do Sul (FJJ-RS), que ocorreu em Porto Alegre, no Gigantinho.

Coleção de Medalhas de João Pedro (Foto: Arquivo Pessoal)

Pedro voltaria a disputar uma Copa Prime, a qual estreou em competições no tatame, só que dessa vez seria na PUC, e o resultado seria ainda melhor do que na estreia. Era a volta àquela competição e João, diante de uma grande torcida, conquistava seu terceiro título como atleta da arte suave. Ele ainda conquistaria uma Copa Guerreiro, em Porto Alegre; UAEJJF, em Bento Gonçalves; e seu título mais importante até então, que foi a IBJJF, em Curitiba.  

Dificuldades

Mas nem tudo são rosas na vida de um atleta. Pedro lembra as dificuldades que ele e seus demais companheiros de equipe passam para poder competir no Rio Grande do Sul e em outros cantos do país. Segundo João, os sacrifícios que os atletas precisam fazer para competir que vão desde a falta de patrocínio, distância da família, reinvenção no esporte e outros.

O jiu-jitsu faz com que o atleta esteja em constante evolução, e Pedro sentiu isso na pele. “Eu tinha medo de ir mal, me cobrava como qualquer outro atleta se cobra e com isso o foco nos treinos se perdia um pouco”, diz. “Teve muitos campeonatos que perdi, inclusive nas primeiras lutas. O que mais me marcou foi o Brasileiro de Jiu-Jitsu, que eu perdi a primeira luta e depois desse campeonato resolvi focar mais nos treinos e me reinventar”. Devido à expressão do torneio, ainda mais por ser um dos primeiros que Pedrinho disputou fora do estado, a pressão em cima era grande e a falta de foco nos treinos, assim como em qualquer outro esporte, acabou custando para o atleta.

João Pedro posa para fotos após a conquista da Copa Guerreiro, que aconteceu em dezembro de 2016 (Foto: Arquivo Pessoal)

Além da já referida constante reinvenção e manutenção de foco nos treinos, os atletas sofrem com a rotineira falta de patrocínios e devidos investimentos no esporte. O jiu, assim como outras modalidades, sofre com o apagão que o futebol as causa, faltam pessoas e empresas que queiram investir na modalidade e, segundo Pedro, isso é prejudicial. “Geralmente os campeonatos são em finais de semana, então temos que trocar todo o nosso lazer para competir e isso significa que temos de deixar de estar com as pessoas que gostamos. Tem competição por todo o Brasil, então as vezes estamos sempre em viagem e isso afeta muito a rotina diária”, diz. Ainda segundo o atleta, a falta de investimento faz com que viver de jiu-jitsu seja algo quase que improvável no Brasil: “A maioria dos grandes do jiu-jitsu moram nos EUA, porque lá o esporte é devidamente valorizado”. Ele ainda complementa: “Lá tu também tens uma certa visibilidade porque o mundial ocorre na Califórnia, além dos patrocínios serem menos complicados de se conseguir”, afirma.

Ser professor: uma meta que motiva

Hoje, João Pedro espera passar adiante a experiência adquirida pelas medalhas conquistadas e pelo tempo dedicado ao esporte, mas sem deixar de competir. O atleta tem um sonho: ser professor. Há quem entre no esporte considerando migrar para o MMA em busca de dinheiro e afirmação no ramo, mas para João nunca foi essa a verdadeira questão. “Quero continuar competindo no jiu-jitsu, talvez até lutar em alguns mundiais, mas não vou para o MMA, pois pretendo ser professor”. Ele ainda complementa: “Eu quero passar um pouco do que aprendi na arte marcial, tanto dentro como fora do tatame. Quero ter um projeto social também, para tirar as crianças das ruas e dar uma base para elas”. Pedro nos mostra que em as dificuldades que o esporte apresenta o dinheiro não é o que mais importa, mas sim o aprendizado que o jiu-jitsu proporciona.