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Dor, superação e vitória: a trajetória de quem viu no esporte o caminho para não deixar de lutar

por Fernanda La Cruz | nanda_lacruz@hotmail.com

Um sábado em outubro de 2006. Eram nove horas da manhã. Jefferson Hippen (à esquerda na foto, de quimono branco), 23 anos, se preparava para mais um dia de treino – e de comemoração também: mais uma graduação no muay thai. Porém, seu percurso foi interrompido. No caminho até a academia, Jefferson sofreu um acidente de moto. Esse acidente alterou a ordem de todos os sonhos do lutador em início de carreira que, segundo os treinadores, teria um futuro promissor no esporte.

A dor

O choque entre o estrado de uma camionete e o tornozelo direito de Jefferson causou uma fratura exposta que poderia ter resultado em amputação. “Por muito tempo pensei que perderia meu pé”, lembra. A exposição do osso provocou uma osteomielite grave (infecção no tecido ósseo que se espalha pela corrente sanguínea). Em função desse quadro – e pela resistência à amputação -, Jefferson viveu três anos no Hospital de Clínicas de Porto Alegre. “Passei dos 23 aos 26 dentro do hospital: aniversário, Natal, Ano Novo…”, recorda.

Não foi fácil suportar essa rotina. “Por muitas vezes pensei em me jogar de lá. A dor era insuportável, recebia morfina de duas em duas horas”. Foram consultas com médicos em várias cidades, fisioterapia, sessões de câmara hiperbárica e cirurgias – estas, ao todo, somaram 12. Foi somente na última que o ex-lutador encontrou a solução. Em uma operação teste (a segunda tentativa do cirurgião que inovou o tratamento de traumatologia no estado), o osso do tornozelo foi substituído por cimento ósseo e fez com que Jefferson perdesse dez centímetros de altura na perna, privando-o de movimentar o tornozelo e o pé direito.

Ele ainda lembra as palavras ditas pelo médico após a alta da cirurgia. “Ele disse que tinha feito o que podia. Dali para frente era comigo”, conta. Depois de seis anos “parado” e com restrições de movimento, Jefferson procurou a academia em que treinava antes. Teve seu pedido para voltar negado. Todos tinham medo de que ele pudesse se machucar.

A superação

Usando duas muletas como apoio, ele começou a se exercitar sozinho. Jefferson conta que foi difícil começar depois de ter ganho mais de 40 kg por causa da vida sedentária a qual teve que se sujeitar. Praticando exercício físico, voltou a emagrecer. Com o atestado de liberação do médico em mãos, tentou mais uma vez retornar à academia. “Cheguei caminhando melhor. Encontrei o meu antigo treinador e disse: já larguei uma muleta por conta própria. Vocês não vão me ajudar a andar?”, lembra.

Arquivo pessoal/Jefferson Hippen

Mesmo nos piores momentos, Jefferson (de quimono branco à direita) nunca desistiu de lutar

A resposta, desta vez positiva, deu início a uma trajetória de dor, superação e vitória. No centro de treinamento, Jefferson praticava somente musculação. Ele conta que o barulho dos tatames no fundo da academia ainda chamava atenção. Um dia, relembra, “o mestre me chamou para assistir a um treino de jiu-jitsu”. Mas não se tratava só de observação. Peterson Pujol, faixa preta da modalidade, queria trazer de volta o aluno que, um dia, seria promessa no UFC. Depois desse treino, Jefferson só conseguia chorar. Aí, veio a decisão: “Por ser o jiu-jitsu um esporte mais adaptável, que se pratica no chão e não é obrigatório o uso das pernas, decidi que iria me jogar”.

A luta e a vitória

Jefferson aprendeu rápido e viu no esporte uma maneira para se superar. Depois de ver o lutador conquistar dois graus na faixa branca e em apenas um ano e meio subir para a faixa azul, o mesmo mestre o incentivou a se inscrever em um campeonato. A Copa Prime, organizada pela Federação Gaúcha de Jiu-Jitsu (FGJJ) em parceria com a Pro Sports International, já é tradicional no sul do país. Somente em 2014, no entanto, o evento abriu a categoria MAIS, especial para deficientes. Questionado sobre o preconceito, Jefferson confidencia que mais uma vez teve o apoio de seu mestre para suportar: “Ele me fez ver que muitas pessoas, mesmo em plena saúde física, não se atrevem a fazer o que eu faço”. Assim, conquistou respeito.

Aquivo pessoal/Jefferson Hippen

Jefferson com as medalhas conquistadas no jiu-jitsu

Com treinos diários de duas até quatro horas por dia, Jefferson foi campeão da primeira etapa. Orgulho da família, dos amigos de luta e de si mesmo, foi também campeão da segunda etapa, além de medalha de prata na terceira etapa e tricampeão na final de 2014. Em 2015 serão seis etapas. A primeira já aconteceu e Jefferson, novamente, foi campeão.

O futuro no tatame

Agora, o lutador diz não saber ao certo o que o futuro lhe reserva, mas confessa que tem muitos planos: “Quero ajudar a abrir espaço para o nosso jiu-jitsu nos campeonatos internacionais, no Pan-Americano. Quero mostrar que a gente também sabe fazer bonito e quem sabe até um dia ser professor”.

Em uma estrada de dificuldades, com lutas, derrotas e vitórias, Jefferson avalia que o percurso foi bom. “O acidente transformou tudo, a dor é constante e pra vida toda. Mas foi através do que sofri que aprendi a cuidar de mim e a ter respeito pelo próximo”, diz. De acordo com os médicos, a infecção um dia pode voltar, mas ele não tem medo: “O esporte me ensinou que é necessário superar e arriscar. Me trouxe de volta à vida”.

Para Jefferson, as vitórias só acontecem com disciplina e determinação. “Um dia, a minha luta e a luta de todos os deficientes, no tatame e fora dele, serão exemplo de vida”, projeta. Sobre o momento em que encara um novo adversário, o jovem relata que “primeiro vem o medo. Todo jogo adaptado é uma interrogação, não tem como saber o que esperar do oponente”.

Mesmo com pouco incentivo para os paratletas, mesmo com tudo contra, Jefferson afirma: “Ver pessoas gritando o nome de um deficiente, ver a mãe desse cara chorando, faz você sentir que não está morto. Por amor ao esporte, eu vejo sorrisos no rosto e medalhas no peito de quem antes não tinha chance nenhuma. Aí eu vejo que posso também”.

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