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Do vício ao ringue

Maria Lenira Pereira | lenirapereira.pereira10@gmail.com

Ao longo dos anos o esporte tem sido um instrumento de transformação social. Pelo esporte muitos jovens pobres e talentosos saíram do anonimato nas cidades pequenas ou vilas, especialmente no Brasil. Utilizando-se do esporte, ONGS e academias conseguem tirar das ruas jovens em situação de marginalidade. Foi o caso de Vitor Pastoriza, (conhecido como “o maníaco” no mundo das lutas).

A história

Vitor é um lutador de Muay thai e MMA, da equipe Thai Fighters, tem 29 anos, é garçom, filho da dona de casa Maria do Nascimento Ramos (Mariazinha) e encontrou no esporte o ânimo para emergir do poço escuro das drogas.

Ele foi criado por Mariazinha com muitas dificuldades financeiras, no bairro Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre.  “Hoje existe boca de fumo ao lado da minha casa’’, aponta Vitor. O atleta, aos 13 anos, teve contato com a maconha. Nesse mesmo ambiente convivia com tios e primos que tinham envolvimento com o tráfico e o incentivavam a brigar, treinando lutas no campo em frente à casa. Teve dois primos assassinados e um tio que ficou tetraplégico e que, mais tarde, veio a falecer. Perdas que marcaram de modo profundo sua vida.

Muito jovem, Vitor afundava-se cada vez mais nas drogas, causando sofrimento à mãe – que chegou ao último grau da depressão. Concluiu que estava num caminho sem volta, adquiriu várias moléstias, incluindo doença pulmonar, no período em que se drogava, ficando à beira da morte.

“É complicado explicar como entrei nesse mundo de marginalidade, foi tudo por curiosidade, pela minha idade. Só sei que quando fui ver já era tarde”, lembra Vitor.

Quando não havia mais esperança, um amigo o levou à academia do professor Doriva Modelski. O profissional que o acolheu tornou-se mais do que um professor. Virou uma espécie de irmão mais velho, ou, pai. O professor passou a lhe ensinar as técnicas do Muay Thai e a incutir valores como respeito pelos colegas e por si mesmo, disciplina, dedicação, responsabilidade, caridade e amor ao próximo. Virtudes que o fortaleceram para abandonar as drogas.

A mudança

Hoje, Vitor é um trabalhador responsável. Em dezembro de 2015, recebeu a feliz notícia de que era pai de um menino com 6 anos de idade. Imbuído dos valores que aprendera, ele sequer exigiu exame de DNA: assumiu a criança e a registrou. Ainda não residem juntos. Mesmo assim, o atleta procura participar de forma ativa na vida do menino.

Vitor já ganhou muitas lutas de Muay Thai e MMA, a maioria por nocaute técnico. Mas, a luta mais importante que venceu foi contra as drogas. O esporte foi a sustentação para uma verdadeira mudança de caráter. Foi também com amor materno e amizade de seu professor que conseguiu superar o vício. A mãe, que muito sofreu, apesar de ainda viver uma vida humilde está feliz pela transformação do filho e por vê-lo como um pai dedicado, que servirá de exemplo ao seu neto.

“Foi o amor dela que me deu forças para sair das drogas. Ela nunca desistiu de mim”, reconhece Vitor.

A psicologia explica a mudança de Vitor Pastoriza

A mudança na vida de Vitor encontra explicação na psicologia, uma ciência que estuda o comportamento, os processos mentais e a relação entre eles. O psicólogo Jair Brollo, esclarece que uma das intervenções mais produtivas é a prática esportiva. O esporte abre as portas para inseguranças, medos, ansiedades, estresses, agressões humanas e somatizações. Traz equilíbrio, tanto físico quanto mental, maior percepção do corpo e da mente.

“Os resultados são muitos, como aumento da concentração durante jogos, diminuição do estresse, automatização de cuidados básicos, velocidade de raciocínio para melhores respostas durante o jogo e melhora de relação do indivíduo com ele mesmo, com os seus semelhantes e com o mundo em que vive”, explica o psicólogo.


Na entrevista abaixo, o psicólogo Jair Brollo responde algumas questões relacionadas aos benefícios do esporte.

UniRitter Esporte: O que acontece na mente dessa pessoa que troca o vício pelo esporte?
Jair Brollo: Em psicanálise a sublimação é um alívio da pulsão. Contém a agressividade. A pessoa que tem um comportamento agressivo e é dependente de alguma substância nociva, geralmente, chegou a este ponto por ter dificuldades de manter o equilíbrio emocional diante dos desafios que a vida lhe trouxe.

UE: Como o esporte pode atuar nesse processo de mudança?
Brollo: Quando motivada por uma situação específica ela pensa em mudar. Uma das maneiras de realizarmos um processo de mudança é colocarmos algo novo em nossa rotina de vida como forma de substituir o comportamento que desejamos mudar. O esporte é uma das possibilidades.

UE: Que modificações internas ocorrem?
Brollo:Uma vez que o esporte traz o equilíbrio, tanto físico quanto mental, maior percepção do corpo e da mente, a pessoa que experimenta as novas sensações em detrimento das anteriores, passa a sentir-se mais animada, com mais energia e vitalidade e, por isto, se mantém motivada a manter a rotina.

UE: A aceitação nesse novo meio influi nesse processo?
Brollo: Como este novo comportamento gera mais aceitação e admiração das outras pessoas, principalmente das que exercem função afetiva, isto gera um reforço positivo para transformar a vida.


Vídeo com depoimentos de amigos e familiares do atleta:

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