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Longe de casa, meninos sonham com uma carreira no futebol

Vanessa Cutruneo | Tamires Alves | Rafaela Barboza | Pâmela Matias | edição de Ulisses Miranda

Ser um jogador de futebol profissional, ganhar um bom dinheiro e ser reconhecido no mundo todo é um sonho que atrai a maioria dos jovens. Neymar é um exemplo de garoto que começou cedo a seguir seu sonho e hoje está em um time que muitos meninos almejam, o Barcelona, da Espanha.

Mas começar cedo requer superar diversos obstáculos e enfrentar desafios que podem ser marcantes para garotos com pouca idade. O principal deles é ficar longe da família, já que muitos jovens saem de suas cidades natais para jogar nas categorias de base dos clubes para, assim, crescer dentro da profissão.

Mesmo que os meninos sejam bons de bola, não é fácil chegar a ser ídolo de algum time. Os jovens têm de passar por peneiras rigorosas para jogar em clubes grandes. Depois disso, eles passam por treinamentos diários, que incluem o preparo físico e psicológico, lapidando-os para serem futuros craques.

O processo todo pode levar anos até que o menino seja reconhecido e chamado para jogar em um grande clube. Mesmo assim, eles não desistem e enfrentam qualquer dificuldade para alcançar sua meta.

Leonardo sonha em jogar na Europa para ajudar a família (Foto: UniRitterEsporte)

Leonardo é centroavante da categoria de base sub-15 do Esporte Clube São José, da Zona Norte de Porto Alegre. O menino nascido em Santa Cruz do Sul, interior do Rio Grande do Sul, está desde outubro de 2015 no clube e, assim como a maioria, sonha em jogar em um grande time da Europa. Obstinado, o centroavante quer se tornar profissional para ajudar a família e se destacar pelo talento e trabalho desenvolvido desde os 10 anos de idade. “Comecei a jogar quando criança e o futebol é tudo pra mim”, afirma o garoto.

O menino vem de família grande, com duas irmãs e dois irmãos, e ambos fazem faculdade. Leonardo é o único que segue o sonho do pai. Quando perguntado sobre o que significa o esporte em sua vida, Leonardo é enfático. “Futebol pra mim é tudo. Inclusive eu treino durante a tarde e quando chego em casa, treino mais ainda. Eu levo muito a sério a profissão”.

Leonardo conta que nunca fez peneira para entrar nos times. Ele começou a se destacar no clube de Santa Cruz do Sul e, como consequência, equipes maiores o convidaram para fazer testes. “O primeiro clube que me chamou foi o Grêmio, mas não consegui passar no teste. O segundo foi o Inter. Aconteceram alguns problemas e também não consegui passar”, diz o jogador em tom de descontentamento.

Segundo Leonardo, seu pai sempre o incentivou a jogar futebol. Além de também ter jogado por um tempo, ele costumava levar o filho aos jogos. O jovem recebe apoio de toda a família. “Meu pai me dá tudo que eu preciso. Não moro com a minha mãe, mas tem a minha madrasta que me ajuda bastante também. Teve até uma vez que chorei de saudade do meu pai, mas a gente acostuma”, conta o menino.

Um baiano no inverno gaúcho
Mateus da Silva é um menino tímido. No olhar, carrega a saudade da família que ficou na Bahia e o sonho de um dia ser um ídolo. Ele veio para Porto Alegre em 2015, após ser dispensado do Figueirense, de Santa Catarina. Com apenas 15 anos, o jovem já passou por diversas peneiras. “Comecei com 10 anos. Passei no Bahia, fiquei três anos lá, depois fui para o Cruzeiro (de Minas Gerais). Fiz a avaliação e não passei. Em seguida fui para o Figueirense e fui dispensado em 2015”, conta o menino.

Mateus é goleiro do time A, da categoria sub-15 do São José (Foto: UniRitterEsporte)

A saudade da família é algo que costuma estar sempre presente no cotidiano desses meninos que tentam a vida como jogador de futebol em outras cidades. Assim como Leonardo, Mateus também mora longe da família. Ele viaja para a Bahia duas vezes por ano – durante as férias -, para visitar seus pais e seu irmão, de um ano e sete meses. Mesmo conversando todos os dias com os eles, o menino diz que a saudade é muito grande.

No São José, o goleiro joga há dois meses pela categoria de base. Para ele, o time abrirá muitas portas para seu futuro profissional. “O São José é um time muito formador e eu acho que vai me ajudar muito”, afirma o menino, emocionado. Ele espera que o São José o ajude a chegar a grandes times, como o Barcelona.

O apoio dos parentes se fez fundamental para que Mateus viesse para Porto Alegre em busca de seu sonho e se mantivesse focado em seu principal objetivo: ajudar a família.

Durante o aquecimento, o técnico de Mateus pergunta se ele já se acostumou com o frio. Ele acena com a cabeça, com um sinal negativo. Então, o técnico fala que mesmo com o frio que faz em Porto Alegre, Mateus ainda anda de chinelo de dedo em pleno inverno gaúcho.

Na visão de uma especialista

Assim como Leonardo e Mateus, inúmeros meninos deixam suas famílias na tentativa de se tornar um destaque no meio futebolístico. Mas como meninos tão jovens devem lidar com as possíveis frustrações?

Segundo a psicóloga Luciana Verdi, o apoio da família é fundamental, bem como da equipe técnica. Ela esclarece que a forma como eles vão lidar com frustrações vai de acordo com a personalidade do adolescente, porém o entorno é crucial. “O importante é ter o apoio da família, da equipe técnica e do grupo. Todos eles precisam se acolher. Vai depender disso para os adolescentes terem sucesso de acomodar essas coisas dentro deles”, explica a profissional, que também conta que, com este suporte, eles se tornam mais tolerantes às frustrações.

Acompanhamento psicológico

A pressão de ser um jogador profissional pode ser intensa para estes meninos. Por isso, é bom haver um acompanhamento com psicólogos. Leonardo diz que sempre quando precisam de qualquer tipo de ajuda psicológica os profissionais são chamados. “Eu tenho muita motivação dos meus pais, também leio bastante a Bíblia”, contou o atleta, questionado sobre como ele lida com esta pressão.

Sobre as expectativas que tinha antes de vir para Porto Alegre, Leonardo diz, aos risos, que pensou que seria mais fácil. “Achei que não teria tanta dificuldade assim, nem sentir tanta saudade da minha família. Mas é bem difícil”, afirma.

O técnico e amigo do time

O técnico dá instruções ao grupo de jovens jogadores do São José (Foto: UniRitterEsporte)

Jorge Mendonça é técnico desde 2012, treinador do time B do sub-15 do São José, e formado em Educação Física pelo IPA. Entrou na profissão, pois igual a todos os meninos, também tinha o sonho de ser jogador de futebol. Como não conseguiu, buscou se formar em uma área em que poderia atuar com o esporte.

“Sempre gostei de assistir esportes, talvez por isso não tenha me frustrado tanto por ter saído do futebol, até porque me sentia bem, quando comecei na natação. Lógico que houve um pouco de desinteresse meu, mas, naquele momento, optei por trocar”, conta.

Mendonça procura sempre levar histórias da época em que jogava. Muitas vezes convida ex-atletas que trabalharam com ele, já que muitos também não conseguiram atingir o objetivo de ser jogador. “Hoje, muitos ex-jogadores cursam educação física e passam para os meninos as experiências de vida deles, ensinando que, caso o atleta não consiga virar profissional, isso não pode ser tratado como o fim do mundo, pois existem diversas outras maneiras de seguir no esporte”, diz o técnico.

Hoje o técnico é visto pelos garotos como um amigo que eles podem contar e confiar. Nas horas em que precisam, procuram Mendonça para conversar.

Quais motivos levam a dispensa de um jogador?

Quando há o desligamento dos atletas do clube, muitas vezes, ele se dá não só pela questão técnica, mas também pela estrutura familiar, envolvimento com certas companhias e, principalmente, do psicológico do atleta e atitudes extracampo. Além de conversar com a equipe, o atleta é liberado para resolver os assuntos pessoais.
Na seleção de novos atletas é feita uma análise técnica do jovem. Algumas vezes eles são acompanhados desde outros clubes, de enfrentamentos, e são analisadas também na parte cognitiva, a maturação e a sua estrutura física.

O treinamento dos atletas tem um sistema: primeiro, é feita uma pré-temporada na qual é analisado o peso, altura, percentual de gordura, circunferências e diâmetros do corpo de cada jogador. A partir disso, é elaborado um trabalho físico, específico para cada jovem. Logo após, é elaborado um microciclo de treinamentos, geralmente de segunda a sábado, para saber o que trabalharão durante a semana.

A rotina dos atletas

O São José dá todo o apoio para manter estes jovens em campo. O clube disponibiliza um alojamento, com direito a alimentação e todo o restante necessário para eles. Os meninos estudam pela manhã e quando chegam ao clube, ganham almoço. “O clube dá tudo, é como se fosse uma casa normal. Não nos falta nada”, conta Leonardo.
Já Matheus mora em uma pensão mantida pelo clube. Dentro desta pensão os meninos recebem alimentação e uma ajuda de custo para se manter. O garoto conta que é como se fosse uma grande família. Todos os meninos são amigos e uns apoiam os outros tornando, assim, mais fácil superar qualquer dificuldade.

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