ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Racismo no Brasil e o caso Aranha

Elias Costa | jocelias78@hotmail.com | edição de Ulisses Miranda | ulisses_mr17@hotmail.com

O jogo entre Grêmio e Santos, realizado em 28 de agosto de 2014, segue marcado na vida do goleiro Aranha, que hoje defende a Ponte Preta, na Série A do Brasileirão. A partida também marcou a vida de Patrícia Moreira, que foi flagrada por uma câmera do canal ESPN chamando o goleiro de “macaco”. O UniRitter Esporte conversou com os envolvidos no caso, 22 meses após a partida que mudou suas vidas.

O futebol brasileiro, no início do século, era um esporte elitista. Aos poucos foi conquistando espaço nas comunidades mais carentes, dominadas por negros que moravam nas periferias dos grandes centros do país. Nos anos 20, o Vasco da Gama conquistou o campeonato carioca contando com atletas negros, operários e suburbanos. Essa atitude revolucionou o futebol do Rio de Janeiro e transformou a mentalidade dos clubes do país.

Afonso Arinos, autor da primeira lei contra o racismo no Brasil (Foto: Arquivo/O Globo)

No Brasil, a primeira lei para combater o racismo foi criada em 1951 pelo deputado federal Afonso Arinos de Melo Franco. Em 1989 o jornalista e advogado Carlos Alberto Caó Oliveira dos Santos, em seu mandato como deputado federal, instituiu a lei 7.716/89, que determinava a igualdade racial e o crime de intolerância religiosa. Quem cometer o ato de racismo pode ser condenado de dois a cinco anos de prisão, sendo um crime inafiançável e imprescritível. Em 1997, foi a vez do então deputado Paulo Paim (PT-RS), ampliar o alcance da lei antirracismo, incluindo entre as práticas passíveis de punição o xingamento e a ofensa baseados em origem e cor de pele. Pelo Código Brasileiro de Justiça Desportiva, o atleta que comete o ato de racismo ou qualquer tipo de preconceito pode ter a punição de cinco a dez jogos ou até mesmo 120 a 360 dias de suspensão, além de multa no valor de R$ 100,00 a R$ 100.000,00. O clube poderá perder pontos na competição que está disputando caso a injúria seja cometida por torcedores.

Patrícia Moreira foi flagrada por uma câmera da ESPN (Foto: Reprodução/ESPN)

Foi o caso do Grêmio, eliminado nas oitavas-de-final Copa do Brasil de 2014 porque uma torcedora – Patricia Moreira -, foi flagrada por uma câmera do canal ESPN chamando o goleiro Aranha de “macaco”. O jogo foi disputado na casa do tricolor, em Porto Alegre. O time paulista vencia por dois a zero até que, na segunda metade da etapa final, o goleiro Aranha foi reclamar para o árbitro Wilton Pereira Sampaio que estava sofrendo ofensas racistas. O episódio causou uma grande discussão no país inteiro, principalmente no Rio Grande do Sul, onde costumeiramente o torcedor gremista chama o colorado de “macaco”. Quase dois anos depois do caso, os personagens principais não gostam de falar muito no assunto.

A vítima

Mário Lúcio Duarte da Costa, mais conhecido como Aranha, começou a carreira profissional na Ponte Preta, mas ganhou o apelido do seu treinador Aílton Custódio, quando treinava em uma escolinha em Pouso Alegre, Minas Gerais. Depois de jogar no clube de Campinas, Aranha atuou no Atlético Mineiro, Santos e Palmeiras. Após seis meses longe dos gramados, acertou até o final do ano com o Joinville, em meados de junho, para disputar a Série B. Contudo, depois de apenas dois meses no JEC, voltou para seu primeiro clube, a Ponte Preta.

Goleiro Aranha iniciou a carreira na Ponte Preta e desde agosto está de volta ao clube de Campinas

Aranha jogou no Santos até o final de 2014, quando decidiu rescindir o contrato com o clube e entrar na justiça cobrando salários atrasados. A saída do atleta foi muito difícil. O jogador conseguiu a liberação para atuar no Palmeiras somente em fevereiro de 2015. Antes do acerto, o goleiro novamente sofreu injúrias raciais, desta vez pelas redes sociais. Os torcedores santistas utilizaram a internet para demonstrar, com xingamentos, que não gostaram da atitude do atleta com o clube. No Palmeiras foi reserva de Fernando Prass e conquistou a Copa do Brasil, vencendo o seu ex-time na final. Mesmo assim, o clube não renovou o contrato com o goleiro. Aranha admite que o caso de 2014 prejudicou a sua carreira:

– Depois daquele fato o goleiro acabou ficando em segundo lugar para as pessoas. Toda aquela história e meu posicionamento diante de tudo fizeram com que as pessoas de certa forma olhassem mais para o ser humano do que para o goleiro. Então, de certa forma, acabou me prejudicando. Mas não me arrependo de nada – afirma Aranha.

Mesmo com o fato ocorrido no estádio do Grêmio, Aranha não guarda mágoa do clube gaúcho.

– Muitas vezes pagamos pela falta de informação ou pela falta de interesse em saber que lugar estamos indo e qual a cultura e os tipos de problemas que acontecem neste lugar. Talvez vocês não tenham reparado que quase não se vê negros na arquibancada em jogo do Grêmio. Mas o fato é que o Grêmio não tem culpa, o clube é gigante e merece todo o respeito pela sua história. O problema são algumas pessoas que frequentam e mancham o nome do clube e de boa parte da torcida. Tenho amigos gremistas e são pessoas de bem. Nós, como negros, sabemos muito pouco da nossa história e do valor de tudo que nossos antepassados conquistaram para que tivéssemos uma vida digna hoje – declara Aranha.

Antes de sofrer injúrias em 2014, Aranha passou por uma situação muito incômoda quando atuava pela Ponte Preta. Em 23 de novembro de 2005, após ter deixado um amigo no hospital da PUC, o goleiro foi abordado e agredido por policiais militares na cidade de Campinas – que o confundiram com um assaltante procurado. Mesmo tendo se identificado como jogador da Ponte Preta, Aranha foi conduzido a um distrito policial. Após a intervenção dos advogados do clube, ele foi solto e realizou queixa por agressão contra os policiais que pediram desculpas ao atleta.

– A escravidão no Brasil ainda tem mais tempo do que abolição, ainda sofremos reflexos. No princípio todos os clubes eram racistas, o futebol era um esporte praticado somente por brancos. Então o grande lance é que alguns clubes lutaram e quebraram isso primeiro ou há mais tempo que outros – afirma Aranha.

A ré

A vida de Patrícia Moreira mudou após o dia 28 de agosto de 2014. Ela assistia à partida na Arena com amigos e foi flagrada pelas câmeras da ESPN gritando e chamando o goleiro Aranha de “macaco”. Com a repercussão do caso a moça ganhou notoriedade aparecendo em muitas redes de televisão para fazer a sua defesa, mas foi processada por injúria racial, perdeu o emprego no Centro Médico e Odontológico da Brigada Militar e teve sua casa incendiada na zona norte da capital gaúcha. Patrícia Moreira não usa mais as redes sociais e segundo o advogado que a defendeu, Alexandre Rossato, ela não quer mais falar sobre o caso.

– Tenho encontrado com a Patrícia. A mesma encontra-se tentando refazer sua vida, e ainda hoje sofre consequencias do caso que se envolveu. Tem recepções positivas e negativas, permanece em acompanhamento psiquiátrico e a família não deixa sozinha, pois tem crises de síndrome do pânico – declarou o advogado.

Além de Patrícia, Éder Braga, Fernando Ascal e Ricardo Rychter foram processados pelas injúrias ao goleiro Aranha. Em novembro de 2014, o processo foi suspenso de forma condicional, orientando os envolvidos a se apresentarem a uma delegacia de polícia uma hora antes de cada partida do Grêmio. O advogado Alexandre Rossato afirma que a suspensão condicional já foi cumprida.

A luta contra o preconceito

O que aconteceu com o goleiro Aranha e com outros atletas que atuam em grandes clubes chamaram a atenção da grande mídia. Mas o preconceito racial acontece também na periferia do futebol. Com o objetivo de divulgar e acompanhar os casos de racismo no país foi criada, em maio de 2014, a ONG Observatório de Discriminação Racial no Futebol. O diretor-executivo, Marcelo Carvalho, destaca a importância do movimento para combater ao racismo.

– Toda vez que acontecesse o caso de racismo nós ficamos sabemos de muitos fatos, mas não os desdobramentos deles. Resolvi criar o Observatório para compartilhar todos os casos de discriminação não só com pessoas famosas, mas sim com pessoas que sofrem discriminação no dia-a-dia muitas vezes não divulgada pela grande mídia. No relatório de 2014 nós conseguimos atenção da mídia e das pessoas que tratam do futebol, participamos de eventos que tratam das questões do esporte para discutir a questão do racismo nos estádios – falou Marcelo.

Ele destaca a importância da manifestação do goleiro Aranha e que muitas vezes os papéis são invertidos na sociedade, principalmente em casos de preconceito.

– A vítima se transforma em agressor. No momento que ele (goleiro Aranha) falou, a sociedade o ouviu até um certo ponto. A participação dos clubes é o seguinte: eles querem que os atletas joguem e não discutam as questões da sociedade. Para os clubes os jogadores têm que ficar mudos e cumprir as regras impostas pelos dirigentes – declara Marcelo.

Como o caso aconteceu no Rio Grande do Sul, Marcelo alega que as discussões sobre racismo no Estado tiveram outro caminho.

– No Rio Grande do Sul temos discussões de alguns termos. No mundo inteiro chamar o negro de “macaco” é racismo, aqui nós discutimos se é racismo ou se faz parte do folclore. Não sei dizer se é uma questão cultural ou se faz parte da rivalidade Gre-Nal. Não sei qual foi à origem dos gremistas chamando os colorados de macaco. Infelizmente, nós vemos radialistas usando a força da mídia para defender a ideia de que ofender uma pessoa pela cor não é racismo – afirma Marcelo.

Marcelo fala do preconceito dentro da própria etnia.

– O negro é uma vítima do sistema. Ao longo da história nós vemos o negro capataz que discriminava outras pessoas da sua raça. O sistema introduziu muito bem isso na cabeça das pessoas. Até mesmo as pessoas que são negras, mas com a cor mais clara, não aceitam sua raça. Então, isso faz parte do sistema e o negro está incluído nesse processo – exemplificou Marcelo.

Marcelo Carvalho pede ações mais contundentes (Foto: Paulo Fernandes/Vasco)

Os gritos de “macaco”, ocorrido pelos torcedores gremistas naquele fatídico 24 de agosto de 2014, ecoam até hoje na mente do goleiro Aranha e da jovem Patrícia Moreira, principais personagens desta história sobre racismo. O fato ocorrido não serviu para uma reflexão de como devemos acabar com o racismo no país, pois o número de insultos raciais aumentam cada vez mais e a luta para que os gritos nos estádios sejam somente de gol, não pode parar.

Deixe um comentário