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Fernanda Garay: a referência do vôlei feminino gaúcho

por Alice Fortes | fortesalice@yahoo.com.br | edição de Ulisses Miranda | ulisses_mr17@hotmail.com

A gaúcha Fernanda Garay Rodrigues, na condição de mais velha entre cinco irmãos, sempre foi a “menina da mamãe” entre os guris na casa da dona Jussara. Nascida em 10 de maio de 1986 e moradora do bairro Jardim Ypu, Zona Leste de Porto Alegre, Fernanda sempre demonstrou muita responsabilidade. A última palavra sempre era dela na hora de cuidar dos irmãos mais novos enquanto os pais trabalhavam. O espírito independente ficava claro quando juntava a brincadeira de guria e o jeito proativo tentando vender sacolé na Rua Mãe Apolinária.

O esporte sempre esteve presente na família. Veio dos pais Luis Fernando, jogador de basquete no Grêmio Náutico União (GNU), e da mãe, Jussara, jogadora de vôlei na infância e praticante da corrida de rua até hoje, a influência desse modo de vida atleta. Entre Heleno, Adonis, Adriano e Isabella, a filha mais nova, estava ela, a futura integrante da seleção feminina de vôlei, mundialmente conhecida como Fernanda Garay, ou apenas Fê Garay.

O início no voleibol foi na Sogipa, em 1997, cedendo à insistência dos pais. No ano seguinte, após aceitar o convite do técnico Osmar Pohl, Fernanda teve o contato com a primeira equipe de competições do clube, sendo chamada rapidamente para integrar a posição de centro de rede do time. Apesar da pouca idade começava a surgir confiança em cada salto, e as medalhas no peito da gaúcha se tornavam cada vez mais numerosas. Aos 14 anos ela media 1,81m e, mesmo estando no time infantil, participava de jogos com a seleção Gaúcha Juvenil. A carreira ia deslanchando e os convites de integrar equipes fora do Estado chegavam com a mesma intensidade. Nesse período da juventude Fernanda sofreu com a separação dos pais, tendo que adiar os planos de jogar em outras cidades. Naquele momento a família pedia ajuda e união, mas o sonho, aquele que ficou no coração, permanecia intacto.

A presença do técnico Osmar Pohl foi essencial para a recuperação da alegria e confiança da Fernanda filha e da Fernanda jogadora. Em 2001, a dona da camisa 16 da seleção ouviu o conselho que norteou sua carreira. O técnico Marco Aurélio Motta, que observava a jogadora durante os treinos da seleção infanto-juvenil, disse que ela era baixinha demais para ser a central do time e a posição de ponteira era a mais adequada para ela.

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Camisa 16 da seleção (Foto: Reprodução/Instagram)

Assim como em outros esportes, o voleibol requer muita persistência e uma vida muito equilibrada mental e fisicamente. A mudança é muito rápida, seja de um time para outro, entre cidades e países, e também em nível de jogo. A menina de Porto Alegre acabou conquistando aos poucos uma maturidade e condicionamento físico que fizeram dela uma referência de jogadora que desenvolve com êxito vários fundamentos do vôlei como passe, saque e ataque.

Sabendo aproveitar as oportunidades, Fernanda sempre respondeu bem às novas mudanças. Desde o primeiro título com destaque no Sul Americano infanto-juvenil, onde foi nomeada a melhor jogadora da competição, o rumo de vitórias e campeonatos vencidos é uma constante na carreira da jogadora.

A transição de clubes ao longo da carreira de um atleta de vôlei é bem comum e com Fernanda não foi diferente. A partir de 2002, quando a carreira profissional ganhou um patamar diferente, tudo progrediu em benefício dela. Contratada para jogar pelo time paulista São Caetano, onde ganhou grandes oportunidades de conhecimento técnico e cultural, teve que se adequar a mais um desafio, a distância da família.

No ano de 2004 Fê Garay teve a oportunidade de jogar sua primeira Superliga, a principal competição do país, representando o Minas Tênis Clube e adquirindo mais uma vez experiência em grandes competições. Em 2006 surgiu o convite para atuar pela primeira vez com a seleção adulta, conquistando a Copa Pan-Americana em Porto Rico. Encerrando sua quarta temporada pelo Minas TC, ela decidiu aceitar o convite do Clube Pinheiros e voltou para São Paulo em 2009, conquistando no mesmo ano com a seleção brasileira mais um título importante, o Final Four. Participou dos Jogos Mundiais Militares como sargento, conquistou o título em 2010 contra os Estados Unidos. Eleita a melhor jogadora da competição, deixou seu pai Luiz Fernando, ex-jogador da seleção militar de basquete, com muito orgulho. No ano seguinte repetiu o feito ganhando o ouro no Mundial Militar do Rio de Janeiro.

A oportunidade de defender um clube estrangeiro chegou no mesmo ano. O NEC, do Japão, fechou contrato com Fê Garay pouco antes da tragédia com o terremoto e tsunami que devastaram o País naquele ano. O campeonato que estava sendo disputado teve que ser cancelado, pois o risco nuclear naquele momento era grande e novamente se superar era necessário. O Pan de Guadalajara foi importante para Fernanda “mostrar serviço”, conquistando cada vez mais a confiança da equipe técnica da seleção. No mesmo ano integrou a nova aposta do voleibol nacional, a equipe do Vôlei Futuro, que tinha como objetivo misturar jogadoras conhecidas e experientes com grandes apostas da base. O projeto não deu certo. O investimento não foi o suficiente, deixando na época várias atletas desempregadas.

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Fernanda na chegada a Porto Alegre após a conquista do ouro nos Jogos Olímpicos de Londres (Foto: Divulgação)

O ano da concretização do sonho foi em 2012. Seu nome estava confirmado na lista de jogadoras escolhidas pelo técnico José Roberto Guimarães que iriam jogar pela seleção nos Jogos Olímpicos de Londres. Eleita a melhor passadora da competição, fez o último ponto da final. Fernanda trouxe o ouro para casa deixando ali seu nome na história da seleção. A consagração da camisa 16 da seleção foi moldada com alegria e grande união do grupo campeão. O título, que obteve repercussão no Rio Grande do Sul de forma incomum, tinha um nome: Fernanda Garay. A primeira gaúcha do vôlei feminino a trazer o ouro para o Estado. A festa teve direito a caminhão de bombeiros e muitos aplausos.

Os próximos anos seriam de extrema importância para Fernanda Garay. No clube Sollys Osasco, tradicional time brasileiro e paulista, ela se destacou na competição, conquistando a torcida com eficiência em ataques e defesas. Foi eleita a melhor jogadora da Superliga naquele ano quebrando o recorde com 36 pontos em uma só partida na competição.

Os anos de 2013 e 2014 foram importantes para se consolidar como um nome forte na Europa. Contratada pelo Fenerbahçe, da Turquia, aproveitou as oportunidades dentro e fora de quadra absorvendo todo o clima do país. Em 2014 aceitou a proposta do time russo, Dinamo Krasnodar, conquistando a Copa da Rússia que desde 1994 não era vencida pela equipe.

Depois de Londres em 2012, o ano mais esperado era 2016 com os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. A busca pelo tricampeonato olímpico iniciou-se de forma concentrada e apesar das vitórias convincentes a seleção foi eliminada pela China, que acabou conquistando a medalha de ouro. Após os Jogos Olímpicos, Fê Garay foi citada como um dos principais nomes confirmados para as Olimpíadas de Tóquio 2020 e, em 2017, irá jogar pelo time Guangdong Evergrande VC, da China.

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Vibração ao marcar ponto pela seleção (Foto: Reprodução/Facebook)

Incluída com sete pontos no ranking da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), Fernanda tem, de acordo com a lista, o nível máximo entre as jogadoras da seleção. Entre os anos de 2011 e 2013 obteve 11 prêmios de melhor jogadora em fundamentos como ataque, passe, saque, melhor ponteira nas principais competições nacionais e internacionais. Desde o início de sua carreira obteve prêmios individuais em quase todas competições que participou. Apesar da falta de patrocínio e incentivo, clubes com pouca estrutura e nível técnico crescente de jogadoras de grandes clubes, ela se mantém em alto rendimento. Nos últimos cinco anos conquistou 11 ouros em 17 competições.

O vôlei pode ser um esporte coletivo, mas falando de voleibol feminino, o Rio Grande do Sul nunca foi representado por uma atleta com tanto destaque individual capaz de deixar seu nome registrado na história do esporte brasileiro. A cada atuação de Fê Garay espera-se um ponto decisivo e uma comemoração empolgante.

FONTE CONSULTADA:

FERNANDA GARAY. Site Oficial. Disponível em: http://fegaray.com.br/pt-br/sobre.

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