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Gabriela Cecchini, o sorriso de esperança da esgrima gaúcha

Ana Paula Silva e Bruna Padilha|anapsilva.comuni@gmail.com e brunaa.jornalismo@gmail.com

Era uma vez uma menina de dez anos de idade, que em uma tarde de verão, quase sem querer, conheceu a esgrima. Desse dia em diante, nunca mais a esgrima saiu da vida da menina – e a menina da vida na esgrima. Passados oito anos, a gaúcha Gabriela Cecchini desabrochou e transformou-se na segunda maior medalhista brasileira de esgrima em mundiais com a conquista do bronze em 2013, no Mundial cadete. Campeã pan e sul-americana no florete, hoje ela ocupa o primeiro lugar no ranking nacional juvenil e o terceiro no ranking nacional absoluto.

Reprodução

Gabriela conquistou a medalha de bronze no Mundial de 2013

UniRitter Esporte acompanhou um dos treinos de Gabriela no Grêmio Náutico União. Enquanto a equipe de reportagem aguardava pela atleta, uma cena chamou a atenção: na pista próxima ao banco em que estávamos sentadas, o esgrimista Andrei Sandri, 19 anos, treinava concentrado. Compassadamente adiantava passos para frente e no mesmo ritmo retornava para trás. Com um dos braços curvados junto ao corpo e o outro erguido, gesticulando no ar – como um maestro que rege uma orquestra – ele repetiu os gestos por uma sequência de minutos.

Mais tarde, o atleta que pratica esgrima há 11 anos disse que estava ensaiando as notas. “Cada um tem sua melodia na esgrima, sua força e sua velocidade. Então cada um joga com as notas que melhor sabe tocar. Alguns jogos pedem que você seja mais rápido, outros, mais técnico. Cada jogo é uma música diferente”, explicou Andrei.

Não demorou muito para Gabriela chegar de mochila nas costas e guarda-chuva na mão. Não seria a tormenta da noite daquela quarta-feira que a impediria de comparecer ao treino. “Ela é muito esforçada, dedicada e se preocupada com os outros colegas. Dificilmente falta aos treinos e está sempre focada”, justifica Sandri, colega de equipe de Gabriela. Foi em uma das mesas do pátio, cobertas por um toldo e abrigadas da chuva, que a conversa começou.

As armas brancas da esgrimista

Quando mencionada a aprovação em primeiro lugar na UFRGS para o curso de Jornalismo no vestibular de 2015, Gabriela sorri. Aliás, é uma característica sua: distribuir sorrisos, simpatia e gentileza. Todos com quem conversamos antes de Gabriela chegar se referiam a ela com a mesma expressão: “Ela é um amor de menina”. Por ser alta e esguia, a fisionomia e a personalidade fazem com que Gabriela se assemelhe a uma princesa. Mas não as princesas que esperam sentadas seus príncipes ou cortejos, mas sim aquelas que escrevem suas próprias histórias e mudam seu próprio destino.

Divulgação/GNU

Gabriela é a principal aposta da nova geração da esgrima do Grêmio Náutico União

A esgrima surgiu na vida da jovem no evento organizado pelo clube no qual ela segue treinando até hoje. “Eu participei do Projeto Verão, onde as crianças de cinco até uns dez anos são apresentadas a vários esportes aqui no clube para que tenham uma vivência e possam escolher o que elas mais gostam”, diz Gabriela, que confessa que sempre foi muito competitiva. “No dia em que me apresentaram a esgrima, eu joguei e ganhei de todo mundo. Eu achei aquilo um máximo, não exatamente por ter gostado da esgrima. Eu gostava muito de ganhar”, completa a esgrimista.

Depois desse dia ela insistiu para que a mãe a colocasse na escolinha. Lúcia, mãe de Gabriela, acreditando que se tratava de uma “coisa de criança”, demorou a concordar. “Depois de uns dois anos, ela decidiu aceitar. Foi aí que eu realmente conheci a esgrima e gostei muito”, conta Gabriela. Ao longo da carreira ela diz que precisou contar com o que define como “paitrocínio”, enfatizando as dificuldades enfrentadas pelas categorias de base. “O ideal seria investir na base para que desde pequenos fossem formados esses atletas. É tão importante investir na categoria adulta quanto investir em quem está começando”, desabafa a atleta, que sempre contou com o apoio da família e do clube.

As conquistas e os resultados de Gabriela na esgrima a tornaram uma esperança para os Jogos Olímpicos de 2016. Apesar de ter consciência da oportunidade, para a atleta tudo acontece no momento certo. “Eu acho que ainda sou bem nova. A esgrima no Brasil está crescendo aos poucos, mas ainda assim é bem difícil pensar em resultado tão imediatista”, diz Gabriela. Ela explica que o mais coerente seria se preparar para os Jogos Olímpicos de 2020, que serão realizados em Tóquio. “Eu acho que é muito precipitado afirmar que sou essa possibilidade. A própria classificação é uma etapa bem difícil. Hoje eu não poderia afirmar que estarei nos Jogos de 2016”, afirma a jovem. “Expectativa eu acho que todo o atleta tem. Seria o máximo jogar uma edição de Jogos Olímpicos no Brasil”, completa a esgrimista.

Voltando ao centro de treinamento, o técnico Alexandre Teixeira, há 23 anos comandando os atletas do clube, esclarece que os resultados apresentados são frutos do esforço da própria atleta, que sempre gostou muito de treinar. “A Gabi adora e pensa em esgrima até mesmo quando ela está fora do centro de treinamento, isso faz com que ela seja uma atleta diferenciada”, afirmou o treinador.

O inusitado jogo de futebol no centro de esgrima

Antes de começar o treino, Alexandre avisa que o grupo vai apenas fazer um aquecimento. O centro de treinamento é divido ao meio por uma coluna de concreto. De um dos lados ficam as pistas oficiais de esgrima. Do outro, suas representações desenhadas no chão, onde ocorrem as aulas da escolinha. Foi nesse espaço que tivemos a oportunidade de apreciar uma partida de futebol entre esgrimistas – disputada com uma bolinha de tênis. As goleiras são cadeiras colocadas nas extremidades dessa parte da sala e a equipe é divida em dois times. A partida começa com muitas risadas, disputas e divididas de bola – ou bolinha. Volta e meia, não só quem estava de fora do jogo, como os integrantes do time, perdiam o pequeno objeto de vista.

A dança das espadas 

Do outro lado da sala, iluminada e ampla, cinco pistas de esgrima fixadas ao chão aguardam os doze atletas presentes no treino. É ali mesmo – à beira das pistas – que eles começam a se vestir colocando por cima da roupa as calças, os suspensórios, os protetores e o colete. As espadas e floretes completam o figurino para que todos treinem juntos. Gabriela atravessa uma das pistas e conecta o fio preso ao colete no marcador fixado ao chão. A cena faz lembrar o filme Avatar – quando os personagens se conectam aos elementos da floresta, parecendo se tornar um só, exercendo controle sobre eles. E ela parte para o centro da pista, se apropriando dos seus 14 metros de extensão; cumprimenta o adversário e começa a disputa.

Ana Paula Silva/UniRitter Esporte

Atletas treinam em pistas com 14 metros de extensão

Os movimentos da esgrima se assemelham aos de uma dança, com graça e leveza. Parece não haver força em seus gestos; o que não significa que esses não contenham firmeza e precisão. Com os pés fixos no chão e joelhos levemente curvados e entreabertos, um frente ao outro, os atletas se distanciam e se aproximam, buscando um dos cinco toques necessários no adversário para conseguir a vitória.

Os gestos dos braços, o corpo ereto e o vai e vem dos pés, acompanhado do entrelaçar das espadas, mereciam como trilha sonora uma sinfonia de Beethoven para embalar esse baile de máscaras. São aproximadamente três horas de treinos diários, mais o treinamento físico e treino específico. “Ela está no caminho certo”, afirma o técnico Alexandre Teixeira. O treino acaba e os atletas vão se dispersando, sem pressa. Fica a esperança e a torcida para que nossa esgrimista – ao seu tempo – conquiste seu final feliz para esgrima brasileira

ENTENDA A ESGRIMA

O QUE É: um duelo em que são utilizadas armas brancas para atacar e defender-se. Atualmente, existe apenas a esgrima esportiva, sendo esta dividida em três diferentes tipos de armas: espada, florete e sabre.

AS ARMAS: cada arma da esgrima possui sua regra, zona de pontuação e forma de toque. Na espada e no florete, o toque só pode ser de ponta e, no sabre, o corte (ataque) e o contra-corte (defesa) podem ser com a ponta.

A PISTA: possui 14 metros de comprimento e dois metros de largura. Os pontos são indicados por duas lâmpadas que existem no aparelho marcador de toques, uma verde e outra vermelha, acendendo sempre do lado do atleta que realizou o toque e fazendo com que este receba um ponto.

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