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Ídolo Jaconero, Flávio Campos relembra histórias e fala sobre momento do Juventude

Leonardo Ambrosio | leonardo.ambrosio@outlook.com

Elenco do Juventude campeão da Copa do Brasil, após empatar em 0 a 0 com o Botafogo no Maracanã. O primeiro jogo terminou com vitória do clube gaúcho por 2 a 1. / Créditos: Site Almanaque Esportivo.

Por Leonardo Ambrosio

Fundado em 1913, o Juventude completou 104 anos na última quinta-feira, 29 de junho de 2017. Em sua história mais que centenária, o clube de Caxias do Sul já conquistou títulos de grande importância dentro do futebol estadual e nacional. Em 1998 e 1999 o clube da Serra passava por sua melhor fase, quando conquistou o Campeonato Gaúcho e a Copa do Brasil, respectivamente. Nas duas campanhas de destaque, quem levantou as taças ostentando a braçadeira de capitão foi o ídolo Flávio Campos, volante que hoje exerce o cargo de diretor executivo de Futebol no Alfredo Jaconi.

Flávio Campos, hoje diretor executivo de futebol do Juventude. / Créditos: Arthur Dallegrave/Assessoria do Juventude.

Em conversa no programa Unisports, Flávio comentou o atual momento do Juventude, que é o segundo colocado na Série B do Campeonato Brasileiro, e tem chances de voltar a disputar a elite do futebol brasileiro após 10 anos figurando nas divisões inferiores, tendo chegado inclusive à quarta divisão nacional. Além disso, falou sobre sua história no Juventude e o trabalho que vem exercendo atualmente no clube.

Anos de glória

Flávio lembra com carinho dos anos de glória que teve com a braçadeira de capitão do Juventude, naquela que pode ser chamada de melhor época do clube da Serra Gaúcha. O ex-volante enaltece a unidade daquelas equipes, e diz que foi o companheirismo da equipe que os ajudou a conquistar as glórias, mesmo com orçamento reduzido em relação aos adversários. “Quando uma equipe se fecha, ela já começa a ficar com uma cara muito boa. E essa equipe de 1998 e 1999 fez isso. O Lori (treinador da época) formatou bem, a gente manteve um bom nível durante toda a competição de 1998 e vencemos o Internacional (na final) no Campeonato Gaúcho”, lembrou o diretor executivo.

Para a temporada de 1999 o ídolo diz que a unidade foi mantida, mas que o clube também contou muito com a ajuda do patrocínio da Parmalat, que trouxe ao Juventude jogadores de ponta daquela época. Flávio lembra, inclusive, que o seu próprio retorno ao Papo passou pelas mãos da patrocinadora.

Elenco do Juventude campeão da Copa do Brasil, após empatar em 0 a 0 com o Botafogo no Maracanã. O primeiro jogo terminou com vitória do clube gaúcho por 2 a 1. / Créditos: Site Almanaque Esportivo.

Atual momento do clube

A temporada não começou bem para o Juventude em 2017. Após a promoção da terceira para a segunda divisão nacional, o clube teve um desempenho abaixo do esperado no Campeonato Gaúcho. Após ficar em sexto lugar na primeira fase, acabou eliminado para o rival Caxias nas quartas de final da competição, perdendo as duas partidas por 1 a 0.

“O Campeonato Gaúcho foi pra mim muito ruim para o Juventude. A gente fez muito abaixo do que a gente gostaria. Mas era algo planejado. Porque não tínhamos condições financeiras naquele momento. Não foi escondido de ninguém que a gente jogaria com aquele plantel, não teriam reforços”, explicou o diretor.

A torcida juventudista, entretanto, voltou a vibrar com o clube no começo da Série B, quando os bons resultados retornaram ao Alfredo Jaconi. Com 11 jogos disputados até o momento, o clube é o segundo colocado na competição, com 22 pontos conquistados, mesma pontuação do líder Guarani. São seis vitórias e quatro empates, com apenas uma derrota para o Brasil de Pelotas, fora de casa. Esse sucesso, de acordo com Flávio Campos, passa pelos reforços que chegaram a Caxias do Sul. “Nós não tínhamos condições de contratar ninguém naquele momento (durante o Campeonato Gaúcho). Mas no momento seguinte, às vésperas do Campeonato Brasileiro, talvez um pouco mais cedo, a gente conseguiria se reforçar”, ressalta, reforçando que ao todo 12 jogadores se juntaram ao plantel alviverde para a disputa da competição nacional.

Esse sucesso imediato na competição, entretanto, não era de todo esperado pela comissão técnica. A ordem da casa, na verdade, era estar no pelotão de frente, para que a equipe não precisasse se preocupar com as últimas colocações. Entretanto, o clube chegou a liderar o campeonato, perdendo o posto apenas no número de vitórias, para o Guarani.

“Planejar liderança é uma coisa um pouco delicada. A gente tinha na mente montar uma equipe competitiva e que a gente brigasse pela parte superior da tabela. O objetivo era que com atletas com porte, estatura, valências físicas e técnicas, a gente pudesse brigar lá em cima e não se preocupar com a parte de baixo. Essa era a nossa ideia na hora de formatar a equipe, dizer que a gente estava formatando para liderar seria ousadia demais da minha parte”, disse Flávio.

Com trabalho e dedicação, no entanto, o Juventude conseguiu surpreender a própria comissão técnica e colocar em prática um início dos sonhos no Campeonato Brasileiro. “Felizmente o projeto acabou em um quadro tão bom que não só a gente está brigando, como liderando”, comemorou o dirigente, que enalteceu além da boa campanha a consistência e regularidade do trabalho realizado na equipe.

Capitão Flávio Campos beija a taça da Copa do Brasil. / Créditos: Site Almanaque Esportivo.

Trabalho com orçamento reduzido

Dinheiro e sucesso estão interligados em praticamente qualquer lugar. Nem sempre a presença de um indica a existência do outro, mas no futebol, quando não há dinheiro, o trabalho precisa ser muito maior para que o sucesso seja alcançado.

Longe das cifras ostentadas pelos principais clubes brasileiros, o Juventude de acordo com Flávio Campos figuraria entre últimos lugares caso fosse feito um ranking elencando as capacidades financeiras das equipes que disputam a Série B do Brasileirão. Por isso, para “garimpar” talentos e formar uma equipe competitiva, ninguém pode poupar esforços dentro do clube. “Mesmo assim (com as dificuldades financeiras) a gente conseguiu garimpar e achar jogadores de qualidade dentro do que a gente podia pagar, para estar fazendo esta campanha”, exaltou.

O processo de encontrar talentos acessíveis no mercado não termina, entretanto, no momento em que se chega ao nome do atleta. Diferente de craques e jogadores de renome, atletas menos conhecidos geram muitas dúvidas e incertezas no momento da sua contratação. “Quando você vai trabalhar com atletas que não são renomados, não tenha dúvida de que o trabalho é maior. Porque você não conseguiu vê-los tanto em ação em momentos e equipes de ponta. Então você pode esperar que o atleta vai dar certo, mas a gente tem o cuidado de pesquisar, procurar com aquela equipe em que ele estava, e equipes anteriores em que ele jogou. Falar com profissionais que trabalharam com ele, para que a gente tenha um feedback adequado e tente minimizar os erros”, explica Flávio, alertando que erros de cálculo quando você trabalha com pouco dinheiro normalmente são incorrigíveis: “Quando você trabalha com orçamento reduzido, você tem obrigação de errar pouco. Porque você não tem como corrigir seu erro, contratar um atleta porque aquele não deu certo. A gente teve um cuidado cirúrgico, com muita pesquisa, muita pergunta, para que a gente pudesse trazer atletas que se encaixam em um perfil que a gente precisava, dentro de um trabalho que já estava desenhado”.

Manutenção do elenco

Além da complicadíssima garimpagem, outro empecilho enfrentado por clubes de menor orçamento é sem dúvida a manutenção do elenco. Com o mercado estrangeiro oferecendo cifras incompatíveis com a realidade brasileira e o assédio de clubes com maior poder aquisitivo, muitas vezes é difícil manter os principais jogadores e dar continuidade ao trabalho que está sendo realizado.

Por isso, nas palavras de Flávio Campos, blindar a equipe de possíveis baixas no elenco é uma das prioridades do Juventude para que os objetivos da temporada possam ser alcançados. “A ideia é ter esse elenco até o final. Fazer todos os esforços possíveis para manter esse elenco junto. Manter o treinador trabalhando, para que a gente possa sonhar e continuar na luta”, planejou o diretor.

As propostas, no entanto, não demoraram para chegar. Com o Campeonato Brasileiro ainda na sua 11ª rodada, o clube já recebeu ofertas por um de seus principais jogadores: o centroavante Tiago Marques. As boas atuações do atacante de 29 anos chamaram a atenção do futebol sul-coreano, mas as aproximações foram freadas imediatamente pela diretoria.

“(O Tiago) é um atleta de velocidade, técnica, tem um jogo aéreo forte e tem uma junção de valências que o futebol pede para a função de centroavante. […] Por isso houve essa proposta da Coreia, que foi negada pelo Juventude. No primeiro momento a gente já negou, a notícia até foi dada após o último jogo, mas a negativa já havia sido feita dias atrás”, garantiu Flávio, dizendo também que seria muito difícil encontrar um atleta no mercado para substituir Tiago Marques.

Novas aproximações de outros clubes, entretanto, não são descartadas pelo dirigente do Papo. Flávio Campos afirma que apesar da prioridade em blindar o elenco, ele não tem dúvida de que propostas maiores irão chegar.

O momento do futebol do interior no Rio Grande do Sul

Muito por conta de disparidades financeiras e de incentivo, o futebol gaúcho normalmente gira em torno dos dois clubes de Porto Alegre: Grêmio e Internacional. Entretanto, a hegemonia dos clubes da capital no Campeonato Gaúcho foi despedaçada em 2017 com uma campanha inquestionável do Novo Hamburgo, que eliminou o Grêmio nas semifinais e derrotou o hexacampeão Internacional na finalíssima. Para Flávio Campos, o acaso não esteve presente nesta conquista histórica. O título, em sua visão, pode ser explicado apenas de uma forma: trabalho. Muito trabalho.

“Eu acho que o Novo Hamburgo foi campeão por mérito. Eles passaram por grandes equipes, vencendo. Eles passaram por Grêmio e Inter, e o Novo Hamburgo jogou com o Juventude e venceu. Jogou o melhor futebol e foi uma equipe regular. Não jogou só em alguns momentos, teve um bom futebol do começo ao fim do campeonato. Eu não acho que foi por acaso”, opina o dirigente do Juventude.

Projetando as próximas edições do Gauchão, e refletindo sobre as chances da equipe caxiense e demais clubes do interior do estado, Flávio diz acreditar que com muito trabalho, a história pode se repetir. “Acho que se as equipes do interior se reforçarem e fizerem um trabalho profissional, como foi feito no Novo Hamburgo, elas terão condições sim de galgar e tentar o objetivo que é vencer o Campeonato Gaúcho”, disse.

O caminho não é fácil, entretanto. Após a profissionalização do futebol no Rio Grande do Sul, poucos times tiveram a oportunidade de levantar a taça do Gauchão. Antes do Novo Hamburgo, a última vez que Grêmio e Inter haviam ficado de mãos abanando na competição havia sido em 2000, com o título do Caxias. Quatro anos antes, em 1998, o Juventude também desfrutou do mesmo feito. Além disso, o único clube que conquistou o título mais de uma vez além dos clubes da capital é o Guarany de Bagé, campeão nos longínquos 1920 e 1938.

Apesar de reconhecer a dificuldade agregada ao Gauchão pelas equipes de Porto Alegre, Flávio diz, trocando em miúdos, que Golias pode ser derrubado mais uma vez, desde que exista planejamento. “Aquela equipe, seja o Juventude, o Novo Hamburgo ou qualquer outra que possa ter uma condição de fazer um bom plantel, profissionalmente falando também, e que esteja comprometido, ela tem condições de brigar pelo título”, acredita o dirigente.

E batalhando contra todas as dificuldades e limitações impostas pela realidade dos clubes da Série B nacional, Flávio Campos pode, em 2017, escrever mais uma página marcante na sua história com o Juventude. Hoje em seu terceiro cargo no clube, o ex-volante também já foi treinador do Papo, em 2007.

Sua passagem como técnico, porém, ficou manchada pelas dificuldades que o clube enfrentava naquela época. Há exatos dez anos, o clube alviverde fazia uma campanha ruim no Campeonato Brasileiro e era rebaixado para a segunda divisão. Flávio Campos não ficou até o fim daquela campanha, saiu na metade do ano, após cerca de dois meses de trabalho. Mas nem ele, nem a torcida juventudista esperava que os próximos anos seriam talvez os piores da história contemporânea daquele que em 1999 conquistara o Brasil.

Acumulando campanhas ruins, o clube chegou ao fundo do poço em 2011, quando foi rebaixado para a Série D (a última divisão do futebol brasileiro). De lá, o Papo só sairia em 2013.

Hoje, dez anos depois do rebaixamento que deu início ao calvário da torcida verde e branca de Caxias do Sul, Flávio Campos pode estar participando da equipe que devolverá ao Juventude o orgulho de estar na elite. O caminho será longo, mas os 11 primeiros passos já foram dados.