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Marieke Vervoot: a iminência da morte como motivação para viver melhor

por Bruna Thiago | brunaluisathiago@gmail.com | edição de Robson Hermes | robsonhermescolombo@gmail.com

(Foto: Getty Images)

Duas vezes medalhista nos jogos Paralímpicos Rio 2016 – com prata e bronze – , a atleta belga Marieke Vervoot (37) tornou-se notícia ao redor do mundo ao falar abertamente sobre direitos sobre o próprio corpo e à vida, anunciando que estes seriam seus últimos jogos olímpicos antes de submeter-se ao procedimento de eutanásia.

A polêmica decisão sobre o processo foi tomada em 2008, tendo como critério base uma doença degenerativa progressiva que não possui diagnóstico preciso. A condição de Vervoot vem se agravando desde os 14 anos de idade, quando uma inflamação nos pés se espalhou para os joelhos e posteriormente acarretou na perda do movimento das pernas, aos 20 anos de idade. Desde então, a atleta sofre com intensas dores musculares, ataques epiléticos e redução da visão, atualmente possui 20% da capacidade total.

Assombrada pelo progresso da doença desde muito cedo, a medalhista guarda a documentação assinada autorizando o suicídio assistido com um misto de alívio e motivação para seguir em frente: “Quando quiser posso pegar meus documentos e dizer é o suficiente! Quero morrer. Isso me tranquiliza quando tenho muita dor. Não quero viver como um vegetal.”

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Marieke Vervoot na pista (Foto: Getty Images)

Legalmente permitida somente em cinco países (alguns estados dos EUA, Bélgica, Alemanha, Suíça e Holanda), a eutanásia consiste no processo de suicídio assistido para pessoas com doenças degenerativas e pacientes em estado terminal, situações em que não há chances de tratamento e a qualidade de vida é determinantemente afetada por enfemeridades.

Sobre os rumores acerca do imediatismo da decisão, Marieke faz questão de ressaltar que “ainda não chegou a hora” e que no momento a possibilidade está “totalmente fora de questão”. Ávida defensora do direito à eutanásia, a atleta procura falar, sempre que possível, sobre a importância e as dificuldades do processo legal para submeter-se ao procedimento.

“Você precisa ir a vários médicos, se consultar com psiquiatra… Precisa provar que não pode mais viver com isso e que não tem chances de melhorar. Você precisa da assinatura de três diferentes médicos e precisa provar ao psiquiatra que é realmente o que você quer. É muito difícil”, declarou a atleta.

A jovem que sonhava em lecionar e gostava de pintar quadros não permitiu que a condição degenerativa espinhal rara que possui abalasse sua satisfação e alegria em praticar esportes, onde encontrou motivação para manter-se viva. Em 2007, iniciou a prática de basquete adaptado, migrando posteriormente para o triatlo e, enfim, devido às limitações impostas pela doença, decidiu dedicar-se somente ao atletismo.

Recordista em provas de cadeiras de rodas, conquistou as medalhas de ouro (100m) e prata (200m) nas provas da categoria T52 dos jogos de Londres 2012, além de ser campeã mundial no paratriatlo. Otimista e sempre tratando de assuntos difíceis, como morte e fim de carreira, com muita leveza e bom-humor, Marieke se despediu das pistas conquistando uma medalha de prata nos 400m e outra de bronze, nos 100m da classe T52.

Após ganhar medalha de prata (Al Tielemans/AFP)

Marieke após ganhar medalha de prata (Foto: Al Tielemans/AFP)

Refletindo sobre a dualidade simbólica das conquistas, declarou em entrevista que seu objetivo havia sido alcançado. “Eu estou muito, muito feliz, mas essas medalhas têm dois lados para mim. Por um lado, tenho a alegria de finalizar minha carreira com duas medalhas, estou muito orgulhosa por isso. Do outro, bate uma tristeza: ‘Ah, não, essa foi a última corrida na cadeira de rodas na minha vida’. É bem difícil esse sentimento, fica preso aqui na minha garganta. Dói um pouco. Mas agora é hora de aproveitar, beber uma boa taça de champanhe. As bolhas sobem e você nem sente mais dor (risos). Eu fico rindo o tempo todo” afirmou Vervoot.

Atualmente aposentada, revelou que tem uma lista de coisas que quer fazer antes de morrer, como pular de uma ponte de 80m sobre a água, voar com um caça F16 e criar um museu com seu nome. Seus planos para o futuro envolvem também ministrar palestras para contar sua história e dedicar mais tempo à família e amigos.

Sem uma data específica marcada para seu último dia de vida, Marieke planeja ser cremada e ter as cinzas lançadas em Lanzarote, – “onde a lava se une com o mar” – porém não antes de realizar seus diversos projetos pessoais, que envolvem praticar o paraquedismo indoor e atingir o máximo de pessoas possíveis com sua história e trazer à tona a discussão sobre a eutanásia e os limites da lei sobre a vida.

Vervoot foi um dos principais destaques e única medalhista da Bélgica nos jogos Paralímpicos Rio 2016, e faz questão de ser um lembrete vivo da importância de viver o máximo possível de cada dia, carregando a mensagem “believe you can” não só em sua cadeira de corrida, mas em seu modo de viver o que lhe resta da vida, cada dia superando a si e inspirando positividade independente das adversidades que enfrenta.

FONTES CONSULTADAS:

KESTELMAN, Amanda e FRICKE, Gabriel. Rio de Janeiro. “Com eutanásia assinada, belga dá adeus com bronze”. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/paralimpiadas/noticia/2016/09/com-bronze-belga-se-despede-da-paralimpiada-antes-da-eutanasia.html. Acesso em: 19 out. 2016.

SÁNCHEZ, Alvaro. Bruxelas. “Dos jogos do Rio à eutanásia – a última disputa de Marieke Vervoot”. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/08/15/deportes/1471268175_363552.html. Acesso em: 04 out. 2016.

STEINBERG, Jason. Rio de Janeiro. “Marieke Vervoot denies planning to kill herself straight after Rio Paralympics”. Disponível em: https://www.theguardian.com/sport/2016/sep/11/marieke-vervoort-now-my-fear-of-death-is-gone.  Acesso em 04 out. 2016.

VINOGRADOFF, Luc. “L’euthanasie au détour des Jeux paralympiques de Rio
En savoir plus sur”. Disponível em: http://www.lemonde.fr/big-browser/article/2016/09/12/l-euthanasie-au-detour-des-jeux-paralympiques-de-rio_4996342_4832693.html#lmLBJOctJYPy4LKi.99. Acesso em 04 out. 2016.

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