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“Nunca me arrependi de ser jornalista”, afirma Diogo Olivier

por André Coromberque e Leonardo Ambrosio | andref.coromberque@gmail.com e leonardo.ambrosio@outlook.com

O esporte é uma das atividades que mais fascinam as pessoas no mundo inteiro. Para aqueles profissionais que trabalham na área, o significado é ainda maior. Jornalistas estão sempre perto de atletas famosos que são admirados por muitos. Um olhar de um profissional que está na área há um bom tempo é essencial para saber como funciona esse tipo de aproximação. Diogo Olivier, 47 anos, titular da coluna No Ataque (Zero Hora) e comentarista da RBS TV, formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (URFGS), aceitou falar com o UniRitter Esporte sobre a carreira, as experiências e sobre como se realiza no jornalismo esportivo.

André: Queríamos saber quem é o Diogo que a gente não conhece. Como era o Diogo na universidade e porque escolheu trabalhar com jornalismo?
Eu sou um rato de universidade. Sou defensor do diploma do jornalista. Acho que jornalista tem que ter academia, a universidade é fundamental. Eu escolhi essa profissão não por um motivo nobre. Como meus pais não tinham dinheiro para viajar, e eu via na TV que os jornalistas viajavam muito, conheciam o mundo inteiro, então eu queria isso. Não só viajar, mas falar com gente diferente. Então eu decidi ser jornalista por isso, e uma coisa levou a outra.

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Além de escrever a coluna No Ataque e de ser comentarista da RBS TV, Diogo faz participações frequentes no Redação Sportv. O programa, que vai ao ar nas manhãs de segunda a sexta, analisa não apenas o futebol, mas a cobertura da imprensa esportiva

Leonardo: A área de esportes, infelizmente, acaba sendo considerada um pouco inferior em relação às outras. Então, como está o mercado? Existem muitas pessoas entrando sem diploma na área de esportes?
É uma questão complicada. Não tem como melhorar o jornalismo desprezando o diploma. Mas temos esse problema no esporte, é algo que tem raízes no tempo da ditadura – quando o esporte era o ópio do povo. Na década de 1970, quando fomos campeões do mundo, o esporte foi tomado como a identidade do Brasil, o retrato de um país que vive uma ditadura que dá certo. O que acabou gerando revolta entre celebridades e populares. Então o esporte sempre foi visto como algo menor, o cara que faz a seção de esporte nem sempre é visto como jornalista. Acho que isso ainda existe, mas está mudando.

André: Você trabalhou muito tempo na editoria de política. Como foi o começo no esporte? Você gosta mesmo de esporte?
Sim, gosto. Primeiro, eu queria mostrar para mim que eu não era só da política. Eu queria ter mais espaço – o esporte te dá mais espaço, e um pouco mais de liberdade criativa. Foi um grande desafio. O primeiro dia foi o mais complicado. Uma coisa é entrevistar o presidente do Tribunal de Contas sobre um processo X, a linguagem é uma. Mas no futebol isso não existe, tu não pode falar formalmente. Não pode usar gírias e palavrões, mas precisa adequar sua linguagem, senão não confiam em ti. Então, no começo, o pior foi a linguagem. E o segundo ponto é que eu precisei fazer uma nova caderneta de fontes. As fontes tu precisa selecionar, cultivar, guardar. Na política eu tinha uma, e talvez eu fosse capaz de escrever uma declaração sem nem falar com a fonte, de tanto que nós conversávamos. Mas no esporte eu precisei de uma nova agenda.

Leonardo: Essa emoção que tem o esporte, que contagia o país inteiro… ela é exclusiva do esporte. Existe um glamour emocional maior nessa editoria?
Sim. Onde tem paixão tem isso. Principalmente se tratando de futebol. Futebol tem paixão nacional. Futebol lida com paixão. No Brasil ele é um elemento da nossa identidade. Não tem nenhuma pessoa no país que não tenha um time de futebol. Por isso o futebol é paixão maior no Brasil.

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Reportagem “Desemprego Futebol Clube” foi uma das histórias escolhidas para serem publicadas no livro “11 gols de placa”

André: Sobre uma matéria sua, que saiu na obra “11 Gols de Placa”, com outros vários jornalistas, gostaria de saber como foi sua reação ao ver a matéria ser escolhida para fazer parte do livro? E como foi escrever essa reportagem (Desemprego Futebol Clube)?
Fiquei super feliz de ver a matéria ser reconhecida. Não esperava ganhar nada por ela, e nem o convite de uma publicação em um livro. Falar sobre desemprego no futebol não é algo fácil, mas eu consegui. É legal ver os caras com o olhar paulista olharem para uma matéria que há 10 anos eu tinha escrito. Tanto tempo. Foi bacana ver jogos em alguns estados, para divulgar o livro. Em São Paulo teve uma mesa redonda internacional da ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), o André Rizek estava lá. Ele também está nesse livro. Eu o conheci, e daí ele convidou para ir para Redação Sportv (programa que vai ao ar diariamente pela manhã no canal por assinatura Sportv). Ficamos amigos. Agora eu vou sempre daqui ao Rio. E assim foi super legal. E tem matérias ótimas naquele livro. Tem historias incríveis. É bom estar em um lugar periférico. Os caras olharam pra mim, foi legal. Às vezes me convidam para dar palestras desse livro. Eu me sinto muito bem por causa disso.

Leonardo: Se hoje você fosse escolher entre política e esporte. Por qual dos dois você iria optar?
Eu não me preocupo muito com isso, porque no meu caso foi um processo. Eu às vezes ainda sou chamado para fazer matérias sobre política, em períodos eleitorais, por exemplo. Mas eu acho que a cobertura de política está muito centrada quase que exclusivamente em dossiês. O jornalista apenas checa um pouco e já publica. Não quero dizer que isso não é importante, mas nada, nesse caso, é produzido por jornalista. Isso me incomoda um pouco na cobertura de política. Eu adoro o que estou fazendo agora, acho que se eu pudesse optar agora, ficaria com o esporte.

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Ao lado do repórter José Alberto Andrade, da Rádio Gaúcha, Diogo acompanhou a seleção brasileira na Granja Comary na Copa do Mundo de 2014

André: Eu gostaria de saber sobre as suas coberturas esportivas. Existe alguma que mais te marcou, que mais te emocionou?
Cara, eu sei que vai parecer cabotino, mas as coberturas maiores não são as que mais me seduzem. Imagina se não é bom cobrir uma Copa do Mundo de 98 na França, uma Copa do Mundo no Brasil, poder ver a seleção brasileira. É maravilhoso ver isso. Para um cara que faz jornalismo esportivo, o propósito é fazer isso. Acompanhar a seleção brasileira, mais de quarenta e tantos dias como eu acompanhei. É maravilhoso. Mas é muito cansativo e desgastante. Eu gosto das coisas que são mais simplórias. Por exemplo um jogo do Grêmio contra o Brasil-Pel, pela semifinal do Gauchão de 97, que foi para os pênaltis. Adoro contar essa historia, pois eu vejo muito jornalismo nisso, e isso me deixa muito feliz. Então… depois de o melhor jogador do Brasil errar a ultima cobrança de pênalti, todos os repórteres foram cobrir a festa gremista. Eu fui ver o outro lado da história, o lado do perdedor, do Brasil-Pel. Eu sei que muitos repórteres não fazem isso, mas eu queria ouvir o outro lado. Então são essas pequenas causas que me deixa feliz e me emocionam no esporte.

André: Nós gostaríamos que você deixasse uma mensagem para quem está se formando no curso de jornalismo, e para quem está começando na área.
Eu sou otimista. Nunca me arrependi de ser jornalista. Não é uma profissão que dá muita grana. A reportagem é estimulante, te abre o mundo. Inacreditável. Eu já entrevistei presidente do Tribunal de Justiça, soldado, bandido, jogador de futebol. Muita gente. Qual outra profissão que te faz ter acesso a um bandido? É maravilhoso isso. O que você aprende, é inacreditável. Nós estamos num momento em que é estimulante fazer isso. Ao contrário do que se imagina, o mercado está se transformando, decididamente ele está se transformando. Assim, quem curte fazer isso, vai em frente.

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