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“O importante é tratar todos com ética”, diz única mulher no curso de treinadores da CBF

por Shalynski Zechlinski | shalynski@gmail.com

Michele Kanitz, 24 anos, natural de Santa Cruz do Sul, é estudante de Educação Física da Unisc. Apaixonada por futebol, a jovem tem o sonho de formar jogadores. Por dois anos consecutivos ela foi a única mulher a realizar o curso de preparação de técnicos da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Entre as suas inspirações está Adenor Leonardo Bachi, mais conhecido como Tite, que atualmente é treinador do Corinthians. Em entrevista ao UniRitter Esporte, Michele conta como tem sido a sua trajetória profissional em dos esportes mais comandados por homens e qual a sua perspectiva em relação ao futuro do futebol feminino.

Quando você decidiu seguir a carreira no futebol?
Eu sempre gostei muito de futebol. Desde criança fui incentivada pelos meus país a jogar, a ir nos estádios e sempre acompanhar o esporte. Eu sempre tive essa vontade de trabalhar com futebol, porém eu não sabia direito a área que eu queria seguir, sabia apenas que eu queria futebol. Então, eu fui fazer cursinho para Medicina e acabei passando. Quando eu passei eu decidi que eu não queria fazer Medicina para estudar só um semestre de desporto (na graduação), para depois trabalhar apenas com atletas em cirurgia e em recuperação. Isso eu não queria. Foi aí que eu desisti e comecei a fazer Educação Física.

Arquivo pessoal

Michele concluiu a licença C do curso da CBF em 2014

Como foi o caminho depois que você trocou Medicina por Educação Física?
Logo no início da faculdade, surgiu a oportunidade de fazer estágio no Futebol Clube Santa Cruz. Comecei na categoria de base, onde fiquei quase dois anos. Lá eu aprendi muito, trabalhei tanto na área técnica quanto na preparação física. Depois fui trabalhar no Lajeadense, por meio ano. Aí fui contratada pelo Genoma Colorado Santa Cruz (núcleo de formação de atletas filiado ao Sport Club Internacional) até o final do ano passado. Também tinha as mesmas funções que eu já estava acostumada, mas eu trabalhava, especificamente, com a categoria sub-15. Nesse período, surgiu a oportunidade de voltar para o Santa Cruz, mas diretamente com a categoria profissional. Trabalhei no primeiro semestre desse ano porque como o clube é pequeno, não tem muito dinheiro, às vezes eles precisam fechar algumas portas já que não tem como se manter o tempo inteiro. Agora eu estou só estudando e buscando novas oportunidades.

O curso de treinadores promovido pela CBF era algo que você já cogitava? Em que momento surgiu a decisão de fazer esse curso?
Desde que eu entrei na faculdade, com intuito de trabalhar com futebol, eu já procurava outros cursos para profissionalizar. Porque a graduação te dá um direcionamento, mas a especialização tem que se buscar fora. Sempre que eu sabia de cursos de qualificação, que pudessem agregar no meu currículo, eu aproveitava as oportunidades e fazia. O máximo que eu puder me qualificar, melhor. Então, eu fiz diversos cursos e nesse meio tempo eu fiquei sabendo do curso da CBF e decidi fazer.

Como foi essa experiência?
Lá eles selecionam os currículos, não é só se inscrever para fazer o curso. Tem que ter alguns pré-requisitos para poder conseguir uma vaga. Tem que ter cinco anos de experiência ou ter concluído a graduação. Eu me inscrevi e fui selecionada a primeira vez o ano passado, na licença C. O curso foi realizado na Granja Comary. Foi muito bacana porque a licença C é voltada mais para categoria de base e escola de formação. Depois que eu concluí, eu estava apta a fazer a licença B, na metade deste ano. Mandei meu currículo de novo, com as novas experiências, com outros cursos de especialização e eles aprovaram. Foi uma experiência muito gratificante, uma troca de conhecimentos tanto com os profissionais que deram aula quanto com os que estavam se qualificando também. Era só eu de mulher, mas como eu disse, desde o início da minha graduação eu busquei minha qualificação. Independente se vai ter homem ou mulher, o importante é tratar todos com ética profissional.

Divulgação

Michele comemora com os atletas a conquista do oitavo título na disputa entre os núcleos estaduais do Projeto Genoma Colorado

Como você mesma disse, você era a única mulher a realizar o curso da CBF. Você também já ganhou o prêmio de rainha da Liga Integração de Futebol de Santa Cruz (LIFASC). Visto que, o futebol de forma genérica é um esporte masculino, você já sofreu algum tipo de preconceito, não só no curso, mas na sua carreira?
Na realidade, a participação na LIFASC foi porque a minha mãe queria que eu concorresse. Eu nunca gostei muito de aparecer e desfilar, nunca foi a minha área, mas como ela sempre gostou muito eu acabei um agrado a ela. No fim, eu acabei participando porque era relacionado ao futebol e acabei ganhando. Os questionamentos deles durante as entrevistas, no dia do desfile, era todos relacionados ao futebol amador de Santa Cruz. Foram perguntas sobre os clubes, integração, a marca da liga. Foi bem específico ao futebol o concurso. Eu acabei participando pelo clube Guarani, de São Martinho, e hoje eu tenho muito contato com eles. Logo que eu ganhei, eles já conheciam o meu trabalho e me convidaram para treinar o time amador deles, o sub-18. Aí eu acabei entrando para eles e o que era para agradar a minha mãe, acabou me trazendo uma oportunidade. A questão do preconceito, já tive algumas situações um pouco desagradáveis, mas eu procuro não dar atenção para esse tipo de coisa. Independentemente da profissão o preconceito sempre vai ter ou alguém que não gosta da forma como tu trabalhas, mas eu não me preocupo com isso. Eu tento dar atenção só para o que vai me agregar. Tem pessoas até me dizem que eu tenho que trocar de profissão, mas depois que me conhecem, minha conduta perante ao meu profissionalismo, elas começam a aceitar mais a forma como eu trabalho. São coisas que talvez eu tenha dificuldades dentro esporte, mas como eu sou sempre muito focada aos poucos eu vou conseguindo o respeito das pessoas.

Arquivo pessoal

Michele com os atletas da categoria sub-15 do Projeto Genoma Colorado, que foi campeã municipal de futsal no ano passado

Como você vê o espaço na parte técnica do futebol feminino, no Brasil? Qual a sua opinião em relação ao futuro desse esporte para as mulheres?
Acho que falta muito espaço para as mulheres. Torço muito para que futuramente a gente consiga mais espaço. Eu sei que fora do Brasil, nos Estados Unidos, eu acompanho alguma coisa e lá o reconhecimento das mulheres profissionais que trabalham como auxiliares, treinadoras, na área de preparação física é muito bom. Aqui no Brasil, nós estamos muito atrasados referente a isso. Infelizmente, a gente não ganha espaço nem para a seleção brasileira. A seleção feminina até ganha algum espaço, mas na mesma dimensão que deveria ganhar, assim como a seleção masculina, por exemplo. Tem todas essas barreiras, mas eu acredito que o futebol tende a mudar muito e a questão feminina vai crescer ainda. E para isso a gente tem que melhorar muito em todos os quesitos, abrir portas para o futebol feminino e também criar um plano de carreira. É preciso, dar uma boa formação para as meninas, assim como tem para o futebol masculino. A realidade, infelizmente, é diferente porque a maioria das jogadoras precisam trabalhar em um emprego paralelo porque o futebol não é suficiente para o sustento delas.

O seu futuro, daqui dez anos, como você imagina?
Eu tenho alguns planos, alguns objetivos, que eu me imponho e são bem concretos. No Rio Grande do Sul e o Brasil são um pouco fechados para o futebol feminino, mas aqui no estado em específico é mais ainda. Então, a minha projeção é terminar a graduação, no final deste ano e poder ir para outro estado. O primeiro passo é não ficar por aqui. Lá no Rio e São Paulo os profissionais são mais abertos a quem é novo no mercado, lá eles têm uma outra realidade. Por isso, não pretendo ficar no Rio Grande do Sul. E também gostaria de trabalhar fora do Brasil, como eu disse lá fora tem essa importância da mulher como profissional, eles estão muito mais à frente. Então eu acho que o meu futuro é fora do Brasil.

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