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”Percebi, vendo o João Derly, tudo o que precisava fazer para ser campeã mundial”, afirma Mayra Aguiar

por Eduardo Castilhos | willricheduardo@gmail.com

Apesar de já ter praticado ginástica artística, natação, atletismo e até ballet, Mayra Aguiar encontrou no judô a sua paixão. Começou com 6 anos. Do Grêmio Náutico Gaúcho foi para a Sogipa onde, aos 11 anos, ainda conciliava o judô com o atletismo. Até que Antônio Carlos Pereira, o Kiko, seu atual técnico, a influenciou para ficar apenas no esporte no qual anos mais tarde ela conquistaria títulos que nenhuma brasileira tinha conquistado anteriormente. O UniRitter Esporte conversou com a atleta brasileira com o maior número de medalhas em Campeonatos Mundiais – são quatro na categoria sub-20 e quatro no adulto (ouro em 2014 na Rússia – foto que abre essa entrevista -, a prata em 2010 no Japão, e os bronzes na França e no Brasil em 2011 e 2013). 

Mesmo com 23 anos, a gaúcha já tem um vasto currículo de títulos. É atual número 1 do ranking mundial de judô na categoria meio pesado (-78kg); tem um bronze conquistado nos Jogos Olímpicos de Londres-2012 e as medalhas de prata e bronze nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro-2007 e de Guadalajara-2011. Mayra ainda tem sete pódios em Campeonatos Pan-Americanos de judô, sendo cinco deles no lugar mais alto. Nesta entrevista a judoca fala sobre sua, até então, incerta ida para o mundo do MMA, perspectivas para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, conquistas, opiniões e admiração por João Derly, bicampeão mundial de judô e atual deputado federal pelo PCdoB, eleito em 2014 com mais de 106 mil votos.

Divulgação

Campeão mundial em 2014, na Rússia, Mayra ganhou o direito de usar uma identificação diferente no quimono até a próxima edição da competição. O back number em vermelho é exclusivo dos campeões mundiais e serve para diferenciá-los dos demais judocas nos torneios

Durante os Jogos Pan-Americanos de 2007, no Rio de Janeiro, quando você competiu ainda sendo faixa marrom e conseguiu a medalha de prata, você disse que ainda não estava pronta. Agora, oito anos depois, você está pronta para o ouro nos Jogos Olímpicos?

Nessa época eu era muito nova. Foi o começo. Foi a primeira competição importante e dentro de casa. Lá eu vi que poderia ser profissional de judô. Eu não estava preparada. Não tinha noção do que eram os Jogos Pan-Americanos e do que poderia ser uma edição de Jogos Olímpicos. Em Pequim (2008), minha primeira Olimpíada, eu estava apavorada. Não sabia como iria ser e perdi na primeira luta. Fiquei arrasada. Queria mais, queria saber como seria uma medalha, mas naquela época eu deveria passar por muitas outras experiências. Principalmente as derrotas, com as quais aprendo muito. Agora para essa Olimpíada do Rio eu chego com uma bagagem de experiência muito grande. É a competição que todas as atletas estão visando e querendo o ouro, mas vou chegar com muita vontade e, por ser em casa, terei uma vantagem a mais.

Como você lida ao chegar em uma competição sabendo que não se preparou da forma adequada devido a uma lesão?

É bastante difícil. O maior exemplo disso foi o mundial de Chelyabinsk 2014 (Rússia), no qual acabei sendo campeã. Treinei muito a parte física mas não estava 100%. A parte psicológica foi muito importante pois não estava com ritmo de competição. Não estava tão bem quanto as minhas adversárias mas compensei isso com muito mais vontade e determinação. Isso acabou me ajudando. O que era pra ser um fator negativo eu consegui tornar positivo.

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Mayra conquistou a medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de 2007. Ainda faixa marrom, ela perdeu para a norte-americana Ronda Rousey (ao lado da brasileira na foto) na disputa do ouro. Anos mais tarde Ronda viraria uma das principais atletas do MMA

Em 2007 você lutou duas vezes contra a norte-americana Ronda Rousey, que é a única e atual campeã do peso-galo do UFC, ambas as lutas disputadas no Brasil (Jogos Pan-Americanos e Mundial). Você já pensou na possibilidade de voltar a enfrentá-la, desta vez, pelo UFC?

Eu gosto muito de assistir ao UFC. Acompanho as lutas dela. O judô ajuda muito o pessoal que entra para o MMA. Ela tem uma luta de chão muito boa. Seria bem legal. O MMA é muito diferente do judô então eu teria que treinar bastante primeiro. Ver como iria me adaptar em dar e receber socos. Vou treinar e ver como irei me sair no MMA.

A partir de 2010 algumas regras do judô mudaram. As pegadas de perna, que eram muito usadas no leste europeu, foram banidas. Golpes como o morote-gari e o kata-guruma foram proibidos e o atleta que os executasse seria desclassificado da luta. Qual a tua opinião sobre as mudanças na regra?

Muita gente não gostou, mas eu achei bacana. Já fui desclassificada de uma competição por ter feito catada de perna mas era uma ação instintiva. Ficou um judô mais limpo, mais bonito de ser assistido. Acabou gerando mais ippons (golpe perfeito, no qual o atleta projeta as costas do seu oponente no tatame). Muita gente não arriscava a entrada de golpe para não sofrer o contra-ataque com a pegada de perna. Parecia uma luta greco-romana porque os atletas ficavam mais retraídos. Depois das mudanças na regra o esporte ficou mais bonito como era antigamente. Achava errado no começo, quando as atletas tocavam na perna do adversário por engano. Lembro do caso da Rafaela Silva, uma das principais atletas do Brasil para conseguir medalha em Londres (Jogos Olímpicos). Não foi na maldade que ela fez isso, mas mesmo assim desclassificaram a atleta.

Arquivo Pessoal/João Derly

Bicampeão mundial, o deputado federal João Derly é a principal influência de Mayra no judô

Em 2005, com apenas 13 anos, você era sparring do João Derly (atleta selecionada para aperfeiçoamento das técnicas de outro atleta), que se tornou campeão mundial de judô naquele ano. Quanto isso te ajudou no amadurecimento para que hoje você seja a número 1 do ranking?

Me ajudou muito! No judô, por proteção, primeiro aprendemos a cair e depois a derrubar. Quando você ajuda seu companheiro estará te ajudando ao mesmo tempo. Quando vi o que o João Derly passava eu me espelhei muito nele. Percebi, vendo o João Derly, tudo o que precisa fazer para ser um campeão mundial. Quando alguém que treina no mesmo ambiente que você e prova que é possível conseguir um título dessa expressão todas as pessoas que estão em volta passam a acreditar que elas também podem. No mundial que ganhei na Rússia, pude passar um pouco do meu aprendizado para atletas mais novas e isso me deixou muito feliz.

No ano de 2006, com apenas 15 anos, em Santo Domingo, você conquistou sua primeira medalha em campeonatos mundiais júnior de judô. Depois disso veio a prata em Bangkok (2008), bronze em Paris (2009) e se consagrou campeã mundial júnior no Marrocos (2010). De onde surgiu esse amadurecimento para que você tivesse esse destaque no cenário mundial tão precocemente?

Eu comecei muito cedo. Essa ”malandragem” de competição eu precisei adquirir. Para chegar em uma final de mundial não adianta ser boa apenas fisicamente e psicologicamente, tem que ter aquela ”experiência de competição”. Saber administrar bem uma luta quando está ganhando ou perdendo. Adquiri muita bagagem lutando na categoria sênior também, enquanto a maioria das minhas adversárias não tinham essa bagagem. Na final no Marrocos estava na melhor fase de experiências com a categoria sênior e isso me ajudou bastante na categoria júnior.

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Campeã olímpica em Londres-2012, norte-americana Kayla Harrison (a segunda da direita para a esquerda) é a principal adversária de Mayra na categoria até 78 kg

Sabemos que a sua principal rival é a Kayla Harrison. No duelo, você tem sete vitórias contra seis vitórias da norte-americana. Essa competitividade te ajuda a evoluir ou atrapalha quando você acaba sofrendo algum revés perante a Harrison?

Ajuda muito! É uma luta boa de lutar e de assistir. Nos conhecemos muito bem e sempre é uma disputada muito tática e agressiva. A Kayla faz eu tirar sempre o melhor de mim. Quando estou cansada no treino, penso que ela está lá treinando forte e isso faz eu evoluir bastante. Independentemente do resultado da luta eu sempre vou sair com uma experiência a mais, analisando sempre os erros e os acertos.

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