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Repórter do Correio do Povo, Alfredo Possas faz um balanço dos 30 anos de profissão

por Paula Fernandes | paula.1909@yahoo.com.br

Morte do poeta Mario Quintana, final do Campeonato Brasileiro de 1979 e o motim do Presídio Central em 1994 foram alguns dos eventos que o jornalista José Alfredo Heimberg Possas cobriu ao longo dos anos da carreira como repórter de rádio e jornal. Nascido em Pelotas, Possas se formou em Comunicação Social pela Universidade Católica de Pelotas em 1984. Com experiência na Rádio Universidade e na Rádio Pelotense, se mudou para Porto Alegre em 1985, com 27 anos. Passou pelas rádios Sucesso, Bandeirantes e Guaíba. Atualmente escreve para a editoria de esportes do jornal Correio do Povo e trabalha como assessor de imprensa da Secretaria Municipal de Esporte, Recreação e Lazer (SME). Com comentários apimentados e sem medo de expor suas ideias, Possas falou ao UniRitter Esporte sobre o jornalismo e as mudanças pelas quais ele vem passando.

Por que você escolheu o jornalismo?
Nem eu mesmo sei. Meus avós queriam que eu fosse engenheiro e meu pai sonhava que eu fosse advogado. Até me formei em Edificações no ensino médio e fiz vestibular para Engenharia como primeira opção, Direito como segunda e Comunicação Social em terceira. Foi o que deu. Entrementes, por ser profundo conhecedor de futebol, gostar muito e brincar de narrar jogos de botão e as peladas no bairro, um amigo e vizinho sugeriu que entrasse na rádio onde ele trabalhava na Contabilidade. Foi no mesmo momento que ingressei na mesma Universidade que era a dona da emissora. Então paguei minha faculdade de jornalismo com o (pouco) que ganhava na própria rádio…  além do mais, desde a adolescência eu já escrevia em casa, crônicas filosóficas e contos, com a máquina de escrever de meu pai.

Arquivo pessoal

Possas aos 21 anos no estúdio da Rádio Universidade, em Pelotas

Qual a diferença entre o jornalismo do século XX e o século XXI?
Posso definir em uma única palavra: informática. Nos primórdios, final do século XIX, as matérias eram escritas à mão, para depois serem compostas nas tipografias. Depois surgiram as máquinas de escrever e já no último quarto de século passado os computadores. Mas a informática, que propicia a internet, abriu um leque ilimitado de busca de informações, inclusive em mapas, enciclopédias, manuais, etc. Inicialmente, as notícias eram buscadas pessoalmente com as fontes; depois por telefone; com o surgimento do e-mail, através dele. E agora pelas redes sociais.

Dentro do jornalismo, qual veículo preferido?
Eu prefiro o rádio, embora também goste de TV. Primeiro porque falar é fácil, mas falar bem é muito mais difícil. A vantagem do rádio é ser instantâneo. Antigamente, comunicava-se de qualquer lugar pelos walkie talkies, radiocomunicadores ou por telefone. Os telefones públicos (nossos simpáticos orelhões) foram muito úteis. Eu usei muito, de vários lugares do Brasil. Ia-se até um e ligava-se a cobrar para a central técnica para entrar ao vivo ou gravar. Fiz muito no Morumbi, Maracanã, Mineirão, etc. Cobri muitos acontecimentos com o orelhão, antes da era do celular. A morte do nosso poeta maior, Mario Quintana, tive a primazia de divulgar em primeira mão graças a um telefone público na portaria do Hospital Moinhos de Vento. O grande motim do Presídio Central, em 1994, da mesma forma, graças a um orelhão em frente ao mesmo. Para encerrar, o rádio faz-se na hora e deu, vai para casa. Jornal faz-se quase a mesma coisa que o rádio, mas depois de tudo, tem que correr para a redação e escrever, escrever, reescrever, corrigir, editar, ajustar, revisar, etc. Já a TV é refém da imagem. Tudo, desde texto até o enfoque da informação, passa pelo que se tem de imagem. Isso não me agrada, pois deixa em segundo plano o cerne da informação, que é ir “direto ao assunto”.

Arquivo pessoal

Possas entrevista Mário Sérgio na final do Brasileirão de 1979

Na sua opinião, o jornalismo esportivo tem decaído ao longo dos anos?
Decaindo não, acho que piorando. Decaindo a qualidade, pois aumentaram os veículos e até meios de se fazer jornalismo esportivo, com a proliferação das TVs por assinatura, sites e blogs. Hoje em dia, qualquer torcedor tem seu blog e vira um “cronista esportivo”. Até a virada do milênio era o contrário: o cara ou foi bom de bola ou entendia tudo de futebol para ser cronista esportivo. Hoje qualquer um faz “jornalismo esportivo”.

É difícil fazer jornalismo esportivo no Rio Grande do Sul, já que é focado em futebol e apenas na dupla Grenal?
É difícil fazer um BOM jornalismo esportivo, mas é fácil fazer jornalismo esportivo. O problema dos porto-alegrenses é que acham que só existe a dupla Grenal no futebol estadual, nacional e mundial. Mas existe “vida” fora do planeta Porto Alegre. Então os videogames criaram os cronistas esportivos mundiais, ou seja, os que sabem tudo sobre futebol europeu e nada sobre o futebol gaúcho.

A imprensa gaúcha está ultrapassada? Deve se renovar?
Eu acho que há dois tipos de cronistas esportivos gaúchos: os que conhecem só suas aldeias (interior) e dupla Grenal e os que priorizam e só conhecem o futebol europeu, principalmente espanhol (leia-se Barcelona) e inglês. Vale lembrar que há muitos interesses financeiros envolvidos na mídia esportiva; mesmos patrocinadores de clubes e jogadores patrocinam algumas empresas. Então daí os elogios e críticas são absolutamente “suspeitos” e nem um pouco isentos.

Arquivo pessoal

Na Rádio Universidade com José Paulo Nobre e Umberto de Campos em 1981

Vocês já trabalhou fora do Rio Grande do Sul?
Não. Tive oportunidade, convites para trabalhar em Fortaleza, Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Florianópolis e Criciúma, mas os laços de família e as ligações com familiares e parentes pesaram mais e nunca fui.

E qual a diferença do jornalismo esportivo gaúcho em relação ao resto do Brasil?
Aqui é mais bairrista; no resto do Brasil é pura paixão clubística.

Qual o seu conselho para quem quer seguir no jornalismo esportivo?
Acompanhar, ver e consumir tudo que diz respeito a esportes. Se quiser se fixar no futebol, ver e acompanhar atentamente o maior número de jogos possível. Se possível, todos!

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