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“Skatista das muletas” é considerado uma lenda do esporte de Porto Alegre

por Thuane Liesenfeld | tutuliesenfeld@hotmail.com

Na manhã de um sábado de novembro, em uma das pistas mais conhecidas de Porto Alegre, a Pista do Parque Marinha do Brasil, encontravam-se mais de dez skatistas de longboard. Enquanto o “surfe” (como os skatistas chamam o ato de andar nas pistas de skate) acontecia, os atletas também ajudavam um senhor de muletas que levava um skate no pé – reverenciando o homem e o cumprimentando como “Salve Marreta”. Quem via, não tinha ideia de que aquele senhor teria capacidade de andar como os vários outros rapazes bem mais novos que estavam no local. Quando ele tirava suas muletas do chão e subia no skate, no entanto, se sobressaía entre os outros tão saudáveis quanto ele.

Sérgio Nicola Brum, o “skatista das muletas”, mais conhecido como “Marreta”, é considerado uma lenda do skate de Porto Alegre. O seu amor pelas pistas começou aos 19 anos. Com um skate feito de rodinhas de patins e uma tábua, ele aprendia as suas primeiras manobras em 1974. Sérgio, hoje com 59 anos, nunca imaginaria que seria considerado o “pai do skate”.

Arquivo Pessoal

Sérgio não impediu que um acidente colocasse um ponto final na paixão pelo skate

Sempre envolvido com esportes, a sua paixão principal era longboard (prática em skates de corrida, com um aspecto de prancha). Apesar de sempre ter estudado muito para se formar projetista de circuitos eletrônicos e quase não ter tido tempo para hobbies, desde novo se incluía em campeonatos de longboard e downhill speed (prática com skate long para descer ladeiras e competir com velocidade).

Inclusive foi em um dos campeonatos de downhill que Marreta sofreu o acidente que mudou totalmente sua vida. No dia 6 de Outubro de 2007, na ladeira de Teutônia/RS – conhecida como a ladeira mais rápida do mundo – Sérgio estava a 132 km/h em uma corrida entre atletas. No momento em que estava quase cruzando a linha de chegada, se deparou com um carro estacionado em diagonal com a traseira para o meio da ladeira. Ele não teve como evitar a batida e colidiu com o veículo. Nesse acidente quebrou um dos braços, uma vértebra, parte das costelas e a perna esquerda.

Arquivo Pessoal

“Skatista das muletas” é bastante conhecido na pista do Parque Marinha do Brasil

Os médicos deram 5% de chance para Marreta voltar a andar. “Foi o momento mais horrível da minha vida, na verdade, eu mal acreditei que continuaria vivo. Não me contentei em passar o resto da minha vida em uma cama e comecei a praticar o skate-terapia”, lembra. O “skate-terapia”, como chama Sérgio, o fez voltar a andar. Com o método criado por ele, depois de um ano praticando os mesmos movimentos com o skate, ele começou a recuperar os sentidos da perna e das costelas. “Eu pedia para os meus filhos me carregarem até o skate e colocarem meus pés em cima o objeto. Eu estava há tanto tempo fazendo o mesmo exercício com as pernas que não acreditei quando comecei a senti-las novamente. Quase perdi a esperança”, diz ele.

Ainda precisando de muletas, ele não se intimidou em voltar a praticar o esporte. Com uma facilidade incrível para quem não consegue realizar todos os movimentos com o corpo, Sérgio encanta nas pistas. Admirado por todos que seguem os mesmos caminhos que ele, Marreta afirma que não fez nem a metade do que pretendia fazer em cima do skate, mas que fica muito lisonjeado por ter um valor tão fundamental dentro do esporte. “Para mim o momento em cima do skate é o meu único momento de liberdade. Ali eu não preciso ficar preso nos apoios das muletas”, diz Sérgio. E pra quem for visitar o Marinha, principalmente nas manhãs de sábado, encontrará sempre pelas pistas um curioso e discreto senhor de muletas deslizando entre os atletas com mais facilidade que muitos outros skatistas. O valor do esporte, para ele, é medido em vontade, superação e paixão pelo skate.

 

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