ÚLTIMAS NOTÍCIAS

“Tínhamos convicção do que estávamos fazendo”, diz idealizador da torcida mista

por Viviane Santos | vivi.20.03.sil@hotmail.com

Alexandre Limeira é gaúcho, apaixonado por futebol e fanático pelo Internacional. E não é um simples torcedor. Vice-presidente de administração do clube, Limeira é o idealizador do Grenal da Paz – iniciativa que reuniu gremistas e colorados lado a lado e fez sucesso no Campeonato Gaúcho de 2015. Nesta entrevista, ele revela ao UniRitter Esporte como transformou a ideia em realidade.

Viviane Santos/UniRitter Esporte

Vice-presidente de administração do Internacional, Alexandre Limeira foi o idealizador da torcida mista no Grenal

Como surgiu a ideia do Grenal da Paz?

Surgiu quando nós observamos na Copa do Mundo colorados e gremistas indo juntos aos jogos da Holanda, Alemanha e Argentina. Vimos que ali tinha o convívio dos clássicos que a gente não vê no Rio Grande do Sul, já que nos últimos dez anos sempre havia uma separação das torcidas. Nós vimos que tinha um público que gostaria de conviver lado a lado. Mais um ponto que nos fez pensar foi que no final do ano o D’Alessandro organizou um jogo beneficente e nesse jogo se repetiu o convívio pacífico entre colorados e gremistas. Isso nos inspirou a fazer no Campeonato Gaúcho clássicos com as duas torcidas juntas.

O primeiro Grenal da Paz foi no dia 1° de março. Sabendo que a iniciativa poderia dar errado, como foi o reforço no policiamento em relação aos jogos sem torcida mista?

Divulgação

Convivência pacífica de gremistas e colorados na Copa de 2014 motivou a criação da torcida mista

Não pensamos que poderia dar errado. Fomos no sentido de que iria dar certo e para dar certo foram feitas reuniões com o Ministério Público, Polícia Militar, Federação Gaúcha de Futebol, diversos outros órgãos públicos e com o Grêmio. Depois disso o Internacional apresentou o projeto com toda a logística de acesso, de estacionamento e de chegada. Cada um dos pontos foi pensado para que nós pudéssemos chegar a um processo que fosse um sucesso. Em nenhum momento nós tivemos medo de dar errado porque tínhamos convicção do que estávamos fazendo.

Há projetos para tornar mista toda a torcida do estádio?

Não é o objetivo. Penso que o estádio de futebol tem que ter os colorados que gostam de assistir com os colorados, os gremistas que gostam de assistir com os gremistas e também colorados e gremistas que gostam de assistir juntos. Então nós vemos a torcida mista como a inclusão do novo setor e não a substituição dos setores de torcida já existentes.

Como foi, para você, o primeiro jogo da torcida mista?

Foi bom ver a ideia dar certo. Sabíamos que estávamos fazendo algo com o impacto mais do que nacional, um impacto mundial. Duas semanas antes, comecei a receber ligações da BBC de Londres, da imprensa do México, da Argentina e dos Estados Unidos. Nós estávamos vendo aquela expectativa criada em um jogo de Campeonato Gaúcho, que nem era a final! Sabíamos que era algo especial, então nós queríamos viver aquele algo especial. Essa foi a parte mais bacana: curtir e mostrar a mensagem educacional, de tolerância e convívio. Esse objetivo foi alcançado.

Divulgação

Torcida mista do Grenal estreou dia 1° de março no estádio Beira-Rio

Tanto na Europa, como aqui, as torcidas são separadas. Você acha que isso aumenta a rivalidade?

Não influencia. Por exemplo, no jogo Inter e Atlético Mineiro, nós tivemos torcidas separadas. Mas, antes de começar o jogo, colorados e atleticanos estavam no pátio do estádio Beira-Rio conversando, bebendo junto, comendo um lanche junto, trocando ideia e fazendo piada de uma forma totalmente saudável e harmônica. Logo após, ao começar o jogo, cada um foi para o seu setor. As divisões de torcida às vezes são necessárias, como no caso da Europa, em que existe a separação. Lá, as torcidas são muito ligadas a partes políticas e religiosas. Aqui é mais ligada à paixão pelo clube. Então, em minha opinião não se compara exatamente com o modelo da Europa o modelo do futebol brasileiro.

Há a possibilidade de a torcida mista ser aplicada em jogos contra outros times?

Não tem a possibilidade, pois ninguém tem uma quantidade de amigos fluminenses, por exemplo. Para ter a torcida mista, precisamos de certa quantidade. Uma ideia parecida que vem sendo colocada em prática é a do convívio aberto das pessoas no pátio. Já está sendo aplicada em todos os jogos no Beira-Rio. Isso aconteceu contra o Universidad de Chile, Emelec e com o Atlético Mineiro na Libertadores. As pessoas estão convivendo lado a lado, cada um com a sua paixão, com a sua camisa e com total segurança sem precisar de separações físicas.

Divulgação

Iniciativa de torcida mista no clássico é inédita no Brasil

Ocorreu um incidente no Grenal da final do Gauchão, quando gremistas que não estavam na torcida mista atiraram cadeiras nos colorados. Esse episódio pode ameaçar o futuro da torcida mista?

Não, pois não foi na torcida mista que ocorreu isso. Tivemos três clássicos no campeonato, cada um com aproximadamente 12 mil torcedores na torcida mista e não houve nenhum relato de violência. O que aconteceu de jogaram as cadeiras foi com alguns vândalos e brigões que já estavam aí antes de surgir a torcida mista, assim como em 2006, no qual ocorreu o fato dos banheiros químicos queimados. Naquela época não tínhamos torcida mista e mesmo assim esses vândalos estavam dentro da torcida do Grêmio. Não considero que eles sejam a torcida do Grêmio, mas eram vândalos infiltrados e tenho certeza de que tem que ter uma punição pelos órgão públicos de segurança. Não é função do Inter e do Grêmio punir, mas sim do Ministério Público. Lugar de vândalo e briguento é na cadeia, tem de ser aplicada uma punição exemplar para eles. Enquanto não tiver punição eles vão continuar nos estádios.

Deixe um comentário