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UniRitter Esporte mostra a dura realidade dos jogadores que sonham com o sucesso no futebol

por Karine Munhoz | karine-soldi@hotmail.com

Futebol. Pense rapidamente sobre o assunto. O que lhe vem à cabeça? Jogadores milionários, com altíssimos salários, dirigindo carrões importados e desfilando ao lado de belas mulheres. Certo? Até pode ser, mas essa é uma pequeníssima e excepcional parcela de uma realidade muito mais ampla e obscura. A maior parte daqueles que vivem nesse mundo e que buscam esse sonho encontram toda a sorte de dificuldades e, sem dúvidas, em números gerais, o fracasso na tentativa é muito maior. É uma face pouco visível, mas muito cruel do futebol. Do futebol real. É a realidade de garotos, e de famílias inteiras, que investem o impossível em um sonho alcançável apenas para poucos.

O UniRitter Esporte investigou esse percurso e conta, agora, um dentre tantos casos que podem servir de exemplo. Um jovem com o sonho de jogar futebol que investe tudo o que tem para ser alguém no esporte e deixa outras prioridades de lado – inclusive embarca em uma aventura no estrangeiro pela mão de caça-talentos e empresários. O mais irônico, o seu nome: Romário. Um dentre vários Romários que vivem no mundo da bola, um lugar em que dificilmente há espaços para tantos craques.

Arquivo pessoal/Amello Romário

Romário é um dentre tantos jogadores que investem pesado em uma carreira no futebol

Amello Romário tem 23 anos. É zagueiro. Iniciou a carreira muito antes de pensar em seguir uma carreira: foi aos oito anos, em 1999, quando era apenas uma criança querendo se divertir com os amigos. Em princípio, como era de se esperar, tratava-se de mera brincadeira, mas, aos poucos, foi se tornando, primeiro, um sonho de menino, para, logo depois, se tornar uma incansável busca pela realização profissional.

Gaúcho de nascimento, teria, primeiramente de realizar a mais importante escolha moral da maior parte do povo que nasce ao Sul destes trópicos: Internacional ou Grêmio? Entretanto, a realidade nem sempre é tão simples quanto optar por vermelho ou azul. O primeiro time pelo qual Romário atuou foi o São José, também conhecido como Zequinha. Permaneceu militando ali por longos 12 anos – o que, para a volatividade com que as transferências se operam, é bastante significativo.

Da capital da província, pegou a BR-101 e saltou no estado catarinense para, depois, fixar-se no Paraná. Foi lá que ele passou a defender as cores da Associação Desportiva Atlética do Paraná, conhecida pela sigla ADAP. Permaneceu, contudo, nas terras paranaenses por curto período. Retornou a Porto Alegre, onde novamente o Zequinha o acolheu para ali ficar mais um único ano. Logo depois deixou a capital para navegar na portuária cidade de Rio Grande, jogando na equipe homônima da cidade.

A essa altura, já não se trata de um menino sonhador, mas de um homem feito que corria e percorria não mais um sonho, mas uma realidade verdadeiramente difícil. É principalmente neste momento que os esforços frustrados se tornam pesadas decepções. Decepcionado, decidiu tirar o time de campo, optando por abandonar temporariamente o futebol. Decisão essa que teve duração inferior à de um campeonato de pontos corridos: seis meses. A necessidade fez com que ele despendurasse as chuteiras.

Então apareceu aquela grande oportunidade da vida de um jogador. O avião que passa somente uma vez na vida, com a irresistível proposta de atuar por um clube no exterior. O destino: o antigo condado de Vlad, o famigerado Drácula: a oriental Romênia. Contudo, para tanto, teve de arcar com os custos das passagens, que não são modestos, sob pretexto e informação de que seria devidamente ressarcido.

Às minúcias: assinou contrato de duração de um ano; o salário de 800 euros mensais – pagos, no primeiro mês, parcelados, no segundo, e negligenciados a partir do terceiro. Esse foi só um dos problemas que Romário teria de enfrentar. “Passei dificuldades por morar em um continente distante, com uma cultura diferente e desconhecida por mim, sem a família, os amigos, sem saber falar e nem entender a língua”, relata Romário.

Arquivo pessoal/Amello Romário

Romário não se deixou abater depois de uma experiência frustrada na Romênia

Tendo, portando, montado o quadro do desmoronamento gradual de todas as expectativas depositadas nessa oportunidade. Um após o outro, todos os conhecidos que, com ele, embarcaram foram retornando, cruzando novamente o Atlântico, sem que recebessem, seja pelas passagens, seja pelo período em que na Europa estiveram.

Era a hora de tomar outra importante e definitiva decisão: retornar, também, ao Brasil, deixando no velho continente o que de ingenuidade de menino e de sonho ainda restava, trazendo uma mala repleta de frustrações.

Se há o batido clichê de que o brasileiro não desiste nunca, é bem verdade que há, igualmente, uma força de vontade inata que nos motiva à superação. Nesta narrativa particular, retratando a história de um entre muitos que compartilham do mesmo desejo, não é o momento de pingar o último ponto final, porque não se ouviu o apito final do árbitro encerrando a partida da vida. Romário pretende retornar ao exterior. Sem dúvida retornará, por ser, desde sempre, obstinado.

Os refletores começam a apagar as luzes, não há mais ninguém nas arquibancadas, a bola cuidadosamente colocada na marca do pênalti, com todas as dificuldades impedindo o gol, ouve-se o apito do juiz, e Romário, focado, corre na direção da bola, carregando toda a sua trajetória consigo e vestido com o sonho de criança. Sente-se o baque seco da batida na bola e esta desloca-se caprichosa e vigorosamente com destino certo… uma oportunidade, a chance, e persiste deslocando-se, trilhando uma parábola, como a curva da vida – será gol? -, e avança, e mais, e mais…

Dados extras: A Fifa estima que anualmente 1,5 mil jogadores são vendidos, emprestados, exportados e transferidos para o Exterior. A partir de 2010, aumentou em 5% o número total de transferências envolvendo jogadores brasileiros.

6 Comments on UniRitter Esporte mostra a dura realidade dos jogadores que sonham com o sucesso no futebol

  1. Nossa, que matéria interessante. Muitíssimo bem escrita. Parabéns.

  2. Sou jogador amador e me identiquei bastante com a reportagem. Muito legal.

  3. Mistura de texto literário com informação. O modo de escrever lembrou muito o do Rubem Braga. Meus sinceros parabéns.

  4. Mesmo não gostando nd de futbol, adorei a matéria. Ficou divertida e leve de ler msm sendo sobre um drama pessoal.

  5. Realmente bem escrita e muito interessante a abordagem. Parabéns pela reportagem.

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