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Weverton Pereira da Silva: da infância no Acre ao Maracanã

por Ulisses Miranda | ulisses_mr17@hotmail.com | edição de Robson Hermes | robsonhermescolombo@gmail.com

(Foto: Juan Mabromata/Getty Images)

Pé na terra. Bola rolando. Chute para um lado. Sujeira por todos os outros. Esse é um pequeno retrato da infância de muitos brasileiros. Quando falamos de jogadores de futebol, torna-se quase uma unanimidade. A história do goleiro Weverton Pereira da Silva, nascido em 13 de dezembro de 1987, na cidade de Rio Branco, no Acre, não é diferente. Bem, pelo menos nesse ponto não.

Família, as faltas na escola e o início no futebol
Criado pela mãe, Josefa Pereira, o atleta teve no avô, Olavo Gomes Correia, a figura mais próxima de um pai. O carinho da família não o deixou largar o colégio. Mesmo assim, os tempos de estudante foram recheados de faltas. Weverton revela que o número de aulas trocadas pelo futebol em apenas um ano chegou a quase 250. Nada que o tenha prejudicado.

“Como era um bom aluno, conseguia recuperar o material com os colegas e consegui passar de ano. Sempre fiz meus trabalhos e as provas. Como aluno, era nota oito, nota nove…”, resume.

Weverton nos tempos de Juventus, no Acre (Manoel Façanha/Arquivo Pessoal)

Weverton nos tempos de Juventus, no Acre (Foto: Manoel Façanha/Arquivo Pessoal)

Embora não pudessem o acompanhar no futebol, a mãe e o avô sempre apoiaram suas escolhas – exceto a de “matar” aula, até porque não tinham conhecimento sobre o assunto. Descobriram as fugas de Weverton após a primeira participação do goleiro na Copa São Paulo de Juniores. Representando o Juventus, time de sua cidade, o acreano chamou atenção do Corinthians. Os tempos rolando pelo campo de terra abundante e grama escassa terminaram. Em 2006, aos 19 anos, mudou-se para São Paulo.

“Quando fui embora (para São Paulo) que ela veio descobrir (sobre as faltas na escola), graças a Deus. A história é até curiosa, eu só estudava no primeiro e no segundo horário. Quando ela passava, ia embora”.

Início da carreira: sonho de ser o 1 entre milhões
A grandeza da metrópole não era motivo para temer. A capital acreana é seis vezes maior que a “terra da garoa” – falamos aqui apenas em território. Contudo, em termos populacionais, a cidade de São Paulo assusta. Comporta aproximadamente 30 vezes o número de habitantes de Rio Branco – e mais de 14 vezes a população de todo Estado do Acre. Nenhum número, no entanto, era mais cruel que o da distância. Os mais de 3,5 mil km o fizeram pensar em voltar. A distância da família pesou. Talvez, ali, o goleiro tenha sentido realmente o que sua posição diz nas entrelinhas. Weverton estava sozinho como quando seu time vai para o ataque.

“Foi algo muito difícil na minha vida. Lembro que cheguei em São Paulo e com dois dias queria ir embora. Quando eu saí do Acre tudo era bonito, tudo era legal, porque eu ia para o meu sonho, o sonho de muita gente. Quando cheguei lá e vi a realidade, de não ter a família perto, de não ter os amigos, vi que eu não ia aguentar. Foi a hora que pedi para ir embora. Não deixaram, me seguraram e foi muito difícil minha adaptação. Muito complicado, muito choro, muito trabalho, mas Deus cuidou de mim a todo momento”, relata.

Começo de carreira reserva ainda mais dificuldades para os goleiros (Manoel Façanha/Arquivo Pessoal)

Começo de carreira reserva ainda mais dificuldades para os goleiros (Foto: Manoel Façanha/Arquivo Pessoal)

As dificuldades e o choro do jovem goleiro repercutiram no desempenho. Em quase dois anos no clube paulista, ele não atuou nenhuma vez pelos profissionais. Foi preterido por Mano Menezes na composição do grupo principal que disputou a segundona do Campeonato Brasileiro de 2008. Em 2009, iniciou um ciclo de empréstimos em meio ao contrato com o Timão.

Jogando, finalmente
A primeira oportunidade se deu no pequeno Oeste, de Itápolis, cidade com menos de 43 mil habitantes, distante cerca de 365 km da capital do Estado de São Paulo. No Campeonato Paulista Weverton teve sequência. Atuou em 18 jogos com a camisa rubro-negra do Oeste. O time de Itápolis terminou na 14ª posição entre os 20 times que disputaram o Paulistão daquele ano. Na sequência da temporada foi para o América do Rio Grande do Norte. Após o acesso à elite do futebol nacional em 2006, o América voltou a disputar a segunda divisão em 2008, escapando do rebaixamento imediato à Série C nas últimas rodadas.

No clube potiguar, Weverton disputou 16 partidas e ajudou a manter o Dragão de Natal na Série B por mais uma temporada. No ano seguinte, foi novamente emprestado pelo Corinthians. O começo de temporada reservou mais uma disputa de Campeonato Paulista. Dessa vez, vestindo a camisa do Botafogo da cidade de Ribeirão Preto. Completou 22 jogos na meta do Fogão, incluindo a final do Campeonato Paulista do Interior contra o São Caetano. A vitória por 1 a 0 garantiu o primeiro título da carreira do goleiro.

Goleiro teve destaque no Botafogo de Ribeirão Preto (Léo Pinheiro/Reprodução)

Goleiro teve destaque no Botafogo de Ribeirão Preto (Foto: Léo Pinheiro/Reprodução)

Após o bom Paulistão com o Bota, Weverton assinou com a Portuguesa na metade de 2010. Um dos mais tradicionais clubes do Estado de São Paulo, a Lusa disputava a Série B do Brasileirão daquela temporada. A estreia do acreano foi com vitória. No dia 17 de julho, a Lusa aplicou 3 a 1 no Icasa, jogando no Canindé. Na temporada seguinte, fez parte da equipe apelidada de “Barcelusa”.

O acesso à Série A foi garantido com sete rodadas de antecedência e o título confirmado faltando três jogos para o término da disputa. Em 38 partidas a Portuguesa marcou 82 gols – recorde nesse formato da competição – e sofreu apenas 38 – melhor defesa da segundona. A performance de Weverton chamou atenção dos clubes da primeira divisão. Depois de mais de 100 jogos pela Portuguesa paulista, o goleiro fechou com o Atlético-PR. Um dos motivos para sair foi a não renovação de seu contrato.

“O Jorginho (técnico da Portuguesa em 2012) pedia desde o fim do ano (de 2011) a minha renovação de contrato, mas a diretoria sempre deixava para depois. Aí fica difícil. Tive de pensar na minha família e na minha tranquilidade. Se eu não estivesse bem, o clube me mandaria embora. É assim que o futebol funciona”, explicou Weverton, após o empate em 1 a 1 com o Palmeiras, pela 1ª rodada do Brasileirão da Série A de 2012.

Foi sua última partida pela Lusa.

Weverton era o goleiro da "Barcelusa", campeã da Série B de 2011 (Arquivo Pessoal)

Weverton era o goleiro da “Barcelusa”, campeã da Série B de 2011 (Foto: Arquivo Pessoal)

Acesso à Série A, braçadeira e oscilação
A primeira atuação do goleiro acreano pelo Atlético-PR foi no dia 16 de junho de 2012, no 0 a 0 com o Goiás, pelo Brasileirão da Série B daquele ano. Ao final da competição, Weverton e o rubro-negro de Curitiba voltaram à Série A. Na primeira divisão, logo na temporada de retorno, o Furacão fez grande campanha. Ficou em 3º lugar, atrás apenas de Cruzeiro e Grêmio. Além do bom Brasileirão, o vice-campeonato da Copa do Brasil do mesmo ano já fazia com que o arqueiro fosse especulado em clubes maiores. Atuações de destaque, como na semifinal contra o Grêmio em Porto Alegre são lembradas até hoje. Após uma vitória pelo placar mínimo no primeiro confronto, Weverton e mais dez atleticanos seguraram – os 43.899 gremistas e – o 0 a 0 na Arena. Aos poucos o goleiro começou a despontar como liderança do grupo e a ser escolhido capitão.

Weverton é exemplo para todos no clube paranaense (Giuliano Gomes/PR Press)

Goleiro é um exemplo para todos no clube paranaense (Foto: Giuliano Gomes/PR Press)

Classificado para a Libertadores da América de 2014, Weverton fez sua primeira partida internacional na primeira fase da competição, na chamada “pré-Libertadores”. O Furacão eliminou o Sporting Cristal do Peru depois de uma vitória para cada lado por 2 a 1. A classificação à fase de grupos veio nos pênaltis – Weverton pegou dois.
O acreano e o Atlético-PR foram eliminados na fase de grupos da competição continental. Fizeram uma campanha modesta no Campeonato Brasileiro de 2014 – terminando na 8º posição com 54 pontos, 15 atrás do último classificado para a Libertadores de 2015.

Nesse campeonato, um fato curioso demonstra bem quem é o líder e cidadão Weverton. O técnico atleticano na época, Claudinei Oliveira, tinha um jogador de muito potencial em má fase. O atacante Marcelo Cirino estava longe de suas melhores atuações. O técnico pediu ao goleiro que cedesse para o atacante a braçadeira de capitão. A ideia deu tão certo que Cirino foi negociado com o Flamengo no ano seguinte.

“Conseguimos resgatar o Marcelo, não teve vaidade e o Weverton entendeu a situação. Depois, ele retomou o posto. Não é um cara que quer aparecer. Parece marrento à primeira vista. Muitas pessoas podem achar isso por causa do visual, mas não tem nada a ver. Ele é uma pessoa tranquila e ajuda demais. Extremamente focado e esforçado, tem muito carisma e o torcedor o adora. É uma liderança positiva”, elogiou o ex-técnico do Atlético-PR.

(Divulgação)

Temporada 2015 foi difícil para o goleiro e o Atlético-PR (Foto: Divulgação)

Em 2015, mais atuações de destaque do capitão atleticano. No entanto, a aposta da diretoria em um grupo jovem terminou com as chances do Furacão em dar voos maiores, tanto na Série A quanto na Copa do Brasil. No Brasileirão o rubro-negro paranaense ficou no meio da tabela, em 10º lugar com 51 pontos – 11 atrás do último classificado para a Libertadores de 2016.

Na Copa do Brasil, Weverton foi determinante para evitar um vexame – ao menos momentaneamente. Na primeira fase, contra o Remo, dois empates em 1 a 1 levaram a decisão da vaga para os pênaltis. Foi a segunda disputa de penalidades máximas na carreira do goleiro e a segunda vitória. Mas, a comemoração não durou muito tempo. Na fase seguinte o Furacão foi eliminado pelo Tupi, de Minas Gerais. Os mineiros venceram por 1 a 0 no Helenão em Juiz de Fora. No jogo de volta, a vitória por 2 a 1 foi insuficiente para classificar os paranaenses. Uma temporada para ser esquecida.

Desejo realizado, surpresa dourada
O ano de 2016 está para Weverton como a posição de goleiro está para o futebol: imprevisível. Alguns acontecimentos, é claro, há como prever. Isso se estivermos nos referindo a nossas vidas, porque se a discussão é a atuação de um arqueiro, pode esquecer. É imprevisível sim! Não importa: o bom goleiro pode (e vai) falhar; o goleiro de qualidade duvidosa vai operar milagre (s) – contra o seu time, sobretudo. Essa proximidade profissional com o improvável pode ser o motivo que levou Weverton à seleção que disputou os Jogos Olímpicos do Rio 2016. Obviamente, as atuações consistentes nos últimos anos, assim como a liderança exercida dentro de um clube da Série A do Brasileirão também contam. Mas, não podemos deixar o impensado longe dessa posição e daqueles que a executam.

Idolatria no Atlético-PR é reflexo das grandes atuações com a camisa 12 (Franklin Freitas/Reprodução)

Idolatria no Atlético-PR é reflexo das grandes atuações com a camisa 12 (Foto: Franklin Freitas)

Aos 28 anos, o acreano foi convocado pela primeira vez. Substituiu o goleiro do Palmeiras, Fernando Prass, de 38 anos, também lembrado pela primeira vez. O que mais eles têm em comum? Além da titularidade incontestável em seus clubes, ambos são capitães. E em grupos com muitos jovens. Para os Jogos Olímpicos, apenas três jogadores acima dos 23 anos podem ser convocados. Isso explica a importância que Prass teria e que Weverton teve. O desejo de chegar à Seleção se concretizou.

Goleiro acreano beija a inédita medalha de ouro para o futebol brasileiro (Ueslei Marcelino/Reuters)

Goleiro beija a inédita medalha de ouro para o futebol brasileiro (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)

Podemos resumir a primeira passagem de Weverton com camisa da Seleção no ouro olímpico inédito para o futebol. Ou, talvez, na defesa da cobrança de Petersen, a quinta da série de pênaltis da Alemanha (sim, ela mesma) naquela final. Mas, não há como ser simplista. A defesa de Weverton foi gigante. A bola espalmada teve um pouco de Prass. Dos goleiros com ou sem sorte. Experientes e inexperientes. Dos que ainda sonham e dos que já sonharam pisar no gramado do Maracanã. Sonharam em deitar naquele tapete verde, nem que fosse para dormir e continuar sonhando. O voo para o canto esquerdo teve um pouco de Dida, Taffarel e tantos outros defensores da meta verde-amarela que ficaram no caminho do ouro. O goleiro acreano chegou lá.

“Eu nem pensava que pudesse estar aqui. A primeira (cobrança) passou perto. A segunda (cobrança), mais perto ainda. Eles estavam batendo forte, acertando bem o canto. Deus me reservou o quinto (pênalti). Enfim, o ouro é nosso”, comemorou.

FONTES CONSULTADAS:

MAIA, João Paulo. Tudo Menos Futebol: vaidoso e não-romântico, Weverton quer ser pai. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/ac/futebol/noticia/2016/01/tudo-menos-futebol-vaidoso-e-nao-romantico-weverton-quer-ser-pai.html. Acesso em: 10 de Out. 2016.

MOREIRA, Guilherme e PIVA, Daniel. Sucesso dentro e fora de campo: conheça melhor Weverton, goleiro da Seleção. Disponível em: https://esportes.terra.com.br/lance/sucesso-dentro-e-fora-de-campo-conheca-melhor-weverton-goleiro-da-selecao,24c668441d4df3b9f3751fa836f54ae58is0zvlk.html. Acesso em: 9 de Out. 2016.

GLOBO ESPORTE. Weverton se despede e espera que torcida entenda sua opção. Disponível em: http://globoesporte.globo.com/futebol/times/portuguesa/noticia/2012/05/weverton-se-despede-e-espera-que-torcida-entenda-sua-opcao.html. Acesso em: 10 de Out. 2016.

SPORTV. Herói da conquista, Weverton valoriza geração: “Merecemos respeito”. Disponível em: http://sportv.globo.com/site/programas/rio-2016/noticia/2016/08/heroi-da-conquista-weverton-valoriza-geracao-merecemos-respeito.html. Acesso em: 11 de Out. 2016.

BREJINSKI, Ricardo. PASSADA A POLÊMICA DO PÊNALTI, WEVERTON SE VÊ NO AUGE DA CARREIRA. Disponível em:  http://www.tribunapr.com.br/esportes/atletico/passada-polemica-do-penalti-weverton-se-ve-no-auge-da-carreira/. Acesso em: 12 de Out. 2016.

CAMPOS, Ciro. Herói, goleiro Weverton já sonha com vaga na seleção principal. Disponível em: http://esportes.estadao.com.br/noticias/jogos-olimpicos,heroi-goleiro-weverton-ja-sonha-com-vaga-na-selecao-principal,10000071008. Acesso em: 11 de Out. 2016.

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