ÚLTIMAS NOTÍCIAS

Yursa Mardini: nadando pela vida e pelo ouro

por Leonardo Dutra | leodutra19@gmail.com | edição de Robson Hermes | robsonhermescolombo@gmail.com

Mardini realizou seu treinamento na Alemanha, onde vive atualmente (Foto: Divulgação)

Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro se tornaram históricos pela quebra de paradigmas, como a transexual Lea T que ganhou destaque na cerimônia de abertura, ou o pedido de casamento para a atleta Isadora Cerullo, feito por sua namorada após o término da participação da seleção brasileira feminina de rugby. Mas nada chamou tanta atenção nessa questão do que a primeira participação de um time montado inteiramente por refugiados na história das Olimpíadas.

Representando pessoas que tiveram que deixar o seu país de origem em busca de uma nova vida, o Time Olímpico de Refugiados foi criado em uma cooperação entre o Comitê Olímpico Internacional e o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. A ação identificou inicialmente 43 esportistas em situação de refúgio e selecionou dez para serem representantes da bandeira olímpica nos jogos. O apoio financeiro foi dado pela organização Solidariedade Olímpica, além de patrocínios como o da empresa Visa.

Mardini em entrevista coletiva para a ONU (Foto: Divulgação)

Mardini em entrevista coletiva para a ONU (Foto: Divulgação)

Entre eles, uma garota magra e com rosto infantil se destaca por sua história de superação. É Yusra Mardini, nadadora nascida na Síria e que, desde setembro de 2015, vive na Alemanha. Ela nunca venceu uma competição oficial, mas já mostrou ao mundo sua força de vontade. Yusra nasceu no ano de 1998, em Damasco, capital da Síria, e desde os três anos já praticava a natação, incentivada por Izzet Mardini, seu pai e técnico. Em 2011, explodia uma guerra civil no país e o cenário de destruição se tornou rotina para os Mardini.

Yusra teve que conviver em centros de treinamento sem teto após bombardeios, além da morte de dois colegas de natação. Em 2012, a guerra afetou sua vida diretamente pela primeira vez, quando uma bomba destruiu a casa de sua família. Apesar de tudo, no mesmo ano Yusra ainda representou a Síria no Campeonato Mundial de Piscina Curta, disputando três eventos aos 15 anos com o apoio do Comitê Olímpico Sírio.

Sua vida mudou drasticamente no ano de 2015, quando junto de sua irmã, Sarah, Yusra decidiu fugir do país após a guerra – que já causou mais de 400 mil mortes – estourar de vez. Começou então uma das histórias mais impressionantes do ano de 2015. Com a intenção de chegar na Grécia, as duas conseguiram, após muitos percalços, passar pelo Líbano e chegar a Turquia. Já na costa do mar Egeu, as irmãs entraram num bote com espaço para sete pessoas, mas que carregava na viagem um total de 20. O bote acabou falhando duas vezes no mar, sendo que na segunda o motor parou de funcionar completamente.

Num ato heroíco, Yusra, acompanhada de sua irmã e mais três pessoas, decide enfrentar o Mediterrâneo a nado, puxando o bote durante três horas e meia até chegar a Lesbos, no litoral grego. Entre a Grécia e Alemanha uma nova odisseia. Atravessando a pé ou em veículos de contrabandistas, passou pela Macedônia, Sérvia, Hungria e Áustria e chegando, por fim, a um campo de refugiados em Berlim.

Yusra disputou os jogos pelo Time Olímpico de Reugiados

Yusra disputou os jogos pelo Time Olímpico de Refugiados (Foto: Divulgação)

Um  intérprete egípcio do campo descobriu a história de Yusra e a ajudou na busca de uma chance no clube Wasserfreunde Spandau 04, no qual recebeu apoio do técnico Sven Spannekrebs. Vendo seu potencial, Spannekrebs a instigou a buscar uma vaga na Olimpíada de 2020, mas ao saber que o COI criaria uma equipe de refugiados para 2016, a nadadora começou uma rigorosa rotina de treinamentos. Isso tudo já ao lado de sua família, que recebeu asilo temporário em janeiro de 2016.

Nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, Yusra Mardini se tornou a primeira atleta a disputar um evento olímpico representando os refugiados, participando de duas eliminatórias de natação, nas quais não conseguiu se classificar. Mas isso é o de menos, pois a jovem nadadora, apesar de ter grandes feitos conquistados, apenas começou a escrever sua história.

FONTES CONSULTADAS:

BAZZO, Gabriela. Yusra Mardini, a refugiada que fugiu da Síria nadando. E agora vai nadar na Rio 2016. Disponível em: http://www.brasilpost.com.br/2016/08/05/yusra-mardini-equipe-refugiados_n_11355004.html. Acesso em: 10 out. 2016.

NADDEO, André. Yusra Mardini e o 41º lugar que vale ouro. Disponível em: https://www.rio2016.com/noticias/yusra-mardini-e-o-41o-lugar-que-vale-ouro-time-olimpico-refugiados-rio-2016. Acesso em: 10 out. 2016.

SAUL, Heather. Yusra Mardini: Olympic Syrian refugee who swam for three hours in sea to push sinking boat carrying 20 to safety. Disponível em: http://www.independent.co.uk/news/people/yusra-mardini-rio-2016-olympics-womens-swimming-the-syrian-refugee-competing-in-the-olympics-who-a7173546.html. Acesso em: 10 out. 2016.

WILDER, Charly. She Swam to Escape Syria. Now She’ll Swim in Rio. Disponível em: http://www.nytimes.com/2016/08/02/sports/olympics/a-swimmer-goes-from-syria-to-rio-from-refugee-to-olympian.html?_r=0. Acesso em: 10 out. 2016.

THE UN REFUGEE AGENCY. TeamRefugees: Yusra Mardini. Disponível em: http://www.unhcr.org/news/videos/2016/6/575150247/teamrefugees-yusra-mardini.html. Acesso em: 10 out. 2016.

Deixe um comentário