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Yusra Mardini, a menina que abriu o mar

Por Sidd Rodrigues | siddrodrigues15@gmail.com

Divulgação/ONU

Naquela noite, ninguém dormiu. O frio da madrugada no meio do Mar Mediterrâneo fazia homens e mulheres, velhos e crianças, tremerem e se encolherem  uns contra os outros, enquanto o pequeno bote singrava as ondas, iluminado apenas pela luz da lua que se derramava sobre as ondas. O silêncio era quebrado apenas pelo som do motor que reclamava do peso do barco superlotado. No pequeno espaço, onde cinco ou seis poderiam ocupar, mais de vinte se amontoavam.

No meio dos navegadores estava Yusra Mardini. A pequena garota, de 1,67 de altura e dezesseis anos, ainda tinha claro em sua memória o momento que os mísseis disparados pelas forças do governo da síria destruíram seu bairro, na capital do país, Damasco. Em um instante, o silêncio daquela noite foi rompido, enquanto as baterias de artilharia arrebentavam paredes.

Antes daqueles dias, Yusra era uma promissora nadadora. Em 2012, antes da guerra tomar conta do país, a pequena garota competiu no mundial de natação em piscina curta, nos 200m e 400m livre e 200m medley, quando tinha 14 anos. A jovem crescia no esporte, enquanto a guerra ficava cada vez mais violenta. Sem lugar de treinamento, Yusra precisou pausar sua carreira.

No meio das ondas, o barulho do motor foi ficando cada vez menor. Em poucos minutos, o barco parou, e a água gelada molhava os pés, inundando o fundo do barco. Enquanto a água subia cada vez mais rápido, a própria morte pousava suas mãos sobre aquelas almas. Acompanhadas da família, Yusra e sua irmã, Sarah Mardini já estavam há vários dias viajando. Após o bombardeio, fugiram do país natal e chegaram ao líbano, em agosto de 2015. Sem abrigo, seguiram atravessando o oriente médio até a Turquia, acompanhando o maior êxodo humano da história moderna. Atrás de refúgio, elas buscaram um meio de seguir até a Grécia, porta de entrada da Europa.

Quando a água já tomava conta do bote, as duas pularam na água para a prova de natação mais importante de suas vidas. Como plateia, apenas a tragédia, disputando como medalha apenas a chance de seguir lutando. Durante quatro horas, as braçadas puxaram todas aquelas pessoas, que sem as nadadoras pereceriam sob o lençol das ondas. Logo após o sol cortar o céu com suas longas flechas douradas, a lendária ilha de Lesbos despontou no horizonte. A mesma ilha para qual Ulisses e seu barco foram guiados pelo deus solar Apolo na Odisseia, reafirmando a vocação do pequeno pedaço de terra no sul da Grécia como socorro dos desesperados.

Após tocarem a areia da praia grega, o descanso não foi permitido. As irmãs Mardini seguiram sua própria aventura, atravessando a Grécia, a Macedônia e países do Leste Europeu até chegarem em Berlim, onde conseguiram a chance de celebrar sua sobrevivência. Foi na Alemanha que Yusra pulou mais uma vez na piscina, dessa vez para competir de novo. A nadadora, que iniciou a carreira nadando no estreito entre a Turquia e a Grécia, recebeu o convite para subir no bloco em 2016, no Rio de Janeiro, na primeira delegação de refugiados dos Jogos Olímpicos de Verão, competindo sob a bandeira olímpica. Mas, aquela competição, ainda não era nada comparada com a medalha da vida.

FONTES CONSULTADAS

The UN Refugee Agency. TeamRefugees: Yusra Mardini. Acesso em: 7 out. 2016.

NADDEO, André. Yusra Mardini e o 41º lugar que vale ouro. Acesso em: 12 out. 2016

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