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Yusra Mardini: braçadas pela vida

por Rafael Godoy | rg.rafaelgodoy@gmail.com

Yusra Mardini treinando para os Jogos Olímpicos (Foto: Divulgação)

O sol já não brilhava mais, e a noite tomava conta do Mar Egeu, considerado o berço de diversas civilizações da Antiguidade. Repleto de belas ilhas, faz parte do Mar Mediterrâneo. O percurso já estava traçado, e a primeira escala seria na encantadora e histórica ilha grega de Lesbos. Noite fria e escura. As irmãs Yusra e Sarah Mardini, estavam acompanhadas de outros 18 refugiados da guerra civil que destrói a Síria desde 2011. Todos estão em uma embarcação nada apropriada para este tipo de viagem, em uma situação precária e perigosa. As irmãs fugiram do país sírio devido à violenta e sangrenta guerra civil que está assolando o povo e o país, causando mais de 470 mil mortes desde seu início, embora o número de vítimas possa ser maior.

Yusra e sua irmã Sarah (Foto: Divulgação)

Yusra e sua irmã Sarah (Foto: Divulgação)

Uma nova vida era sonhada em território alemão, uma nova esperança. Prevendo dias melhores, Yusra Mardini decidiu que fugiria da Síria, e motivos não faltavam. Os conflitos estavam acabando com o país, gerando muitas mortes, e ela não queria ser a próxima vítima. Os bombardeios eram intensos em Damasco, capital do país, tanto que destruíram sua casa e o centro de treinamento onde ela realizava seus treinos periódicos. Acabou com tudo de físico que havia pela frente, mas não com o sonho de competir em uma edição dos Jogos Olímpicos.

Yusra nasceu em Damasco, em 5 de março de 1998. Filha de um técnico de natação, foi “jogada” na piscina aos 3 anos de idade. Desde então, não parou mais de treinar: rapidamente mostrou seu talento dentro d’água e se tornou uma promessa olímpica. Sua meta já estava traçada, mas teve de ser interrompida por causa da guerra.

Quando a guerra tomou proporções imensas, o seu principal objetivo passou a ser outro: manter-se viva ao lado da família. Na sua adolescência, período que deveria intensificar seus treinamentos, seu sonho de se tornar uma campeã olímpica teve que ser deixado de lado. Em um bombardeio, sua casa em Daraya foi totalmente destruída e a única maneira de sobreviverem era deixar o país.

Apesar da insistência de sua mãe em não deixar suas filhas fugirem, Yusra e sua irmã decidiram partir rumo a um novo país, em busca de novas possibilidades para continuar nadando e mais do que isso, sobrevivendo.

Era uma longa e difícil jornada, que consistia em diversas etapas e muitos obstáculos. O primeiro passo seria tomar um voo de Damasco com destino a Beirute, no Líbano, e após isso chegar a Istambul, na Turquia. No país turco, as jovens tinham que conseguir alguma maneira de chegar à Grécia, tudo isso em um curto período de tempo. Primeira etapa concluída com sucesso. Na Turquia embarcaram em um bote que conseguiram com contrabandistas. No bote que tinha capacidade para 6 pessoas, embarcaram 20, superlotando o mesmo. Tudo estava como planejado, contudo a viagem não seria nada fácil. Após 20 minutos que haviam partido da costa turca, o motor da embarcação parou de funcionar e logo começou a encher de água.

O desespero tomou conta de todos os tripulantes que começaram a se desfazer das malas e seus pertences, mas foi em vão: a água continuava a entrar no bote. Foi então que a história das jovens começou a tomar proporções de dramaticidade e heroísmo. Em uma atitude de desespero e coragem, as irmãs Mardini, juntamente com dois homens, se jogaram ao gelado Mar Mediterrâneo, amarram cordas aos seus corpos e começaram a nadar. Logo os dois homens desistiram, deixando-as rebocando o bote por mais de três horas seguidas, salvando a si próprias e os demais refugiados. Chegaram à ilha de Lesbos, na Grécia, exaustas, com muitas dores, queimadas pelo sal do mar, mas com sentimento de alívio, e aclamadas como verdadeiras heroínas. Mas ainda havia um longo percurso a ser realizado.

Yusra com seu treinador (Foto: Divulgação)

Yusra com seu treinador (Foto: Divulgação)

Começou um longo caminho a pé e de trem por Macedônia, Sérvia, Hungria e Áustria, até chegarem à Alemanha. Depois de muito esforço e perseverança as irmãs conseguiram chegar a seu destino final. Na Alemanha conseguiram moradia, novas condições de treinamentos e uma nova oportunidade de tornar seu sonho uma realidade.

Quando essa história chegou aos dirigentes do Comitê Olímpico Internacional (COI), não houve dúvidas: decidiram convidar Yusra a participar do Time Olímpico de Refugiados e se juntar a outros nove competidores que também fugiram de seus países como refugiados de guerra. Yusra competiu nas provas de 100 metros livres e 100 metros borboletas. Seu desempenho não foi menos importante, mas ao final de tudo o que mais teve relevância e significado foi a mensagem que ela deixou para o mundo: “Eu quero que todos pensem que os refugiados são seres humanos normais, que tiveram que deixar suas casas. Não porque eles quiseram, não porque eles queriam ser refugiados ou fugir ou então fazer de sua vida um drama. Eles tiveram que sair. Para ter uma nova vida. Para ter uma vida melhor.”

FONTES CONSULTADAS:

SAUL, Heather. Yusra Mardini: Olympic Syrian refugee who swam for three hours in sea to push sinking boat carrying 20 to safety. Disponível em: http://www.independent.co.uk/news/people/yusra-mardini-rio-2016-olympics-womens-swimming-the-syrian-refugee-competing-in-the-olympics-who-a7173546.html. Acesso em: 24 out. 2016.

THE UN REFUGEE AGENCY. TeamRefugees: Yusra Mardini. Disponível em: http://www.unhcr.org/news/videos/2016/6/575150247/teamrefugees-yusra-mardini.html. Acesso em: 24 out. 2016.

Nadadora síria Yusra Mardini é primeira atleta refugiada a competir pelos Jogos Rio 2016. Disponível em: https://nacoesunidas.org/nadadora-siria-yusra-mardini-e-primeira-atleta-refugiada-a-competir-pelos-jogos-rio2016/. Acesso em: 24 de out. 2016.

NDEPENDENT. Yusra Mardini: Olympic Syrian refugee who swam for three hours in sea to push sinking boat carrying 20 to safety. Disponível em: http://www.independent.co.uk/news/people/yusra-mardini-rio-2016-olympics-womens-swimming-the-syrian-refugee-competing-in-the-olympics-who-a7173546.html. Acesso em: 24 out. 2016.

THE NEW YORKER. The Swimmer Who Fled Syria. Disponível em: http://www.newyorker.com/news/sporting-scene/the-swimmer-who-fled-syria. Acesso em: 24 out. 2016.

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