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Yusra Mardini: do mar Egeu para as piscinas olímpicas, uma história de superação

por Daiana Camillo | daianacamillo@hotmail.com | edição de Robson Hermes | robsonhermescolombo@gmail.com

Yusra Mardini chamou a atenção do mundo durante os Jogos Olimpícos (Foto: AP/Divulgação)

Agosto de 2015. Agosto de 2016. Um ano pode mudar muita coisa, mas para a jovem Yusra Mardini, foi literalmente um renascimento. O oitavo mês do calendário é um período cheio de significados para a nadadora síria de 18 anos que chamou a atenção do mundo inteiro durante os Jogos Olímpicos não apenas pelo seu desempenho dentro das piscinas, mas também por sua demonstração de força e coragem no meio do mar Egeu, onde salvou a vida de mais de 15 pessoas. Yusra e sua irmã, Sarah, se valeram do clichê usado em muitas finais de competição: “nadaram por suas vidas”.

As duas jovens e mais três pessoas eram as únicas que sabiam nadar na pequena embarcação que fazia o trajeto que partia da Turquia rumo à Grécia, para fugir da guerra civil na Síria, que já vitimou mais de 400 mil pessoas. E isso decidiu o futuro daquelas vidas, que talvez não estivessem aqui hoje se não fosse por isso. A decisão não foi fácil e nem premeditada: sua família teve a casa destruída em um dos bombardeios e partiram rumo à Grécia, em busca de condições de vida melhores. Mas as dificuldades não pararam por aí. No que era pra ser o alívio de finalmente deixar um país mutilado por um conflito que se estende há anos, houve mais um problema. Na noite em que Yusra e Sarah partiram, aconteceu outra tragédia.

Era meio da noite. O mar Egeu é congelante, mesmo no verão. Embora as temperaturas sejam amenas durante o dia, à noite a situação muda drasticamente. Em uma travessia que duraria, no mínimo, umas sete horas, o pequeno barco que levava cerca de 20 refugiados em um espaço que comportaria no máximo seis, não resistiu. O motor falhou e o desespero começou a assomar os pensamentos dos tripulantes. Eles estavam no meio do nada, sem mantimentos, no frio. A situação poderia se complicar em alguns minutos. Yusra, Sarah e mais três pessoas que estavam ali não tiveram escolha. “Arregaçaram” as mangas e mergulharam na água fria, levando todos em segurança à ilha de Lesbos.

Não foi um trajeto fácil. Foram 3h30min de incertezas, da dureza das ondas batendo contra os corpos dos salvadores. Mas eles conseguiram. Yusra, em entrevista, falou: “seria uma vergonha se todos não chegássemos a salvo”. Mesmo jovem, a menina tem um senso de responsabilidade enorme. E foi essa característica que fez com que ela, um ano após o ocorrido, fosse competir nos Jogos Olímpicos do Rio 2016.

Jogos Rio 2016

Quando chegou na Alemanha, a adolescente continuou o treinamento que iniciou aos três anos de idade. Filha de um técnico de natação, sua paixão é hereditária. No clube Spandau 04, que fica na cidade de Berlim, ela tentou recuperar o tempo perdido para realizar o sonho de competir nos Jogos. Sua presença, no entanto, não estava definida até junho deste ano. O Comitê Olímpico Internacional (COI) discutia sua participação. Thomas Bach, presidente do Comitê foi um dos defensores ferrenhos da participação da jovem e do time dos refugiados, um grupo com dez atletas que competiu sob a bandeira olímpica.

Em sua classificação final, na eliminatória dos 100m livre, ela marcou 1m09s21 e terminou em 41º entre as 45 inscritas, passando longe de uma vaga nas semifinais, onde só as 16 melhores avançam. Mesmo com o resultado não tão promissor, a jovem foi aplaudida como se houvesse recebido uma medalha de ouro. Vinda de um país tão devastado, estar ali já era uma conquista.

Vida após as Olimpíadas

A jovem continua seus treinos, só que dessa vez com um status de “celebridade”. Em setembro deste ano, Yusra recebeu o prêmio “Girl Awards”, na primeira premiação do Global Goals do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). A síria recebeu o reconhecimento por ter salvado a vida de mais de 20 pessoas durante a travessia rumo à Grécia. A iniciativa estipula metas globais para que os grandes líderes das nações cumpram nos próximos 15 anos.

Yusra venceu na categoria "Girl Awards" (Twitter/Reprodução)

Yusra venceu na categoria “Girl Awards” (Foto: Twitter/Reprodução)

A jovem também apoia o Emergency Response Centre International (ERCI), que em sua página do Facebook fala um pouco sobre a iniciativa, como sendo uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo fornecer ajuda e suporte em ambientes complexos, como na região da Síria, devastada pela guerra. Ela está de olho agora nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. E espera obter resultados melhores, além de treinar desde o fim do último ciclo olímpico para isso.

FONTES CONSULTADAS

BAZZO, Gabriela. Yusra Mardini, a refugiada que fugiu da Síria nadando. E agora vai nadar na Rio 2016. Disponível em: http://www.brasilpost.com.br/2016/08/05/yusra-mardini-equipe-refugiados_n_11355004.html. Acesso em: 12 de out. 2016.

DOLZAN, MARCIO; FAVERO, PAULO. De heroína no Mar Egeu à piscina olímpica: conheça Yusra Mardini. Disponível em: http://esportes.estadao.com.br/noticias/jogos-olimpicos,de-heroina-no-mar-egeu-a-piscina-olimpica-conheca-yusra-mardini,10000068859. Acesso em: 12 de ago. 2016.

Nadadora síria Yusra Mardini é primeira atleta refugiada a competir pelos Jogos Rio 2016. Disponível em: https://nacoesunidas.org/nadadora-siria-yusra-mardini-e-primeira-atleta-refugiada-a-competir-pelos-jogos-rio2016/. Acesso em: 12 de out. 2016.

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